O errado é o novo certo

“Ia pro trabalho, cansado / às seis da manhã / ouvia no seu rádio calcinhas / e sutiã”

Circular por São Paulo é um negócio louco: pode ser animador, deprimente ou automático, dependendo do gosto do freguês. Veja os workaholics corporativos, por exemplo. Sempre imersos em seus deadlines, feedbacks, workshops, BU’s, BI’s, bottom lines e haja termos em inglês para dar uma roupagem mais business-friendly para o fato de trabalharem feito abelhas, run-of-the-mill. SP tende a ser ferramenta. O dinheiro está aqui, os contatos, as pessoas. A máquina azeitada e sempre em funcionamento do capitalismo selvagem. Food trucks gourmetizam um prosaico pão com salsicha a ponto de ele virar um Royal Zig Zig Sputnik Master Blaster Hot Dog Power Sandwich. Assim você paga cinco vezes mais por ele e esquece um pouco que está se alimentando mal do mesmo jeito. É mais chique chamar alguma quase-comida de junk food do que de “mas que porra é essa que você tá comendo?”. English, dude. Deal with it.

Hoje de manhã, madrugador que sou, estava circulando pelo Morumbi já pelas sete horas perto do Shopping. Começo às oito por ali, mas experimente tentar cruzar a ponte do Morumbi nesse horário e deixe de ter dúvidas sobre a existência do inferno. Tudo bem, jogado aos seus pés eu sou mesmo exagerado e adoro um amor inventado. Ainda assim, vai indo que eu não vou. Prefiro chegar mais cedo mesmo e ler algo na internet, tomar um café ou adiantar algum trabalho a ficar dentro de um carro preso no engarrafamento.

Dei de cara naquela hora com uma cena daquelas que acorda o sujeito melhor que qualquer café melado da tia da Kombi na rua, vendido por um dinheiro e meio e ameaçado de confisco pelo bar da frente que reivindica seu direito de vender café colombiano com espuminha cor-de-rosa e que é “amigo” do fiscal que por sua vez é amigo dos amigos e tem-um-qualquer-aí-pra-mim-senão-vai-ficar-difícil-de-você-trabalhar-porque-essa-área-é-minha-e-todo-mundo-paga-não-é-permitido-mas-a-lei-sou-eu-e-já-era-senhora. Outra história, no entanto.

Um grito: “PEGA!”. Um cara de seus vinte e cinco anos correndo feito o Usain Bolt passa a mil e setecentos de jeans e jaqueta vermelha, seguido de outros dois. Outro grito, dessa vez de dentro do ônibus que passava: “QUEBRA ELE!” A atmosfera do lugar mudou em milisegundos, a tensão substituiu o marasmo daquela quinta-feira repetida, estilo Groundhog Day.

“Ladrão”, meu instinto me avisou. “Foi roubar e se deu mal. É o preço.” Havia uma fila de carros naquele trânsito cagado do lugar, e foi quando os motoristas de dois deles meteram a cabeça pra fora e se juntaram ao coro de “ESFOLA! MUTILA! EMPALA!” e outras “solicitações” que eu percebi que todo mundo meio que pensou a mesma coisa. A diferença foi que eu e uns poucos outros apenas queríamos sair dali. Eu não tinha certeza se o cara era ladrão, se os que tentavam alcançá-lo é que eram ou nenhuma das duas coisas. Se fosse, concordo que segurassem o cara pra polícia chegar e fazer seu trabalho e entendo perfeitamente que, no calor do momento, acaba sobrando o chamado “salve”. Não se toma as posses alheias e se espera flores amarelas em retribuição. Vai apanhar mesmo. Mas não ser mais errado que o errado pra querer ser o certo, que foi o que aconteceu.

Aqueles homens bem vestidos em seus carros não tinham a menor ideia do que estava acontecendo ali. Ainda assim seu veredito foi instantâneo: morte e forca e linchamento e fogueira e cheque-mate e “vamo que vamo”. Os homens continuaram correndo por entre os carros, até que um dos perseguidores acertou um chute nas pernas do cara que fugia, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse no asfalto, a uns trinta metros de mim. Perdeu. Foi alcançado e impiedosamente espancado, de tal modo que eu virei a cabeça para não ver e caminhei pra longe dali. O infeliz deve estar apanhando até agora.

Daí que vem minha inquietação: estava tudo transcorrendo pacificamente, os códigos tácitos de convivência sendo cumpridos com seus bons dias e com licenças e pode passar e por favor e nossa que tempo louco até que um corre-corre aflorou a barbárie e os distintos cavalheiros se transformaram em bestas-feras agentes da vingança, que poderia até mesmo ser contra coisa nenhuma. Não é a opinião ou o sentimento em si, mas a presunção automática do que está acontecendo e a reação que se tem a partir disso: com os olhos cheios de ódio, babando em suas gravatas caras, encolerizados pela atuação de um ladrão que eles sequer sabiam se de fato o era e se tinha feito algo. Os envolvidos na correria tinham condições de fazer julgamentos e acertar ou errar a partir disso. Os outros só tinham ódio. Quem se importa?

