Natal, coisa e Tao

Mais um Natal vem aí. Por mais que às vezes eu me sinta meio party pooper por ter o costume de ficar procurando a origem das coisas (o “pé da fita” como se diz na quebrada), também é uma coisa que eu gosto muito de fazer, um hobby mesmo. Uma pegada meio historiador amador ocultista questionador subversivo chatolino TDAH hippie punk Rajneesh. Nessa, se tenho um blog pra escrever coisas, não seria o Natal a ficar de fora. Logo ele, provavelmente o evento mais importante da chamada Civilização Ocidental.

Jingle Bells. Sistema Natal in full swing. É um negócio tão enraizado no inconsciente coletivo que muito pouca gente se dá conta do fato de que tem feito em média 37° C em São Paulo por esses dias enquanto dá-lhe decoração de neve e snowman e Papai Noel e rena e o escambau. Todo mundo no rush automático de final de ano, metade reclamando que “passou rápido” e outra metade de 2018 “que não chega logo”, enquanto as luzes piscam, coloridas. Em ambos os casos a mente querendo o passado e o futuro e não o presente, único tempo em que as coisas acontecem. Ansiedade é o mal do milênio.

É relativamente conhecida a ideia de que a História é escrita pelo vencedor, o que significa que as versões dela adotadas oficialmente por países, povos e culturas têm bem mais a ver com os interesses de quem dita as regras naquele contexto do que com a realidade dos fatos propriamente dita. É muito mais difícil emprestar glamour e nobreza (conceitos tão abstratos quanto vazios) às rotinas entediantes da vida, à burocracia, afinal. Bem melhor colocar uma trilha sonora e um cenário, heróis e vilões, bem e mal, Superman versus Lex Luthor.

Legal, mas onde essa filosofia de boteco se aplica ao Natal, meu querido? Menos beating about the bush e mais Merry Christmas.

Então tá. Você tem uma árvore de Natal em casa? Eu não tenho, minha gata Gilda não gosta. Ou gosta demais para deixar uma delas inteira. Mesmo a árvore pequena que tínhamos na sala foi atacada furiosamente. Vira e mexe estava caída no chão ou havia várias bolinhas e enfeites mastigados e espalhados pela casa que acabavam pisoteados, chutados e jogados no lixo. Desistimos. Se você consegue ter uma, parabéns. Faça bom proveito.

Que mané “árvore”, porra nenhuma…

As origens da árvore como símbolo do Natal provavelmente têm a ver com o rigor do inverno em algumas regiões do Hemisfério Norte. Folhas verdes que duravam bastante tempo eram uma espécie de amuleto para alguns povos antigos, uma lembrança do poder do primeiro elemento da natureza a ser tido como um deus: o Sol ( leia em negrito abaixo na parte “digressão”).

As árvores dentro de casa durante o período mais frio do ano espantavam os maus espíritos pois eram um resquício da existência dessa divindade que as fazia existir e erguer-se do chão em direção aos céus. Outros povos consideravam as próprias árvores seres divinos. Uma cultura foi influenciando e incorporando elementos de outra até chegar na cristandade, quando tal crença foi de início combatida e por fim absorvida no melhor estilo “se não pode vencê-los junte-se a eles” que a Igreja Católica costuma adotar caso não consiga impor sua vontade integralmente. No caso, tipo “fala que o formato tem a ver com a ‘Santíssima Trindade’ que cola”. Política é a arte do possível e lá está seu pinheirinho de “prástico” piscando na sala até hoje, com algumas lâmpadas queimadas e uns enfeites meio tortos, capengas. Ficou uma bosta, aliás. Você também tem gato?

E o nosso querido Papai Noel, velho batuta? Originalmente uma mistura de São Nicolau (o termo foi sendo corrompido de Saint Nicholas até chegar em Santa Claus) e o deus germânico Odin, é o capitalismo de roupa vermelha e barba branca. Sua existência baseia-se em uma troca: bom comportamento por um presente, um regalito para ti. Criança pobre não adianta se comportar porque nem assim tem axé, criança rica recebe sua parte no trato de qualquer maneira. Nem precisa entrar no mérito da coisa.
Ainda assim o Papai Noel já fez parte do meu imaginário infantil e gosto do personagem. Particularmente do cara que se caracteriza como tal para ir a eventos com crianças pela brincadeira em si, pelo prazer de ser aquele ícone, aquele avatar. Acho bonito de verdade, principalmente se for um Noel daqueles bem toscos, vestido nuns TNT vermelhos e barba de algodão meio que descolando, suando em bicas no meio da criançada histérica (e em êxtase!). Um sujeito desses vai pro céu direto, sem escalas. Meu heroi. Já o da Coca-Cola eu não gosto. Nem de Coca-Cola eu gosto. Beba Coca-Cola.

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“-Ah, mas Papai Noel preto não existe!”

E tem ainda Jesus no Natal. A dimensão mística, espiritual do evento. Yeshua Ben Yossef e depois Yeshua Hamashia, o Cristo. Senhor e salvador dos cristãos de todas as confissões, origens e denominações. O Verbo Encarnado. O Filho do Homem. Leão Conquistador da Tribo de Judá. Cordeiro de Deus. No Ocidente estamos no final do ano 2017, contados a partir do seu nascimento. Não acho que precise de mais apresentações para você saber de quem estou falando. Não há nenhum registro histórico que ligue o Natal ao nascimento de Jesus, como há muito pouco registro histórico da própria existência de Jesus em si. Além disso as passagens da bíblia muitas vezes são metáforas, alegorias. Outras são inspiradas em textos antigos como a Epopeia de Gilgamesh. Está tudo aí. Quem busca, acha. Ao que bate, abrir-se-lhe-á.

