As mulheres vão nos salvar (de novo)!

Geral machista da nossa pátria amada salve salve até tolera o que eles chamam de “esquerda”, umas esmolas pros mais pobres aqui e ali e tals, uma Parada Gay acolá até que passa.

Agora, mulheres se posicionando politicamente, empoderadas e lutando por seus direitos, aí não: os caras simplesmente não sabem lidar, perdem a linha totalmente. Já tem “celebridade”, sub-celebridade, wannabes em geral e um monte de Zé por aí cagando regra pra dizer que “se as mulheres estivessem falando sério, não criariam um grupo contra o Bostanágua, mas fariam campanha pra Marina”, como se a escolha de um(a) presidente tivesse que passar por gênero e como se feminismo fosse o oposto de machismo (e como se Marina Silva não fosse perfeitamente capaz de apoiar o Bozonaro no segundo turno).

Surgiu um grupo “Mulheres por Bolsonaro” que só tem homem e há várias fake news circulando para desacreditar o outro, que elas criaram e que já conta com mais de um milhão de adesões em uma semana.
Pensam que assim vão evitar que elas salvem as eleições desse ano. Mal sabem eles que elas já salvaram.

Quando você ia com a farinha, elas já tinham comido o pão, chapa. Fica moscando aí de boca aberta, posando de Macho Alfa pra ver o que sobra de você, bonitão!

Sartre, fascismo e as Eleições 2018

“O inferno são os outros”, disse Jean-Paul Sartre.

Na mentalidade fascista, dualista, é preciso que haja um “inimigo” a ser combatido. O mais clássico é o diabo, logicamente.

Na História já foram os judeus, os comunistas, os ciganos, etc.
Hoje é a “esquerda”, essa entidade imaginária que serve basicamente pras pessoas elegerem um “mal comum”, um satanás qualquer, e não assumirem a responsabilidade por sua própria sombra, seus próprios ódios, limitações, medo e mesquinhez. Fascismo tupiniquim tacanho e escroto que põe vidas em perigo e julga o caráter alheio sem empatia ou misericórdia, muitas vezes escondido atrás da religião que é supostamente misericordiosa por natureza, a de Yeshua Ben Yosef, Jesus Cristo. Aquele mesmo que perdoou um ladrão na cruz e ensinou a “amar seus inimigos e orar pelos que lhe caluniam”.

Dois mil e dezoito anos depois, muitos dos que dizem segui-lo fazem campanha para um candidato que declarou ser seu livro de cabeceira “A Verdade Sufocada”, de Brilhante Ulstra, torturador que prendia canos de PVC com ratos dentro ao corpo de suas vítimas e um lado fechado, pra que eles tentassem sair pelo outro lado roendo a vagina de mulheres “comunistas”, “subversivas” ou qualquer outro rótulo que tirasse sua humanidade e as transformassem no “inimigo”, o “diabo”. Seja lá qual for o deus que estimula, aceita ou corrobora com isso, dele eu quero apenas distância. Amém.

O Paradoxo da Tolerância e as Eleições de 2018

Voltando ao tema da tolerância, obviamente por causa do clima político no Brasil. O filósofo Karl Popper https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper formulou a noção do “paradoxo da tolerância”, segundo o qual “liberdade em excesso leva ao fim da liberdade, tolerância em excesso leva ao fim da tolerância”.
É justamente o principal problema de Jair Bolsonaro e seu séquito de “homens de bem”. Ao radicalizar o discurso e se achar no direito de dizer quem é ser humano e quem não é, qual religião deve ser estimulada e qual não, qual orientação sexual é aceitável etc, incorre no vício do fascismo e da intolerância, que são venenos sociais e não têm lugar em um mundo naturalmente diverso e multifacetado. A ideologia de Bolsonaro, também paradoxalmente (porque autoproclamada a defensora dos “valores conservadores”) é antinatural, porque busca a preservação de padrões artificiais, impostos historicamente na base da força, violência e desrespeito. Não por acaso, as mesmas “armas” (trocadilho involuntário) da religião, do patriarcado e da noção de “raças”.
Por sorte, Bolsonaro jamais será eleito presidente, porque as mulheres não permitirão. Embora ele tenha votos entre elas, a grande maioria sabe do que se trata ser mulher em uma sociedade como a nossa e não irão permitir que um padrão que já é reproduzido clandestinamente no dia a dia passe a ser a norma, legitimada pelo voto.
Bolsonaro morrerá pela própria boca no processo, afogado no seu próprio ódio. Porque se ele acha que sua filha foi uma “fraquejada”, é porque não sabe que as mulheres entendem perfeitamente que votar nele é que seria, e elas não vão entregar a paçoca pro opressor assim, não. Nunca.

