Lobotomia Musical

Não tenho pretensão de passar como intelectualóide pra ninguém aqui. A imensa maioria do que publico, debato e defendo é conhecimento de vivência, de ir buscar. Autodidatismo puro, não acadêmico. Nunca gostei de escola. Alguns dos meus amigos do Facebook estudaram comigo no primário e sabem que eu era líder, mas para cabular aula, desrespeitar regras, arrumar briga e jogar futebol. Levei tanta advertência na época que acabei cometendo meu primeiro crime na vida: aprendi a falsificar a assinatura da minha mãe para colocar no boletim de advertências, pra evitar levar uns “croque” em casa. Deu certo e passei impune, pois faz tempo e meu crime prescreveu (chupa, Maluf!). Minha mãe batia batendo, chapa. Negócio tenso. Mesmo assim, não faça isso. Não falsifique assinaturas, não cabule aulas, não brigue com seus coleguinhas e, acima de tudo, jamais dê atenção aos meus conselhos. Eu tinha notas boas na escola, sempre tive, mas acho que é porque sempre gostei de ler e me informar. Tais notas faziam com que professor@s muitas vezes fizessem vista grossa para meus petty crimes e preferissem exibir minhas provas para os outros alunos, o que para um adulto pode até “massagear o ego” (que expressão lamentável, desculpe!), mas para um pré-adolescente com reputação de bad boy representava a suprema humilhação, o horror absoluto. Ganhei a pecha de “inteligente”, palavra que não gosto muito porque acho vaga, além de não servir para muita coisa na prática.

É preciso ressaltar que não estou aqui fazendo apologia da ignorância ou dizendo que estudar é errado. Muito pelo contrário, aliás. Estudar sempre, estudar muito, estar sempre preparado, especializado e atualizado é cada vez mais imprescindível em um mundo onde as pessoas são números, a oferta de trabalho é condicionada ao preparo teórico e quem manda é o “mercado”, a suprema força do capital. Para ele seu caráter, valores, fé, integridade, firmeza de propósitos e outros atributos aparentemente desejáveis só servem pra alguma coisa se puderem ser usados na relação custo-benefício. Senão você é “descontinuado” e outro assume seu lugar, tchau e bênção. Sem amor, preliminares, jantares, ligação no dia seguinte ou beijo na boca. Então estude, prepare-se. Principalmente Língua Inglesa (aqui não vai interesse próprio de forma alguma, if you know what I mean – by the way, in case you need effective lessons for affordable fees, please get in touch via this blog or text me on Facebook, okay? Thank you for nothing).

Estudar por conta própria e o que se gosta é um privilégio. Hoje em dia tudo está a um clique de distância, a Internet é uma coisa linda (pausa para enxugar as lágrimas). Ultimamente tenho lido muito sobre Budismo, física quântica e magia. Riponga total, abraçador de árvores. Comprei um livro do Eliphas Levi, mas não vou colocar a capa aqui porque a imagem de Baphomet tem o mesmo poder que uma foto do Lula para muitas pessoas: seus circuitos neurais são bloqueados e o raciocínio deixa de existir imediatamente. Daí eu passo de “inteligente” a “endemoniado” em instantes. Deixa o primeiro adjetivo mesmo, que é mais fácil de frustrar.

Todo esse preâmbulo aka enrolação para chegar onde eu queria: na música. Taí um troço que eu gosto de estudar, sem fins lucrativos ou sem fins de qualquer natureza. Sem fins, tá afins? E aí eu mergulho na parte teórica da coisa de cabeça. Conheço razoavelmente História da Música como um todo, sei identificar estilos, influências e nuances, mas tocar mesmo nada. Espanco o violão de um modo que só dá pra ouvir bêbado, é uma tristeza. Meu talento musical se resume ao berimbau. Ótimo, na verdade todo mundo atravessa a semana se esfolando de trabalhar apenas para poder chegar na sexta-feira e ouvir alguém tocar berimbau, non è vero? Não, não é. Não sou nem músico frustrado, sou um não-músico. Depois eu vejo isso, Claúdia. Senta lá.