Também se confunde tradição e cultura de um lugar onde a crença evoluiu com cânone religioso, dogma. Você não encontra bíblia alguma que mencione Melchior, Balthazar e Gaspar ou que diga quantos eram os “magos do Oriente” que foram estar com Jesus. No entanto, todos sabem sobre os Três Reis Magos e eles têm um dia no calendário católico, seis de janeiro. O fato é que afirmar que Yeshua Jesus nasceu naquele dia tem 1/365 chances de estar certo e foi inserido artificialmente em um contexto que já existia, o do Sol Invictus (depois copiado pelos césares), que tinha a ver com o solstício de inverno e os três dias em que o sol ficava “parado” ou “morto” no céu até começar a “voltar”, ou “ressuscitar”. Havia um culto ao deus persa Mitra associado a isso. Os romanos passaram a atrelar a tradição existente a Jesus no ano 354 da Era Cristã. Incorporaram a celebração e deram a ela novo contexto e sentido.

Sol Invictus
Sol Invictus, pique Coringão

Eu posso dizer de mim que sou cristão, no sentido de procurar absorver e praticar os ensinamentos de Jesus, de imitá-lo. Faço orações conforme Ele me ensinou com frequência. Acalma minha alma em muitas situações, me ampara, me direciona e me conforta. Mas não sou cristão de dogma, de irreflexão, de parcialidade. Sou buscador, não ovelha. Jesus não é meu nem de ninguém. Nem padre, pastor, sacerdote ou membro de qualquer código ou tradição. Pelo que eu consegui entender até agora seu ensinamento mais fundamental, aquele que faz com que todos os outros sejam possíveis, é “amar ao teu próximo como a ti mesmo”. Poucas palavras. Um universo inteiro de espiritualidade contido nelas. Quando você se percebe no outro, todo o seu comportamento reflete isso. Um círculo virtuoso se inicia.

Religião

Religião por si é uma estrutura essencialmente política. Ateus ou praticantes de cultos não-cristãos não são mais ou menos éticos e sociáveis que ninguém por questões metafísicas, mas por empatia e amor ou falta destes. Jesus (que a propósito era judeu) não disse “ame a outro cristão como a ti mesmo”. Disse para amar o próximo. Ponto final. Qualquer sinônimo de “próximo” se encaixa nessa versão, nessa língua. Conseguir fazer isso já te faz um ser iluminado, chapa, um Buda praticamente. Basta você se imaginar praticando o ensinamento no dia a dia. Não precisa fazer mais nada, só isso já alimenta o ciclo de encontros, afetos, respeitos, cuidados. E aí você vive, evolui, ascende, se eleva.

A fé sem obras é morta, você tem que exercê-la, praticá-la. O resto é querer pegar Jesus pra si. Fundamentalismo irracional e fascistóide, farisaísmo. Só serve pra fomentar ódios, divisões, rancores e incompreensão. Não gosto, não aprovo e não colaboro. Sou a favor da vida: cada um cuidando da sua. Primeiro tirar a trave do meu olho pra conseguir enxergar o cisco no olho do meu irmão. De sangue, de fé ou de existência. Sem rótulos nem código de barras espiritual. Quem sou eu para ter alguma autoridade sobre a espiritualidade alheia? Quanta arrogância ignorante há em quem acha que tem? Cego levando outro cego, caem os dois no buraco.

Gosto da data em si, do que o Natal representa para mim. Estar em paz consigo e com os demais, reunido em harmonia com pessoas importantes ou mesmo sozinho, em reflexão e prática desse ensinamento do Cristo, o amor incondicional. O amor que você dá volta pra você. O que você não dá também. Se te pedirem a capa, nem a túnica recuses. Se te faz andar uma milha, vai com ele duas.

Espero que este texto tenha te alcançado em um momento de paz interior e tranquilidade ou contribuído para que eles se instalem. Seja lá qual for o significado que você atribui ao Natal, que essas palavras possam lhe ter alguma utilidade, nem que seja voltar ao momento da sensação antes da interpretação que a mente dá a ela, transformando o que é positivo em estímulo, negativo em repulsa e neutro em ignorância. Antes que qualquer um desses três aspectos se forme, vedana.

Feliz Natal!

DIGRESSÃO: a afirmação de que “a humanidade inventou deuses para si” não é desrespeitosa com a religião de quem quer que seja, tampouco exclui a ideia da existência de Deus. Não tenho interesse algum, autoridade ou conhecimento para dar palpite, orientação ou parecer de qualquer natureza nesse campo. Estou apenas constatando um fato. Os povos primitivos atribuíam o calor, a luz, o alimento e todo o conforto e perspectivas que o Sol oferecia ao poder de um deus (o que não deixa de ser verdadeiro em um certo sentido).