Enquanto houver mulheres no mundo, Jair Bolsonaro não será presidente do Brasil. Nem em um milhão de anos. Pode ter certeza.

A Paralização dos Caminhoneiros

(texto originalmente postado no Facebook)

1 – É sempre bom lembrar que não faço questão da amizade forçada de ninguém. Se gosta de mim bem, se não gosta também. Vou na linha “seja uma boa pessoa, mas não perca tempo provando”. Se quiser sair, vou continuar tratando com respeito desde que me respeite.

2 – Os caminhoneiros estão do lado certo, lutando por uma causa justa. Isso é uma “faca de dois legumes”, como diria Vicente Matheus. Defender uma causa justa pressupõe a responsabilidade de manter uma conduta compatível com ela. Se sua pauta extrapola a reivindicação inicial e desanda pro conflito ideológico e violência por violência, tanto tal pauta já se perdeu quanto seu movimento ficou enfraquecido. A falação de merda no Facebook está em níveis estratosféricos. Só hoje eu já vi 3 intervenções militares, 5 golpes de Estado, algumas mortes a esmo e vários vídeos de anos atrás convocando para manifestações que já aconteceram há tempos. No seu exagero habitual, geral Brasil já elevou o conceito de “Fake News” a um novo patamar. Essa esquizofrenia toda confunde mais que ajuda e pior, desacredita o próprio movimento. Quando você vê nego chamando Rachel Sheherazade de “comunista” é porque o cérebro já foi desligado da fala faz tempo.

3 – “Esquerda”, “Direita” e “Centro” são conceitos, formas de se interpretar as relações sociais. Não são grupos, pessoas, lugares. Acusar um ou outro disso ou daquilo é um tiro no pé numa hora dessas, em que fica claro que se trata de o governo contra a população. Você consegue matar e prender pessoas, não ideias. Na verdade, muitas vezes acaba fortalecendo seu inimigo através de injustiça, quando qualquer pessoa vê que a realidade não corresponde às explicações dadas. O caso de Lula, encarcerado injustamente nesse exato instante apenas para não vencer a eleição de lavada é um ótimo exemplo. Aliás, não adianta você xingar minha mãe, bater sua cabeça na parede, tirar as calças e pisar em cima, cagar na mão e jogar nas pessoas etc. Sua raiva apenas demonstra sua falta de argumentos, sua intolerância é apenas pobreza de espírito. Sem contar que eu não estou nem um pouco preocupado com se alguém acha que sou comunista, viado, maconheiro, Opus Dei, macumbeiro, extraterrestre, hippie ou qualquer outra coisa que signifique o “não-eu”, que é basicamente a entidade necessária no imaginário das pessoas para poder atribuir a culpa do que dá errado em alguém e não assumir a própria responsabilidade. Sou o que sou e já era. Mudo de opinião constantemente e sem pudor algum, desde que faça sentido para mim naquele momento. Não tenho preguiça de pensar.

4 – O Facebook está parecendo comercial de Viagra. O que tem de velho brocha de farda falando besteira, querendo posar de “redentor da nação brasileira”, fazendo cara de mau dentro de uma farda velha cheirando a naftalina é uma coisa impressionante. A maioria deles nunca deu uma porra de um tiro pra valer na vida e vive de uma hierarquia carcomida de uma instituição incompetente (veja a guarda das fronteiras e a atuação deles agora no RJ , por exemplo) e frágil chamada Exército. Só estão inflamando ódio e confusão. Os militares não tem condições de cuidar de dois cachorros ao mesmo tempo, que dirá de um país inteiro. Chega a ser patético ver os tiozões lá, tudo de cabelo branco e suas panças enormes, posando de “Capitão América”. Ridículo, vergonha alheia. Lembra a sessão do impeachment tabajara de Dilma Rousseff, quando assistimos horrorizados ao festival de bizarrice que é a Câmara dos Deputados.