É um padrão. Se um motoboy cai na pista, um enxame deles se aglomera em volta da cena em segundos. Qualquer pessoa que esteja envolvida na queda ou mesmo que tenha parado para ajudar provavelmente será hostilizada, possivelmente agredida. Estando certa, errada ou tendo sido envolvida na situação. Vira motoboy x não-motoboy. Por outro lado esses profissionais sofrem o desprezo de muitos motoristas, que não apenas não colaboram com eles mas chegam a jogar os carros pra cima, fechar e impedir a passagem de propósito. O mesmo quando uma pessoa faz alguma barbeiragem no trânsito. Passa a ser inimigo mortal de alguém imediatamente. A atitude desrespeitosa precisa ser “punida” de preferência com um desrespeito maior ainda.

As pessoas andam intolerantes, as relações são apenas utilitárias, as interações obrigatórias, impessoais e protocolares. Há uma mistura perigosa entre o que é justiça e o que é vingança, a Lex Talionis parece ser cada vez mais a norma e respeito e empatia genuínos estão bastante escassos. Tudo isso impulsionado por stress galopante, competição desleal, drogas legais e ilegais, álcool, solidão, frustrações em contraste com expectativas e maus exemplos das chamadas autoridades constituídas na política institucional.

O errado, chapa, é o novo certo. Como já li em algum lugar, “em tempos de ódio é bom andar amado”. Consegue?

Eis aí meu blog

“Boa noite pra quem é de boa noite / bom dia pra quem é de bom dia / a bênção, meu papai, a bênção / Maculelê é o rei da valentia”.

Eu costumava cantar esses versos a plenos pulmões na minha época de Capoeira, nas cerimônias de troca de graduação, os “batizados”. Já faz um bom tempo. Sempre gostei da entonação do canto, da força da dança ancestral com seus facões, suas vestes e os atabaques inspirados na Mãe África. Pessoas, geralmente da pele preta, levando adiante a mistura das tradições de vários povos que se fundiram nas senzalas daqui. Não tinha experiência ou “leitura” (como dizem no Norte/Nordeste) para processar aquilo tudo racionalmente, mas sentia o que depois descobri ter nome: egrégora.

É um conceito interessante. Basicamente ensina que uma força ou energia emerge da união de pessoas com o mesmo propósito. É algo como uma “alma coletiva”, que impulsiona e canaliza uma certa intenção na busca de um objetivo, que pode ser vencer uma batalha ou demanda, um jogo, um desafio qualquer ou apenas dar sentido à uma celebração. As galeras romanas com seus remadores ao som de tambores formavam egrégoras. As torcidas de futebol nos estádios também se utilizam delas, assim como  cultos e rituais em igrejas e templos de várias religiões mas da mesma fé empírica. O público de shows musicais, as pessoas que se reúnem para uma festa ou um funeral. É uma coisa muito humana, muito antiga e todo mundo já ajudou a construir uma, deliberadamente ou não.

Este blog pretende ser uma egrégora que tenha surgido dos meus costumeiros “textões” no Facebook, que bastante gente gosta, comenta comigo a respeito e me estimula a escrever mais. Aquela plataforma, embora possa ser muito útil, não dá conta de marcar links com referências, usar recursos de multimídia e produzir textos maiores, entre vários outros recursos que atendem melhor o tipo de conteúdo que pretendo usar. Por isso aqui estamos.

A palavra blog é uma corruptela do termo em inglês web log, algo como diário na rede. Diários são pessoais. Este aqui não aborda um tema específico, sua linguagem e seus temas mudarão conforme a liberdade que pretendo ter (toda a possível, logicamente). Pode palavrão, pode religião, pode política. Pode esquerda, direita, mureta e corneta. Pode sexo, drogas e rock’n’roll. Pode sagrado, pode profano e pode cético. Pode coxinha, mortadela, ketchup e mostarda. Pode preto, branco, amarelo e cor de burro quando foge. Gay, hétero, bi, tri ou pentasexual. Pode Português, English and whatever else we can think of. Barba, cabelo e bigode. Sobrancelha, unhas e progressiva. Não haverá muita edição, muita firula ou revisão. Sem gourmet, rigor estético ou frescuras em geral. Escrever do celular na padaria enquanto toma café também vale. E às vezes vale mais que qualquer outro jeito, aliás. Só não haverá por aqui desrespeito, truculência e cagação de regra. As perguntas sempre são melhores que as respostas.

Espero que gostem, porque acredito sinceramente que ler é uma atividade libertadora, fundamental. Se tudo o que eu conseguir expressar aqui servir para inspirar qualquer pessoa que seja a ler mais e melhor, o blog já terá atingido seu objetivo. Estejam à vontade, mi casa, su casa!

Obrigado pela inspiração e por sua visita. Volte sempre que quiser.