Existe uma verdade que independe do nome ou forma que as pessoas dão aos seus deuses e ela sempre se manifesta da mesma maneira em todos os lugares e para todos os seres. Queira você (ou tenha sido condicionado a) chamar seu deus de D’us, Jeová, Jah, JHVH (Tetragammaton), Adonai, A Deusa, Allah, Javé, Olorum, Zambi, Brahman, Consciência Cósmica, El, Odin, A Lei, Zeus ou Maradona, a água continua molhada, as coisas sempre caem pra baixo, a noite é escura, o fogo é quente, o arco-íris tem sete cores e a terra gira em torno do Sol. O funcionamento inexorável dos processos do universo, o todo, é também conhecido como Tao, ele mesmo uma forma de se tentar entender Deus, um mistério tão colossalmente grandioso, além do tempo e do espaço, que eu tenho a impressão que qualquer pessoa que tente esquadrinhá-lo usando uma ferramenta tão limitada quanto a mente humana inevitavelmente estará “chutando” e diminuindo o conceito pela simples tentativa de atribuí-lo um nome e uma forma. Mesmo ateus e agnosticos muitas vezes não rejeitam a ideia de uma força causal, criadora em si, mas a atribuição de uma personalidade a ela.

Convenhamos (como diz o místico yogi indiano Sadhguru): se você fosse um búfalo, como seria o seu deus? Certamente um búfalo gigante, talvez com quatro chifres. Também vejo sentido na afirmação que “se os animais tivessem uma religião, o ser humano seria o diabo”. Ou não? 

Toda imagem que qualquer cultura consegue fazer de Deus é uma versão exagerada dela mesma, porque é assim que se imagina conseguir chegar mais próximo de compreendê-lo. O fato é que nos achamos muito especiais e inteligentes, mas sabemos muito pouca coisa sobre quase nada. De todo modo, “a religião certa é aquela que te faz uma pessoa melhor“, mesmo que ela seja nenhuma ou um pouco de cada.

 

 

The Bard is in the house!

This is the very first post in English here. Shakespeare’s language has always been my partner and I would not miss the chance to use it, obviously. It has been my bread and butter for over seventeen years and encompasses all aspects of my life, from my way of thinking to my social interactions, from professional issues to my leisure time. English language has saved me in many ways, shaped the kind of human being that I have become and taught me so much more than merely being able to communicate in a foreign language. I am not going to be able to express my love and gratitude for it, no matter how hard I try. The simple fact of using it here is bliss to me big time, I can tell you.

Big Willy
“To bitch or not to bitch, that’s the question”

I work as an instructor of English, interpreter and translator. When I first started (back in the year 2000) it used to be a lot easier to find work as interpreter, which tended to be fun, pleasant to carry out and the pay was right. I used to say that I got paid to hang out, eat decent food and meet interesting people. Have lost account of how many times I met foreigners who would come to Brazil on business for an entire week, work four weekdays and then take that so-called “day off” on Friday, when they would engage in “underground” activities, for the lack of a better word. Anyways, snitching on people ain’t my cup of tea and “a word to the wise is sufficient”, they say. All good things must come to an end, the Bard would go for that matter.

That type of interaction with foreign businesspeople has also taught me, paradoxically, a whole lot about my own country and its people. It is an indisputable fact that “the average Brazilian” (if there can be such character) looks up to the USA a great deal. Hollywood, massive propaganda and loads of “yank culture” have been bombarding the West since the end of WWII with their values and lifestyle. The land of consumerism and competition has imprinted its agenda on the minds and souls of people from many other countries (and particularly our own) in spite of supporting sanguinary dictators at its will, killing whoever gets on their way to accomplish their goals, having 5% of the world’s population and consuming 35% of its natural resources, contributing to uneasiness, conflicts and economic crisis worldwide and selling a culture of individualism, hedonism and violence that will ultimately cause the planet to collapse. Uncle Sam always manages to get away with its crimes, racks up the best share in any agreement that it gets involved in and trashes the planet without being molested. Moreover, it still gets international admiration and approval. Most middle-class Brazilian good citizens would rather be born in the US while trying to pass as “patriots” and parading wrapped in Brazilian flags to fight “corruption” perpetrated by “communists” (which is just more American baloney intended to raise fear in people in order to manipulate them more easily). Ironically, corruption has now apparently reached an all-time high here, but you will not see anybody “protesting” it because those “crooked commies” are not involved. It is a lot more about the hype created by pressure groups and boosted by the right-wing biased media than about being outraged by whatever wrongdoings our politicians get involved in. Sheer manipulation combined with willful ignorance and fifty shades of bad-mindedness. Welcome to Brazil.

Anyways, my intention is not to write an anti-American text, but rather make it clear that, while I am fully aware (and thankful even) of the very many contributions that the US has given to the international community in the fields of science, technology, literature, medicine and various others, I think that those are many times offset (if not exceeded) by the price it makes other nations pay in the form of famine, war, ignorance, deprivation of basic human rights, poverty and disease. Just wanted to see some more fairness and equality, and I know darn well that these very lines are likely to be monitored and that my plea will eventually be seen as “communism”, “terrorism” or whatever “ism” that serves their purpose. It is written in English anyway, so if we look on the bright side, that represents some sort of shortcut. I am a peaceful person though, have nothing against US people whatsoever and still believe that things will be better someday, provided that people from all nations are treated as they are: human beings who do not choose where they are born and which circumstances they are born under. Please Uncle Sam, don’t “trump this bitch” here, okay?

Back to the language of the Angles: whatever subject one needs to study, they will find way more information about it in English than in any other language. If you think this is an overstatement, just pick any topic at random and google it. Then reach for the Wikipedia entry of it and swap language to English. Bingo! The topic is extended tenfold, in most of the cases. Just try and see for yourself. That basically means to say that it is an indispensable tool nowadays to anyone who knows that information is power and seeks some kind of competitive edge over others. It used to be very common to meet people who would say that they hated English (in fact I believe roughly 7 out of 10 people who need to study it for professional purposes do not like it at all). That too has changed. My generation (people born in the 70’s and early 80’s) was the last to be able to accomplish anything professionally (at least as far as the “big business” is concerned) without speaking it.