5 – A corrida aos postos atrás de gasolina é apenas a repetição de um padrão de comportamento típico desse país. A Globo anuncia o caos e geral corre pra rua, fica horas em filas intermináveis, sai na porrada animalescamente com quem atravessar seu caminho e vira não muito mais que um bicho acuado. Duas semanas depois, esquece tudo e volta a ser estuprado pelo governo. O exemplo mais recente é do tal surto de febre amarela, que fez um monte de gente passar o dia em filas quilométricas para tomar vacina e em seguida foi solenemente esquecido, como se nunca tivesse acontecido. Ou alguém lembra da última vez que ouviu falar do assunto? A falta de consistência, a ausência de uma conduta e o individualismo histórico do brasileiro típico são grandes problemas que temos.

6 – Comerciantes (de combustível, alimentos ou qualquer item de primeira necessidade) que se aproveitam do momento crítico para lucrar financeiramente são tão ou mais canalhas que os políticos desonestos. Adotam as mesmas práticas, têm a mesma ética de se aproveitar dos outros sem nem corar. Merecem o mesmo tratamento. Vai pedir “Brasil sem corrupção” pra lá, tiozão!

7 – Quem não aprende com as situações que a vida impõe está condenado a repetir o erro até aprender. Moral é de fora pra dentro. Ética é de dentro pra fora. Um filósofo importantíssimo já disse que “a História se repete. Primeiro como tragédia, depois como farsa.” Sim, ele. Aliás, várias de suas teorias se comprovam historicamente ano após ano, o que explica o fato de toda a propaganda e demonização contra ele surtirem zero efeito. Simplesmente porque ele sabia o que estava dizendo. Karl Marx, obviamente.

8 – A propósito: não sou comunista nem petista, mas sei que não sou melhor ou tenho mais direito do que quem é. Independentemente de matiz ideológica, respeito só se obtém quando se respeita o outro. Não deu, não vai receber. E ponto.

9 – Em 2013 os protestos começaram de forma legítima e desandaram por falta de uma pauta a seguir. Esse papo de “o povo brasileiro convoca” fica muito bonito na internet, mas só serve pra criar uma massa acéfala, amorfa e facilmente manipulável. Foi lá atrás que começou esse papo de “Coxinha x Mortadela”. Enquanto eu te chamo de um e você retruca me chamando do outro, os políticos sujos passam a mão nas nossas bundas sem distinção.

10 – Quem tem heroi é filme da Marvel. Caminhoneiro é caminhoneiro, professor é professor, político é político e o Palmeiras não tem mundial. #SomosTodosCaminhoneiros é muita gente, me inclua fora dessa. Cocaína, armas, contrabando em geral e prostituição infantil também chega tudo de caminhão. Apoio, louvo e incentivo a ação deles e estou à disposição para ajudar, mas nenhum deles é heroi meu poha nenhuma.

11 – Aja com o coração, mas leve o cérebro junto.

12 – Prefira “unfriend” a “unfollow”. Thank you very much indeed.

13 – “Hay gobierno? Soy contra!”, caso você não tenha entendido a foto que ilustra este post.

14 – Como diria o Sakamoto: “falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto”.

15 – Não quero que ninguém pense como eu. Quero apenas que as pessoas pensem.

bandeira-negra-anarquismo

Ou vai ou vai

Há uma frase atribuída a Rumi que diz que “à medida que você começa a andar no caminho, o caminho aparece”. Sempre gostei desta ideia, não sei se por acreditar na afirmação em si ou por seu otimismo. O fato é que, desde que comecei este blog, os pensamentos que me estimularam a fazê-lo paracem ter minguado, como se eu mesmo colocasse impedimentos ou censurasse o que tenho a dizer.

É estranho, porque em geral escrevia no Facebook e na maioria das vezes de uma vez só, em poucos minutos. Basicamente publicava um “textão” e só depois de um tempo exposto na timeline que me preocupava em saber se ele precisava de alguma edição, correção ortográfica e que tais. A própria razão de ter começado aqui foi ter muita coisa que eu gostaria de registrar e poucos recursos para fazê-lo. Era coisa que eu achava relevante que lá não caberia, era meio que óbvio migrar este tipo de texto para cá.