Tenho notado que as pessoas associam o fato de se gostar de alguma canção a gostar da pessoa que a fez, o que me parece natural e lógico. Sua arte em tese reflete você mesmo. Aí eu entro no twilight zone do meu cérebro de vez. Há muitos artistas que são pessoas bastante complicadas, algumas delas escrotas mesmo, mas que produziram e produzem coisas lindíssimas, emocionantes. Outro dia estava falando sobre o Lobão. Sua capacidade cognitiva, seu preparo intelectual e mesmo as diversas experiências de expansão de consciência que teve na vida não impediram que ele se tornasse um sujeito abjeto, racista e intolerante. Na verdade são agravantes, porque se o cara é ignorante ainda tem uma desculpa. Lobão é xenófobo, atribui traços de caráter das pessoas às suas origens. Qualquer coisa que seja dita em inglês para ele tem mais valor apenas por ser em inglês. Cita livros que nunca leu, tem a necessidade de diminuir os outros para ressaltar suas qualidades, é extremamente mimado e ególatra. Ninguém presta na música brasileira, apenas Ultraje a Rigor, Lulu Santos e outros que se alinham com ele politicamente ou  lhe dizem amém. Se bem que nem vou entrar no aspecto político da coisa porque seria uma simplificação e um erro. Já me declarei “de esquerda” algumas vezes, mas na verdade é porque muito do que eu acredito é defendido dentro daquele espectro. Pra mim esquerda é contestar, é o não-establishment. Não é a visão convencional que passa necessariamente por socialismo, comunismo e outros ismos. Quando você se define de esquerda ou direita ou centro, passa a pensar de forma monocromática. A coisa precisa primeiro se encaixar na sua ideologia (que aliás é diferente dependendo do lugar) para depois você atribuir valor a ela, quando na prática o que acontece é o contrário: certo é certo, errado é errado e mais ou menos é mais ou menos, não importa de onde venha. Depois que se vê onde cabe. Tendo à esquerda, mas prefiro acreditar que ainda estou pensando. Não vejo política como religião, não vejo religião como solução, não vejo solução para política. Lobão é de direita, da parte mais ignóbil que ela representa: a do racismo, separatismo, eugenia e preconceito. Sieg Heil.

Mesmo não gostando nem um pouco dele como pessoa, há várias de suas músicas que são importantes pra mim, sempre as escuto. Notadamente Noite e Dia, Corações Psicodélicos, Essa Noite Não, Me Chama, Chorando No Campo, Rádio Blá e Vida Bandida. Contraditório? Totalmente. É o meu jeitinho. Tanto assim que recomendo: ouça Lobão, mas só as músicas. Quando ele estiver falando alguma coisa, troque sua voz pelo chiado da TV sem sintonia ou pelo barulho de um liquidificador em funcionamento, que é mais agradável. E acima de tudo, novamente, jamais siga meus conselhos. Estou tão ou mais perdido que você.

Há muitos outros exemplos de músicos que eram ou são pessoas de caráter Total Flex, por assim dizer: Tim Maia pegava dinheiro antecipado de shows e não aparecia, ficava em casa se entupindo de sorvete e fazendo seu Triatlo. Chuck Berry esteve envolvido em corrupção de menores e escândalos sexuais, Bon Jovi traficou drogas; Peter Tosh certa vez marcou dois shows em SP, no extinto Olympia. Pegou o dinheiro adiantado, fez um dos shows apenas, apareceu em uma novela da Globo cantando Bush Doctor e seus versos educativos “legalize marijuana / down here in Jamaica“, fumou metade da maconha disponível no Brasil e se mandou pra casa, deixando o outro show por fazer. O homem era tão enrolado que morreu na bala, dentro de casa, devendo pra Jah e o mundo. Bob Marley era contra a Babylon, mas certa vez comprou um BMW e justificou dizendo que era por causa da sigla, que lembrava “Bob Marley & The Wailers”. Ok, Bob. Já deu de kaya por hoje, nêgo. John Lennon tratava  o primeiro filho, Julian, igual a um cachorro sarnento. Não era filho de Yoko Ono, a única coisa que importava para ele a certa altura da vida. Paul McCartney escreveu Hey Jude em homenagem ao menino, de dó. Vários outros casos mostram que as rameladas são a regra, não a exceção.

Enfim, ser humano é um bicho estranho. Seja quem for, em qual atividade esteja envolvido, conhecido ou anônimo. Portanto, se eu tivesse autoridade para recomendar algo, diria para evitar ídolos infalíveis, lembrar que seu Rock Star favorito é uma pessoa cheia de medos e dúvidas e preconceitos igualzinho a você é o principal: ouça o que eu digo, não ouça ninguém (essa eu acabei de inventar)!

Pra fechar ilustrando a coisa toda, um pouco de Madonna. Essa também é uma coisinha bem contraditória mas, Deus do céu, como é diva!

 

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