In most cases, people’s ill-will towards English is based on a misconception: they do not like to study grammar in Portuguese and think that it works the same way for foreign languages. I have had students from France, Argentina, Netherlands and other countries who do not see grammar as an impediment, but rather as a solution. I have given up teaching Portuguese to foreigners myself, it is the type of work that is exhausting and very little rewarding. Will do it if necessary, but would rather not. English is not quite like that though. It has a century-long oral tradition and is a lot more about speaking the way people do than trying to accumulate vocabulary just for the sake of knowing meanings. The way words are used in combination with others is way more important than knowing them individually. One cannot learn from dictionaries alone. They will teach you how to use words rather than help you build up on your vocabulary.

The thing about English is that, as mentioned before, it evolved as an oral language and was used as such for centuries before there was the need to develop a lexis to meet the needs of the new knowledge which started to be improved in England by prominent members of literature, physics and other areas (see embedded video below). When the printing press was invented, the need to spell words correctly and in a standardized way became imperative, then lexicographers started to investigate the origins of terms that had been used for centuries and had by then acquired different sounds and variations. In order to compile the various words that derived from them and establish some sort of logic, the spelling was many times preserved to the detriment of pronunciation. That explains the fact that the way words are spelt is many times very different from the way they are pronounced. It tends to be the most difficult aspect to get right for learners: spelling versus pronunciation.

For those out there willing to improve their skills at using English as a second language, here is a piece of (unsolicited) advice: your objective should never be to talk like a native or perfectly, but to make progress. If every day you get the feeling that you have learned something new, you will be in the right direction. Practice every way you can and do not be prejudiced against accents or spelling. There is an entire world of English language apart from that “made in USA” (which is also extremely important and rich), and it is there for the taking. Do not compare your English to that of others. Compare it to how your own ability of using it was the day before. There is a saying which goes like “everybody wants to go to heaven, nobody wants to die”. There is a lot of truth in it. Make your bit of effort, turn it into a routine. Next thing you know, it will come to fruition. It will be under your belt, for you to expand your possibilities. It is definitely worth it!

There will be texts in English regularly here for us to practice. Read me!

 

 

Ode ao madrugador

Não posso dizer que escolhi a madrugada como habitat. Fui escolhido por ela, na verdade. Sou daqueles que não precisa de muitas horas de sono pra estar inteiro no dia seguinte. Se conseguir seis horas bem dormidas já fico bem. Reflexos, raciocínios e metabolismo em perfeitas condições. Entendo que sou um espírito habitando uma carapaça temporariamente e que é meu trabalho garantir a preservação e o bom funcionamento dela, pra que minha mente (ponte entre espírito e corpo) possa estar em boas condições e trabalhe a meu favor, não contra mim. Quisera eu ter essa noção antes, mas não tinha. Já era, estraguei meu organismo durante anos com química e pensamentos tóxicos. Algumas coisas dá pra recuperar, outras reverter e outras melhorar. Mas há também aquilo que é preciso aceitar e se render, dá pra aprender muita coisa fazendo isso. Recomendo.

Gilda, rainha da madrugada

Acontece que qualidade de sono é artigo raro, aparentemente. Tenho a impressão que depois da adolescência (quando eu mesmo dormia até meio dia facilmente) as pessoas dormem cada vez menos e pior. Cigarro, álcool e medicamentos influenciam também, agridem e desequilibram. Outro dia estava lendo sobre os short sleepers, pessoas que dormem quatro, cinco horas por noite e conseguem estar inteiros, fully functional pela manhã. Cada vez mais me vejo e aceito ser um deles. Talvez por herança dos genes do meu pai, que é sempre o último a ir dormir e o primeiro a estar acordado. A diferença é que ele bebe quantidades carnavalescas de cerveja e fuma bagaraio, e eu abandonei o uso de substâncias “estupefaciantes” (como diria o Luiz Thunderbird) há tempos. Cigarro há dez anos, bebida alcoólica há três. O corpo se acostuma tanto com agressões quanto com a falta delas.

Me lembro bem do que chamo de “sono de bêbado”. Não é um sono propriamente, é uma espécie de desmaio, de desligamento. O ritual é sempre o mesmo: seu corpo parece estar obedecendo e seu raciocínio parece que presta para alguma coisa, mas na verdade você está a beira de um colapso total. Continua agindo quando já parou de pensar, fala cada vez mais mole e cada vez mais merda. Sua “conversa” consiste em um monte de trocas dos sons das palavras e cuspes na cara do seu interlocutor. Na sua cabeça você é bonito, sábio, rico e interessante. Na realidade já passou de “mala” pra “container” faz tempo. Vai deteriorando até que acaba a cerveja, a paciência de alguém, o evento ou a noite e é inevitável: sua fuga da realidade acabou e você precisa dormir. Com sorte não cometeu crime algum e sua liberdade não será tolhida, não dessa vez. Quando a cama que está rodando pelo quarto passa pela sua frente, você cai nela. De jeans, de chapéu, fumando, seja lá como for. Um trapo sujo no chão do banheiro do boteco tem mais dignidade que você. Ronca e baba por umas duas horas, deixando o recinto com aquele cheiro azedo dos gases gerados por essa bomba química em que se tornou. Daí acorda de repente. Olhos arregalados, sono impossível. Não estava dormindo, na verdade. Seu cérebro apenas desligou seu sistema por um tempo pra evitar que você morresse, não é lindo? Ele mesmo não parou, continuou funcionando a um milhão por hora. Por isso o sono de bêbado não é reparador, não descansa. Você acorda de ressaca, prometendo nunca mais beber, tentando sobreviver àquela segunda-feira dia de Exu e fingindo que não está esperando a próxima oportunidade de chapar o glóbulo novamente, fugir de si mesmo novamente, ficar lindo e rico e sábio novamente. Pois é, já estive lá, como se diz em inglês. Been there, done that.