Acontece que a partir de então, me.veio aquele clássico bloqueio criativo. Não que eu seja particularmente talentoso para isso ou o que eu tenha a dizer seja algo importante, mas o próprio processo de escrever sobre qualquer coisa que seja se tornou um parto, um negócio difícil de verdade. Naturalmente, passei a investigar de onde isso vem.

Talvez tenha a ver com o fato de que se estar emocionalmente envolvido com algo faz com que as ideias fluam mais naturalmente. A forma como uso o Facebook já possibilita isso: sigo muitas agências de notícias de alguns países, diversas vertentes ideológicas e espirituais. Muitas vezes acompanho de perto algum político que não gosto justamente para ter mais base para combatê-lo. Além disso, tento driblar o tal “algoritmo do Facebook” que acaba meio que moldando a timeline das pessoas ao que elas querem ver e faz com que sua percepção dos fatos fique cada vez mais parecida com suas crenças e não o processo natural, que seria justamente o contrário: opiniões e convicções devem partir de uma análise que seja a mais completa possível do que acontece, a partir da qual posições e parcialidades tem mais fundamento e menos chance de ser apenas barulho, tentativa de chamar a atenção por si só. Então, naquela plataforma, era ler algo e postar em seguida, no calor do momento.

Aqui, pelo menos até agora, o processo é diferente. Eu já começo me impondo a obrigação: “preciso escrever algo no blog”. Não sei de onde surge essa imposição, mas ela é limitante. Ao por na cabeça que “preciso” escrever, qualquer ideia que surgiria naturalmente e poderia perfeitamente servir de entretenimento para quem gosta de ler e vem aqui por isso simplesmente desaparece, escapa igual água entre os dedos. Além de eu muitas vezes me meter a usar “tempo livre” para isso (leia-se quando não tenho algo melhor pra fazer, o que reduz o blog à pura encheção de linguiça, praticamente um “tricô mental”). Escrever é tempo ativo, não livre.

Um exemplo é este mesmo texto: comecei a escrevê-lo porque tive uma aula cancelada de última hora, pensei que seria uma boa forma de usar o tempo que ganhei até a próxima e me sentei com o computador para dizer algo. Já se foram alguns parágrafos, eu só enrolei até aqui e não disse coisa com coisa que prestasse. Pior que eu sei disso. Você que está aqui comigo agora provavelmente já notou que está chato, arrastado, vazio. Meus textos costumam ser mais nervosos, mais emocionados. Pelo lado bom, posso te dizer que você está acompanhando uma pessoa em uma busca sincera por inspiração, lutando dignamente contra seu cérebro embotado e preguiçoso, negligente de qualquer colaboração. A má notícia é que cada vez mais me convenço que tenho que estar muito puto, muito feliz ou muito magoado para escrever. Qualquer emoção serve, a falta delas é que não.

20180223_112702
Fui solenemente expulso da sala

Daí me veio à mente que uma coisa que me chama muito à atenção sobre se expressar criativamente é o fato de que sem raiva, tesão, amor, revolta, libido, inconformismo, inquietude, desilusão e outros sentimentos e emoções intensos, muito pouca coisa pode ser dita ou feita. Nietzsche dizia que “é preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Uma versão mais acessível é “porque ninguém começa uma história com ‘…outro dia eu estava tomando leite e…'”. O verbo vem da ira, o “causo” engraçado do bar vem do álcool. Faz todo o sentido.

Entendo que eu esteja em uma fase de transição (sempre estamos, mas algumas vezes ela fica mais nítida). Não mais bebo ou uso qualquer substância “estupefaciante”, passei a encarar a espiritualidade de uma forma mais intuitiva do que dogmática e muitos valores que defendi hoje me parecem pálidos, fracos, sem razão de ser. Metamorfose ambulante, salve Raulzito! Não que isso tenha me anestesiado emocionalmente ou brutalizado, pelo contrário: minha percepção está mais aguçada, minha saúde melhor e meu ego tem sido cada vez mais fácil de educar. Apenas acho que ainda tenho que aprender mais sobre quais estímulos valem a pena seguir e quais não, quanto barulho estou disposto a manipular e quanto do meu próprio nonsense eu já tenho consciência.