Já foi dito que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“. Conheço bastante gente que tem uma relação saudável com bebida e consegue conciliar seus afazeres com ela, mas quanto mais penso nessa coisa de dependência química mais tenho a impressão que é uma questão de se conhecer, de saber quais limites você consegue esticar e quais decisões precisa tomar. O limite muda, o prazer ilude, o corpo tenta se impor e tomar a mente pra si. Esta já é preguiçosa e influenciável, se deixa levar facilmente. E a espiral descendente começa, arrastando consistentemente, às gargalhadas. Álcool é uma droga socialmente aceita e comercialmente estimulada, o que a torna especialmente perigosa. Todo mundo tem medo das “drogas”, mas quando conta histórias de dependência geralmente é sobre aquele parente alcoólatra que estraga a própria vida e a dos outros. Há um documentário interessante no YouTube sobre o assunto, chama-se Terapia Psicodélica. Recomendo também. Eye-opener.

Ao parar de beber, de cara perdi peso, deixei de roncar e passei a dormir bem melhor. Após três anos o peso se manteve (dez quilos a menos) e o ronco apneico sumiu definitivamente, mas o sono voltou a ficar esquisito. Idealmente durmo das onze às cinco. Seis horas. Se fosse simples assim, estaria ótimo. Só que pouco depois das três da manhã acordo, muitas vezes no mesmo horário exato. Daí que vem: é incrível como meus pensamentos são diferentes dos que costumo ter durante o dia. Imagino que isso tenha a ver com processos químicos do organismo mesmo, afinal o sono tem uma função importante de reparação e organização. Quando o processo é interrompido, é inevitável que haja espaços vazios, pontas soltas, fendas abertas.

Nessas fendas que eu caio. Por vezes presto atenção na cara que a madrugada tem em SP: algumas luzes coloridas, pálidas e tristes. O barulho de uma moto ao longe, sirenes de vez em quando, cachorros latindo, a noite onde as sombras prevalecem, os instintos e os apetites são outros, bem outros. A polaridade se inverte: as plantas sujam o ar ao invés de limpar, o dinheiro cuidado com zelo durante o dia passa a correr atrás do prazer, os corpos se procuram, a beleza e a virtude assumem outros nomes, formas e lógicas. É o negativo da foto, a luz tem outra função. Yin, não Yang.

Fora assim como dentro, em cima como embaixo. Os processos mentais também são bem diferentes no meio da noite. Medos mais profundos, reações mais dramáticas, minutos mais longos. Muitas vezes vem à tona aqueles pensamentos que não temos coragem de confessar para nossa própria alma. Somos monstros, poetas e santos nessa hora. Somos todos aqueles pensamentos e nenhum deles também. Quando a manhã chega e a luz retoma o controle, o que parecia tão intenso e definitivo se esvai, mingua até cair no território dos sonhos e fantasias, aquele mundo onde não sabemos distinguir o que foi vivido do que foi apenas imaginado. E a gente volta a assumir aquela persona que parece mais aceitável: a de gente normal, funcional e respeitável, produzindo para o bem da sociedade. O típico cidadão de bem, seja lá o que for isso. Até vir a próxima madrugada e seus fantasmas a assombrar novamente, mostrando que toda solidão é relativa, todo medo é uma forma de esperança e que quanto mais intensa a luz, mais nítida a sombra que ela projeta.

A madrugada é dona de uma das coisas mais importantes que existem em todos os mundos, em todos os tempos e para além das palavras, gestos e formas. Tudo o que é criado começa nele e só existe porque nossa mente precária precisa de sons e formas para tentar entender o que experimenta. Tudo o que vem dele é redução, simplificação, diminuição e representa apenas debilmente o que é de fato: o silêncio. Todo o barulho que existe é apenas uma imitação dele, uma tentativa irremediavelmente frustrada de reproduzi-lo.

Há um conto Zen de um simples diálogo entre um discípulo e seu professor que ilustra bem isso:

“-Mestre, qual é o primeiro princípio do Zen?”
“-Se eu te disser, ele passa a ser o segundo princípio.”

Tenho a impressão que é no silêncio da madrugada que está toda a sua força. Sou seu aprendiz, já não luto mais. Se passar o dia seguinte bocejando e à base de café, é o preço. Está muito bem pago.

Pessoas invisíveis

Logo cedo fui passar por uma porta giratória de um grande condomínio de escritórios e um senhor dos seus sessenta anos estava limpando os vidros. Notou minha distração por eu estar com a cara enfiada no celular feito os vários zumbis do Walking Dead em que se transformou caminhar por SP, percebeu o que eu faria e disse: “Bom dia! O senhor vai por ali por favor?”, apontando para uma outra porta de vidro que estava escancarada, logo atrás da tela do meu telefone. Foi quem primeiro falou comigo hoje na rua. Uniforme puído herdado de alguém, gestual rápido e determinado de trabalhador atarefado e olhos cansados de quem faz aquilo todo dia, o dia todo. Ao entrar no prédio, os mesmos bouncers de sempre: ternos pretos com ombreiras estilo anos 80, walkie-talkies e sua linguagem de QRA´s, QAP´s e QRU´s. Não entendo esses códigos, TKS por não me ensinar. Recepcionistas com uniformes iguais, rostos diferentes e frases prontas, ensaiadas e repetidas o dia todo. Contas para pagar, desrespeitos para tolerar, sapos e mais sapos para engolir. Mais do mesmo.