Essa zona nebulosa faz com que, ao mesmo tempo em que goste que as pessoas venham ler meus textos pelo simples prazer que elas têm nisso, eu sinta que escrever só para dar satisfação é um negócio meio pedante, meio babaca. Só pra dizer que tem um blog com um número “x” de textos, “y” de visitas e “z” de elogios. Vários amig@s dizem que gostam do que escrevo, mas saber usar as palavras é completamente inútil quando não se tem o que dizer. Gosto de ao menos ter a ilusão de que meus textos são relevantes para alguém, de alguma forma. Nesses termos, não consigo sentir isso.

Este texto que você está lendo não é nada além de um esforço em sair da inércia, “por o blog para andar”, buscar inspiração lá no fundo do cérebro e acreditar na máxima do primeiro parágrafo: …o caminho aparece”. Não apareceu até aqui, mas no próximo texto a gente vê o que dá, continuo acreditando.

Por hora, vai ficar mais na intenção do “exorcismo” mesmo, de sacudir a poeira deste blog, de voltar aqui. Sabe no futebol, quando o atacante fica um tempo sem marcar e depois mete um gol de canela, todo feio, mas que serve pra “tirar a zica”? Então, este texto é isso. Que desbloqueie, solte, flua, ande. Assim é.

“Não importa o quanto você vá devagar desde que não pare.” – Confúcio

A Segunda Flecha

Sou leitor, sempre fui. Literatura em geral: ficção, biografias, política, contos, História, crônicas, poesia, filosofia, religiões. Dentre os vários tipos de leitura disponíveis, percebo que existe um certo preconceito contra livros de autoajuda, como se eles representassem um conhecimento inferior, superficial. Discordo totalmente. Verdade que há livros nessa área que são realmente infantis e irrealistas, doutrinando pessoas a partir de casos isolados e colocando todo mundo no mesmo saco, como se uma fórmula preconcebida pudesse ser aplicada de forma igual para pessoas diferentes. Ainda assim, há muito material útil e relevante de autoajuda que vale muito a pena explorar. Cada caso é um caso, cada cabeça é uma sentença e “o vinho de um homem é o veneno de outro”. Foi de um livro de auto ajuda que tirei inspiração para este texto, depois de um tempo sem escrever coisa alguma por aqui. Seu nome é “O Cérebro de Buda“, dos neurocientistas estadunidenses Rick Hanson e Richard Mendius. O livro mostra como as emoções, sentimentos e variações de humor usam processos químicos do corpo e estruturas neuronais para acontecer e como podemos intervir conscientemente nesse processo. É muito interessante e requer atenção plena do leitor o tempo todo. Recomendo.

É fácil constatar que as relações sociais dependem em grande parte de sistemática hipocrisia e falsidade. São cola social. E digo isso não para agredir alguém gratuitamente, mas como uma constatação óbvia. É algo ancestral, primal mesmo. Vem provavelmente da necessidade do convívio comunitário, no qual as atitudes corretas para cada tipo de interação rendem favores ou vetos, acessos ou negativas, prazeres ou privações. Está no DNA humano, na categoria “instinto de sobrevivência”. Atitudes hipócritas possibilitam a vida em sociedade, em geral cobrando o preço na forma de “sapos” engolidos, relações deterioradas e rancores guardados no porão do subconsciente. Fígado carregado, raiva contida, bomba-relógio. A hipocrisia é um paradoxo, porque o que ela busca mascarar também é falso: o ego.

Até aí nada contra ser hipócrita, eu também não sou flor que se cheire tampouco faço questão que me sigam ou deem atenção ao que digo. Fabrico a verdade que me convém sempre que posso, igualzinho a você. Apenas não tenho problema algum em admitir essas “falhas”. Não espero ser perfeito, modelo de comportamento ou mestre de seja lá o que for. Apenas procuro tratar a todos com respeito e pelo menos não atrapalhar. Também busco aprender e não repetir sempre os mesmos erros. Não nutro pensamentos destrutivos com relação a ninguém, espero que as pessoas tenham paz e saúde irrestritamente. Entendo que o maior inimigo que eu jamais possa ter seja eu mesmo, assim como sou também o único que pode enfrentá-lo. Não porque sou esquizofrênico e ouço vozes na mente sem saber de quem são, mas por perceber que há dois aspectos principais que governam as ações do ser humano. Um é flutuante, influenciável, dinâmico e instável. É a própria mente em si, que trabalha para o que na definição clássica que vem desde os Vedas se conhece como o “falso eu” e que mais tarde viria a ser chamado de ego. Não o Freudiano, da psicanálise. O termo é o mesmo, o conceito não. O outro aspecto é o ser que observa a mente funcionar. Esta é a verdadeira fonte, o observador. Chame de espírito se entender melhor assim.

O ego nesse prisma é a imagem que criamos de nós mesmo e da importância que temos. É um “eu” social, imaginário, teatral até. Há um esforço em mantê-lo, como quando a gente deixa de fazer algo que poderia ser proveitoso ou interessante porque “somos assim mesmo”. “Ah, você sabe como o Matheus é, né? Místico.”
Na defesa muitas vezes automática desse ego, agimos como se fôssemos a sensação que algo nos causa, a experiência pela qual passamos. Inevitavelmente sofremos com isso, atiramos em nós mesmos a “segunda flecha”.

Siddhartha Gautama, o Buda histórico, ensinava sobre a “segunda flecha”. Entendo ser um dos pontos centrais da filosofia de vida que é a prática budista. Embora hoje em dia seja popular no Ocidente, o Budismo é um tanto mal compreendido quando se relaciona com a ideia de religião, que da forma como é entendida no contexto cristão, judaico ou islâmico se parece muito pouco com as práticas orientais como o Hinduísmo, Taoísmo, com ele próprio e outras tradições. Estas funcionam mais como formas milenares de administrar o convívio em sociedade e ensinar pessoas a desempenhar tarefas do dia a dia desde tempos ancestrais em que não se tinha acesso à educação formal, a tecnologia era incipiente e a transmissão de conhecimento se dava pela tradição, por metáforas e histórias de divindades que representavam por arquétipos os elementos da natureza. Chamar a isso de “religião” é uma simplificação frágil que atrapalha o próprio entendimento da coisa.
Na prática, o que acontece é que pessoas que tendem a ser mais “conservadoras” e fundamentalistas nesse aspecto costumam rejeitar os ensinamentos dessas “escolas” por ignorância (sempre ela), pelo receio de estar “servindo a outro deus” (!!). Pouco importa se no caso de Gautama trata-se de um homem que viveu oitenta anos, passou metade da vida ensinando técnicas de administrar a mente que descobriu meditando sozinho, nunca se preocupou em mostrar a alguém como chegar a deus, não operou milagres ou usou poderes sobrenaturais e apenas ensinou seus seguidores a conhecer a si mesmos. Ele morreu de diarreia. Nunca ouvi falar de uma divindade que tenha sequer morrido, que dirá dessa forma. De todo modo, já ouvi coisas como “não troco meu Jesus”, “não me curvo ao Buda” e outras manifestações pouco simpáticas e nada racionais. Enfim, mesmo com todos os narizes torcidos e desconforto que isso causa em quem gosta mais de apontar o dedo e fazer Fla-Flu de divindades e/ou mestres do que de pensar e segui-los, sinto que é relevante falar sobre o assunto para as pessoas que vêm aqui ler meus textos (que eu sei que andam escassos, mas isso também vai passar). Tem sido para mim, talvez tenha alguma utilidade para quem se permitir aplicar.

É assim: imagine que você esteja em uma fila há uma hora. Há uma ameaça de febre amarela no ar, a TV não para de mostrar postos de saúde apinhados de gente sob o sol sahariano. Nem precisa comentar o stress. Bicho feio. Eis que um bonitão qualquer chega ao local cheio de si, pique “holandês” (Van Sie Phúder) e, ignorando completamente quem chegou antes dele, se infiltra no meio dos que esperam, bem à sua frente. É uma agressão desrespeitosa e rude, uma violência. Dói como uma flechada na sua carne. Ato contínuo seu rosto se enfurece, a adrenalina sobe, as palavras ficam ásperas e emocionadas e é certo: dependendo do seu estado emocional e das circunstâncias, pode haver desde uma discussão leve e troca de desaforos até as vias de fato. Tiro, porrada e bomba. A reação à violência sofrida é o que o Buda chamava de “segunda flecha”. Esta é atirada por nós mesmos, geralmente porque nosso ego foi atingido por algum agente externo e somos condicionados a defendê-lo pela mente, que é quem assume o comando e dita a resposta ao ataque sofrido. Acontece que não somos nossas mentes, lembra? Por isso que muitas decisões, reações e atitudes que parecem perfeitamente razoáveis na hora do conflito, do “choque”, geram arrependimento depois que a coisa esfria. Ao sair da mente condicionada e analisar a situação “de fora”, percebemos muitas vezes o quanto nossa atitude foi inadequada. O problema é que a constatação do erro por si só não é suficiente para que aprendamos para um próximo “teste”, porque o ego entra novamente em cena dizendo “é, eu sou assim mesmo e quem gostou, gostou. Quem não gostou, azar”. Mesmo admitindo a falha para nós mesmos, não nos redimimos dela porque precisamos defender a nossa fama de mau, reputação, gênio ou outro nome que se queira dar para o ego, esse safadinho. É um comportamento basicamente infantil e não precisa nem comentar quantas crianças de meia-idade ou mesmo idosas que existem por aí.