Subo até o nono andar. Não tenho um crachá para cruzar a porta travada da empresa dos USA, land of the free and home of the brave. Uma faxineira magra e simpática aperta o passo até mim, para que eu não espere muito. “Vou abrir pra você, professor. Quer café?”. Quero, quero muito. Nunca quis tanto, na verdade. A noite mal dormida provoca bocejos, olhos vermelhos e corpo arqueado. Cafeína transforma essa forma decadente em Mun-Rá, o de vida eterna. Salvo pela senhorinha do café, como muitas vezes em muitos lugares.

Tenho o privilégio de ser visto pelos invisíveis. Os pintados de cinza, azul ou preto. Monocromáticos, monossilábicos, monofásicos. Aqueles que em inglês a gente diz que são “taken for granted“. É como se fossem parte da paisagem. O chão está limpo, as luzes todas acesas, os equipamentos funcionando.  Nem parece que sem eles nada acontece. Acendem luzes, consertam defeitos, limpam espaços, destravam portas, fazem café, carregam peso, intermediam encontros, organizam filas, controlam acesso, repõem materiais. Invariavelmente dentro de roupas discretas, foscas, escuras, pra que fiquem mais invisíveis ainda. Aprendem a olhar de baixo pra cima, ou guardam seus olhares para quando não correm o risco de cruzar com os dos outros. Sempre olham e sempre veem, no entanto. Estão em outra frequência.

Cresci em ambientes e situações nos quais eles não estão soterrados sob seus crachás e tergais. Aquele porteiro preto que não recebe de volta metade dos “bons dias” que profere é também o cara que resolve no futebol de várzea no domingo, por exemplo. Pessoas vão até o campo só pra vê-lo. O futebol é uma linguagem. Suas qualificações, origem ou cor servem para nada diante do domínio debochado dos espaços e tempos que um cara desses tem. Você “não acha nem pra bater”, como se diz. Vai levar um chapéu, um rolinho. Vai levar gols e provavelmente perder o jogo. Ali ele exerce sua plenitude, sua vingança. Só restam duas alternativas: bater palma ou ir brincar de outra coisa. Da mesma forma, a pessoa que limpa os banheiros é o esteio de uma associação comunitária ou religiosa. É o pastor daquela igrejinha humilde que, a despeito do uso torto que alguns fazem de religião, conforta almas machucadas e salva vidas de pessoas tão invisíveis quanto ele. Ou a tiazinha da cozinha de uniforme azul e branco e cabelo preso, mãe de santo da Umbanda que atende de graça os que procuram conforto naquela fé, ela mesma tão discriminada e incompreendida pelos mesmos motivos: por ser preta, por ser brasileira, por ser humilde. E o pessoal do samba? E os que levam o sopão e agasalho pros que estão na rua, sem abrigo, comida e dignidade? Acima de tudo, os que suportam as humilhações e más-vontades cotidianas só para conseguir manter suas famílias com o mínimo de proteção e perspectiva (o que já é um feito quase que milagroso para tanta gente).

Muitas vezes, esperando por alguém atrasado ou por causa de um compromisso cancelado qualquer, fico observando essas pessoas trabalhar. O que me impressiona é o contraste. Não muito mais perceptível que uma porta automática em um contexto, eixo dos acontecimentos em outro. Excluído de um “bom dia” de segunda à sexta, Sol do sábado e domingo. Essas pessoas são as que fazem o mundo andar. São as que criam, nutrem, ensinam, preservam, acreditam, compram, se submetem. Todo e qualquer governo que se arroga o direito de existir deveria ser para elas. E se você acha piegas ou clichê o que estou dizendo, é muito provável que esteja certo. Quando alguém se propõe a escrever textos públicos corre o risco de ficar sem assunto, falar besteira e errar a mão no que escreve. Risco calculado, “ossos do ofício”. Mesmo assim, faça uma experiência: olhe para essas pessoas no rosto, “na bolinha do olho”. Perceba o quanto de você há nelas. Sinta a alma que existe atrás da expressão mecânica, alugada, social. É o que se busca expressar com um cumprimento usado na Ásia e que é normalmente associado ao Yoga, mas que na verdade é apenas uma questão de respeito no convívio: as mãos espalmadas postas à frente do peito com os dedos para cima mostrando o todo, o ligeiro curvar pra frente e a saudação opcionalmente falada que acompanha o gesto: “saúdo-te”. Namaste.

Sua atenção tem o poder de salvar o dia de alguém. Algumas vezes muda o curso de uma vida. Ou de duas, três e muitas mais, se você se permitir.

Bom dia, boa tarde, boa noite!

 

Lobotomia Musical

Não tenho pretensão de passar como intelectualóide pra ninguém aqui. A imensa maioria do que publico, debato e defendo é conhecimento de vivência, de ir buscar. Autodidatismo puro, não acadêmico. Nunca gostei de escola. Alguns dos meus amigos do Facebook estudaram comigo no primário e sabem que eu era líder, mas para cabular aula, desrespeitar regras, arrumar briga e jogar futebol. Levei tanta advertência na época que acabei cometendo meu primeiro crime na vida: aprendi a falsificar a assinatura da minha mãe para colocar no boletim de advertências, pra evitar levar uns “croque” em casa. Deu certo e passei impune, pois faz tempo e meu crime prescreveu (chupa, Maluf!). Minha mãe batia batendo, chapa. Negócio tenso. Mesmo assim, não faça isso. Não falsifique assinaturas, não cabule aulas, não brigue com seus coleguinhas e, acima de tudo, jamais dê atenção aos meus conselhos. Eu tinha notas boas na escola, sempre tive, mas acho que é porque sempre gostei de ler e me informar. Tais notas faziam com que professor@s muitas vezes fizessem vista grossa para meus petty crimes e preferissem exibir minhas provas para os outros alunos, o que para um adulto pode até “massagear o ego” (que expressão lamentável, desculpe!), mas para um pré-adolescente com reputação de bad boy representava a suprema humilhação, o horror absoluto. Ganhei a pecha de “inteligente”, palavra que não gosto muito porque acho vaga, além de não servir para muita coisa na prática.

É preciso ressaltar que não estou aqui fazendo apologia da ignorância ou dizendo que estudar é errado. Muito pelo contrário, aliás. Estudar sempre, estudar muito, estar sempre preparado, especializado e atualizado é cada vez mais imprescindível em um mundo onde as pessoas são números, a oferta de trabalho é condicionada ao preparo teórico e quem manda é o “mercado”, a suprema força do capital. Para ele seu caráter, valores, fé, integridade, firmeza de propósitos e outros atributos aparentemente desejáveis só servem pra alguma coisa se puderem ser usados na relação custo-benefício. Senão você é “descontinuado” e outro assume seu lugar, tchau e bênção. Sem amor, preliminares, jantares, ligação no dia seguinte ou beijo na boca. Então estude, prepare-se. Principalmente Língua Inglesa (aqui não vai interesse próprio de forma alguma, if you know what I mean – by the way, in case you need effective lessons for affordable fees, please get in touch via this blog or text me on Facebook, okay? Thank you for nothing).

Estudar por conta própria e o que se gosta é um privilégio. Hoje em dia tudo está a um clique de distância, a Internet é uma coisa linda (pausa para enxugar as lágrimas). Ultimamente tenho lido muito sobre Budismo, física quântica e magia. Riponga total, abraçador de árvores. Comprei um livro do Eliphas Levi, mas não vou colocar a capa aqui porque a imagem de Baphomet tem o mesmo poder que uma foto do Lula para muitas pessoas: seus circuitos neurais são bloqueados e o raciocínio deixa de existir imediatamente. Daí eu passo de “inteligente” a “endemoniado” em instantes. Deixa o primeiro adjetivo mesmo, que é mais fácil de frustrar.

Todo esse preâmbulo aka enrolação para chegar onde eu queria: na música. Taí um troço que eu gosto de estudar, sem fins lucrativos ou sem fins de qualquer natureza. Sem fins, tá afins? E aí eu mergulho na parte teórica da coisa de cabeça. Conheço razoavelmente História da Música como um todo, sei identificar estilos, influências e nuances, mas tocar mesmo nada. Espanco o violão de um modo que só dá pra ouvir bêbado, é uma tristeza. Meu talento musical se resume ao berimbau. Ótimo, na verdade todo mundo atravessa a semana se esfolando de trabalhar apenas para poder chegar na sexta-feira e ouvir alguém tocar berimbau, non è vero? Não, não é. Não sou nem músico frustrado, sou um não-músico. Depois eu vejo isso, Claúdia. Senta lá.

Tenho notado que as pessoas associam o fato de se gostar de alguma canção a gostar da pessoa que a fez, o que me parece natural e lógico. Sua arte em tese reflete você mesmo. Aí eu entro no twilight zone do meu cérebro de vez. Há muitos artistas que são pessoas bastante complicadas, algumas delas escrotas mesmo, mas que produziram e produzem coisas lindíssimas, emocionantes. Outro dia estava falando sobre o Lobão. Sua capacidade cognitiva, seu preparo intelectual e mesmo as diversas experiências de expansão de consciência que teve na vida não impediram que ele se tornasse um sujeito abjeto, racista e intolerante. Na verdade são agravantes, porque se o cara é ignorante ainda tem uma desculpa. Lobão é xenófobo, atribui traços de caráter das pessoas às suas origens. Qualquer coisa que seja dita em inglês para ele tem mais valor apenas por ser em inglês. Cita livros que nunca leu, tem a necessidade de diminuir os outros para ressaltar suas qualidades, é extremamente mimado e ególatra. Ninguém presta na música brasileira, apenas Ultraje a Rigor, Lulu Santos e outros que se alinham com ele politicamente ou  lhe dizem amém. Se bem que nem vou entrar no aspecto político da coisa porque seria uma simplificação e um erro. Já me declarei “de esquerda” algumas vezes, mas na verdade é porque muito do que eu acredito é defendido dentro daquele espectro. Pra mim esquerda é contestar, é o não-establishment. Não é a visão convencional que passa necessariamente por socialismo, comunismo e outros ismos. Quando você se define de esquerda ou direita ou centro, passa a pensar de forma monocromática. A coisa precisa primeiro se encaixar na sua ideologia (que aliás é diferente dependendo do lugar) para depois você atribuir valor a ela, quando na prática o que acontece é o contrário: certo é certo, errado é errado e mais ou menos é mais ou menos, não importa de onde venha. Depois que se vê onde cabe. Tendo à esquerda, mas prefiro acreditar que ainda estou pensando. Não vejo política como religião, não vejo religião como solução, não vejo solução para política. Lobão é de direita, da parte mais ignóbil que ela representa: a do racismo, separatismo, eugenia e preconceito. Sieg Heil.