O cara que furou a fila não o fez para te ofender pessoalmente. Entrou porque não se importa com os outros ou porque é um Joselito mesmo, um “moscão”. Tá cheio deles por aí. Inconscientes, no automático. Entrou na fila em que você estava como entraria em qualquer outra, em qualquer outro lugar. O problema é com ele, não com você. Ao levar para o pessoal, nos preocupamos mais com a ofensa em si do que com o que ela representa na prática: alguma discussão sobre ser justo e pontual que levaria à solução do problema rapidamente (e o mosca-de-boi em questão para seu lugar de direito, o final da fila).

O ponto central do ensinamento budista consiste em educar a mente. A alegoria da segunda flecha é uma forma simples de explicar como isso pode ser feito e as situações em que pode ser aplicada são inúmeras, acontecem o tempo todo. Até ao ler este mesmo texto, você pode escolher duas maneiras de reagir. Uma delas é desacreditar do que leu, afinal que autoridade eu tenho pra versar sobre isso? Quem eu penso que sou? Só porque eu acendo uns incensos, medito à minha maneira e uso umas camisetas psicodélicas já estou me achando o guru, o Iluminado, um Bodhisatvva?
Ou então você pode escolher o caminho do observador desprovido de ego, aquele que realmente sente que a existência tem um certo funcionamento e que é baseado nele que as coisas fazem sentido ou não, independentemente de onde vêm. Se um fruto está estragado, as sementes dentro dele ainda podem ser aproveitadas. Mesmo eu sendo insignificante e desprovido de autoridade e conhecimento, ainda assim posso ter alguma coisa de útil para passar. Ao que aprende, é indispensável ter humildade. Assim como ao que ensina. Perdi a conta de quanta sabedoria eu já pude perceber em gente simples, despretensiosa, daqueles de quem se diz que “não se dá nada”. Se for analisar friamente, na maioria das vezes em que senti ter aprendido algo, foi desse tipo de conhecimento que me aproveitei.

Então eu vou usar o fato de que você já veio até aqui para te dizer: preste atenção no mecanismo de “segunda flecha”. Aquele sujeito que sabe quais cordas tocar para te fazer sair do sério usa sempre as mesmas armas porque sabe que não falha, apertando os botões certos o resultado é sempre o mesmo. Arrasta você para o tipo de emoção que sabe manejar melhor, entra na sua mente e vence o conflito psicológico, mesmo que sua vitória seja ser ofendido ou agredido para depois poder posar de vítima e começar novamente o ciclo insano de jogos mentais. Samsara. Você já deve ter convivido com gente que “tem um problema para cada solução“. Pois é, eu também.
Quando se condiciona a não reagir impulsivamente e se aprende aos poucos a relativizar os “ataques” que sofremos, gradativamente vamos aprendendo a escolher em quais discussões vale a pena entrar, quais vão dar sempre no mesmo lugar e quais são tão sem sentido que não deveriam sequer existir. Diminui-se bastante o fardo a carregar, a existência se torna mais leve. Pelo menos é assim que tem funcionado para mim. Há no Zen (corrente espiritual que consiste basicamente em meditação, muito ligada ao Budismo) a máxima “se encontrar o Buda pelo caminho, mate-o”. Significa que nenhum ensinamento deve ser levado em consideração se não passar pelo crivo da experiência pessoal, ou seja: por mais que se use palavras bonitas, metáforas precisas e linguagem agradável, se o conceito não puder ser aplicado nas situações reais da vida, não tem utilidade alguma. São só palavras, barulho, desperdício. Não valem nem de longe um bom silêncio.