Mesmo não gostando nem um pouco dele como pessoa, há várias de suas músicas que são importantes pra mim, sempre as escuto. Notadamente Noite e Dia, Corações Psicodélicos, Essa Noite Não, Me Chama, Chorando No Campo, Rádio Blá e Vida Bandida. Contraditório? Totalmente. É o meu jeitinho. Tanto assim que recomendo: ouça Lobão, mas só as músicas. Quando ele estiver falando alguma coisa, troque sua voz pelo chiado da TV sem sintonia ou pelo barulho de um liquidificador em funcionamento, que é mais agradável. E acima de tudo, novamente, jamais siga meus conselhos. Estou tão ou mais perdido que você.

Há muitos outros exemplos de músicos que eram ou são pessoas de caráter Total Flex, por assim dizer: Tim Maia pegava dinheiro antecipado de shows e não aparecia, ficava em casa se entupindo de sorvete e fazendo seu Triatlo. Chuck Berry esteve envolvido em corrupção de menores e escândalos sexuais, Bon Jovi traficou drogas; Peter Tosh certa vez marcou dois shows em SP, no extinto Olympia. Pegou o dinheiro adiantado, fez um dos shows apenas, apareceu em uma novela da Globo cantando Bush Doctor e seus versos educativos “legalize marijuana / down here in Jamaica“, fumou metade da maconha disponível no Brasil e se mandou pra casa, deixando o outro show por fazer. O homem era tão enrolado que morreu na bala, dentro de casa, devendo pra Jah e o mundo. Bob Marley era contra a Babylon, mas certa vez comprou um BMW e justificou dizendo que era por causa da sigla, que lembrava “Bob Marley & The Wailers”. Ok, Bob. Já deu de kaya por hoje, nêgo. John Lennon tratava  o primeiro filho, Julian, igual a um cachorro sarnento. Não era filho de Yoko Ono, a única coisa que importava para ele a certa altura da vida. Paul McCartney escreveu Hey Jude em homenagem ao menino, de dó. Vários outros casos mostram que as rameladas são a regra, não a exceção.

Enfim, ser humano é um bicho estranho. Seja quem for, em qual atividade esteja envolvido, conhecido ou anônimo. Portanto, se eu tivesse autoridade para recomendar algo, diria para evitar ídolos infalíveis, lembrar que seu Rock Star favorito é uma pessoa cheia de medos e dúvidas e preconceitos igualzinho a você é o principal: ouça o que eu digo, não ouça ninguém (essa eu acabei de inventar)!

Pra fechar ilustrando a coisa toda, um pouco de Madonna. Essa também é uma coisinha bem contraditória mas, Deus do céu, como é diva!

 

Desiderata

O termo desiderata é originalmente latim, algo como “coisas desejadas”. Renato Russo usa um verso do poema homônimo (tema desta postagem) na canção Há Tempos, a primeira do álbum As Quatro Estações. Ouvi a música na adolescência muitas vezes, como venho ouvindo seus versos desde criança. A Legião Urbana contribuiu para a formação do meu caráter, na verdade. Só o último disco, A Tempestade, ainda me soa sombrio e pessimista demais. Renato estava morrendo, sabia disso e cantou morte de ponta a ponta na ocasião. Não gosto muito desse álbum em particular, mas sempre fui fã. Meu disco favorito deles é Dois, de 1986.

Ele era um poeta triste, de uma inteligência sofisticada e que sofria com drogas, álcool e amores complicados. Uma das canções de amor mais bonitas que conheço foi escrita por ele, para um homem: Maurício. Renato era homossexual. Amor é de sentir, não de escolher. Morreu jovem, aos trinta e seis anos de idade (assim como Elis Regina e Bob Marley) e deixou uma obra sem paralelo na música brasileira. Por muitas vezes a Legião Urbana soa como Gang of Four, Morrissey & The Smiths ou uma ou outra banda do pós-punk inglês e dos EUA, mas isso é homenagem. Não plágio, cópia. Todos nos inspiramos em alguém, não é verdade? Ele deu sua cara, sua voz e sua alma. Tudo se transforma, nada se cria.

Voltando à Desiderata, do escritor estadunidense Max Ehrmann: o poema foi escrito em 1927 e encontrado dentro de um livro em uma igreja em 1962. Dispensa maiores apresentações. No inglês original fica mais belo ainda. Trata-se de um “manual de instruções” sobre como viver. É todo seu:

   “Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. Tanto que possível, sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam.

   Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes – eles também tem sua própria história.

Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito. Se você se comparar com os outros você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você. Viva intensamente o que já pode realizar.

Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde, ele é o que de real existe ao longo de todo tempo. Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença, a virtude existirá sempre.

Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui e mesmo que você não possa perceber a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.

Muita gente luta por altos ideais e em toda parte a vida está cheia de heroísmos.

Seja você mesmo, principalmente, não simule afeição nem seja descrente do amor; porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva.

Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensível aos impulsos inovadores da juventude.

Alimente a força do Espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários, muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

E a despeito de uma disciplina rigorosa, seja gentil para consigo mesmo. Portanto esteja em paz com Deus, como quer que você O conceba, e quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações, na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma.

Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito, seja prudente.
FAÇA TUDO PARA SER FELIZ”

Boa noite pra quem é de boa noite, bom dia pra quem é de bom dia!