A segunda flecha está no acordar atrasado, por exemplo. Perdeu a hora, vai chegar depois dos demais ou não vai chegar de forma alguma. Então começa a angústia, ansiedade e correria. “Vou perder o emprego”. “Vou levar bronca”. “Vai ficar chato”. Mesmo que as três coisas venham a acontecer, naquele momento você apenas está atrasado e nenhum pensamento que tenha vai fazer o relógio voltar. A única coisa que pode ser feita é diminuir o atraso no que puder ou reprogramar a ação. Sofrer é segunda flecha, só aumenta a dor. Eu chamo isso de “agir igual ao Waze”. Quando uma rota é traçada e você não obedece, o aplicativo simplesmente recalcula o que deve ser feito. Ele não vira pra você e fala “Puta que o pariu, e agora? Você pegou o caminho errado! Fodeu! Vai dar merda! Por que fez isso?”. O objetivo é alcançar uma “mente Waze”, digamos.
Outro exemplo: você se dirige educadamente ao policial que trabalhava na segregação de uma rua para um evento e pergunta a ele do que se trata. O homem nem olha na sua cara e te responde com casca e tudo: “Manifestação. E você circulando, circulando, vai!”. Precisa falar assim? Não, mas agora é tarde. É nas ações e palavras dele que está o erro, não no fato de ter sido com você. E ainda que tenha sido pessoal, o juízo que ele fez continua a ser dele e tem zero relação com a realidade dos fatos.

Para concluir, cito os quatro estágios em que se aprende a lidar com a segunda flecha:
– Inconsciência inconsciente: o cara no trânsito comete uma barbeiragem e te fecha com o carro em alta velocidade. Automaticamente você xinga, buzina, mostra o dedo do meio e quase rasga a roupa de raiva. Fica uns dez minutos remoendo a situação e amaldiçoando até a quinta geração de descendentes do infeliz.
– Inconsciência consciente: a mesma situação no trânsito e a mesma reação de raiva e palavrões em alto e bom som, só que dessa vez sabendo que é uma reação nociva e parte do problema. Dá vergonha depois que passa a fase de inconsciência, de fúria.
– Consciência consciente: fechada e barbeiragem do mesmo jeito. Reação de controle da raiva e do ímpeto de jogar o extintor de incêndio no carro do vivente que fez a merda, porque eu sei que essa reação é a mais sensata. Meu corpo não foi arrastado pela minha mente porque eu não permiti. Estou sereno e escolho os pensamentos que quero preservar e os que quero descartar.
– Consciência consciente: a resposta de não agressão (que é não disparar a segunda flecha) acontece automaticamente, assim como acontecia a inconsciência e acesso de raiva da primeira fase. Aí já é estágio avançado, requer treino e repetição. Há recaídas, retomadas e níveis de consciência. Mas vale muito a pena. No mínimo se evita muito coração amargurado, atitudes impensadas, perda de saúde mental e física e conflitos vazios e sem sentido. Barulho apenas. O barulho tem inveja do silêncio porque não consegue os mesmos resultados que ele, não caminha na mesma direção, não tem a mesma importância. As respostas estão no que não é dito. Todo o barulho se rende a ele no final, sempre. Trazendo o silêncio para o cotidiano, ele se impõe pela própria força.

Detalhe importante: você não precisa abrir mão de nenhuma crença, religião ou dogma pra adotar esse tipo de raciocínio. É um treinamento mental apenas. Pode continuar praticando sua fé tranquilamente que ninguém vai te mandar para o inferno. Aliás, ele também é escolha e atende pelo nome de ignorância. De mais a mais, se estivesse tão seguro de sua espiritualidade, será que alguém ficaria patrulhando a dos outros? Não sei, acho que não. Se você está bem resolvido, não precisa ficar procurando incoerência na crença alheia. Fé não é de convencer ou impor, é de sentir. E é preciso agir a partir disso.

Que as flechadas venham de fora, não de nós mesmos. Cada um dá o que tem.