Brasil contra o Fascismo

O que temos posto é uma repetição da eleição de 1989. De um lado, um candidato fabricado, vazio e midiático, produto do medo e ódio. O trabalho que a Globo fez com Collor naquela oportunidade está sendo feito pelos fake news de hoje, principalmente no WhatsApp. Existe ainda, como na ocasião, o tal medo do “comunismo”, que nunca foi uma ameaça, mais da metade das pessoas sequer sabe o que é e nenhum dos partidos em disputa professa ou pratica, mas como somos um país que se informa pela televisão onde ninguém pega uma porra de um livro pra ler, é fácil de empurrar nos mais incautos (que são muitos). Do outro a temida “esquerda”, cada vez menos esquerda, cada vez mais odiada. Aliás, colocar o PT nesse campo ideológico já pode ser considerado licença poética, por assim dizer. Na disputa presidencial, o que é realmente socialista está longe de ter chances: Vera Lúcia e Boulos, e mesmo esse está mais para social-democrata que pra “comunista do djabo“. Negócio de “virar Venezuela” é bom pra amedrontar sua tia crente lá no grupo da família, comigo nem precisa se dar ao trabalho. Tenho preguiça.

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“Vou confiscar os meios de produçãããããooooo…”

O sistema não queria o fascio e desacreditou dele. Era melhor alguém mais “civilizado”, algum tucano de plumagem curtida com o tempo e cara de santo. Só que deu ruim, o plano fez água. Com isso ajudou a criar o monstro que agora se vê obrigado a abraçar, porque o tal “mercado” gosta dele. As bolsas sobem, “Wall Street aceita”. Como se isso fosse bom pra alguém além de grandes corporações internacionais que só estão interessadas no bottomline e foda-se os escrúpulos, os pobres, o meio ambiente, os povos, culturas e quem mais atravessar o caminho. It’s the economy, stupid!

Pra além do fascismo latente, Jair Bolsonaro é uma fraude, um embuste. Basta constatar o que fez até hoje: procure uma galinha que ele tenha ajudado a engordar, que você não acha. É uma farsa total, assim como era Collor, o playboy cocainômano que foi vendido como “caçador de marajás”. O apoio de hoje ao candidato fascista pode ser entendido como parte protesto, parte ignorância e alta dose de perversidade pura e simples, porque quem está falando sério sobre os rumos da política sabe que há gente muito melhor preparada em outros partidos, com currículo, lisura e competência suficientes para exercer o cargo. Muitos dos seus eleitores são apenas gente ruim mesmo, do tipo que entregava os vizinhos pro DOPS como “subversivos” na época do regime militar. Às vezes por ódio, por medo ou pura maldade, elemento facilmente encontrável nas manifestações de apoio à besta-fera (basta ver o episódio da placa da Marielle, acontecido ontem e perpetrado por candidatos da legenda do fascio). É muito fácil de se perceber que existe no Brasil uma maldade indisfarçável no ar. As pessoas te cumprimentam pela frente olhando dentro dos seus olhos, sorriem e elogiam com a mesma facilidade com que fazem fofoca a seu respeito, inventam mentiras e destroem quem quer que seja visto como ameaça. Há a onipresente inveja a guiar as ações (e as óbvias exceções de praxe que confirmam a regra). Inveja da competência, do sucesso profissional e/ou financeiro, da capacidade de ser amado, da inteligência ou o que for. Mendigos na rua invejam o papelão de dormir em cima uns dos outros. É um sentimento que diz mais sobre quem o tem do que sobre quem sofre. E fomenta as relações amistosas do brasileiro cordial #sqn. Aquele seu amigão do Facebook tem grandes chances de querer mais é te ver pelas costas. Talvez esteja trabalhando nisso nesse exato momento. Seja espalhando notícias falsas a seu respeito, seja denunciando seus atos para pessoas em posição de autoridade, seja lendo textos no seu blog e odiando sua capacidade argumentativa, seu uso do vernáculo ou simplesmente sua iniciativa de se posicionar a respeito de um tema qualquer. Conhece alguém assim? Não, né?

Caso essa aberração chamada Bolsonaro seja eleito, o país vai ser entregue à uma turba de incompetentes combinados com agentes diretamente interessados em uma agenda neoliberal, para quem a base da pirâmide social é apenas mão de obra batata, abundante e descartável. Receita repetida, resultado idem. Definição de insanidade de Einstein, conhece? Além disso, a violência já presente no discurso será legitimada pelo voto e os ataques às minorias, que já são constantes, se tornarão o padrão. No outro lado da equação, haverá mais resistência ainda, porque ideias não podem ser mortas ou presas. Pessoas não serão pisoteadas pelo sistema e voltarão pedindo bis. Violência se combate com violência? Lex Talionis vale para os dois lados, ou não? Isso não tem fim, sabemos. E outra: em um país onde basicamente qualquer tipo de burocracia tem duas formas de contornar (a oficial e a “por debaixo do pano”), quão desonesto alguém precisa ser pra acreditar que posse de arma será concedida aos “cidadãos de bem”, obedecendo critérios sensatos de equilíbrio emocional, necessidade de defesa pessoal e perfil psicológico ao invés de na base da propina pra “quebrar” a lei, como se faz abertamente com carteira nacional de habilitação? Alguém realmente espera que pessoas com o mínimo de noção da realidade acreditem nesse tipo de argumentação? É sério isso mesmo? Aliás, o que exatamente é um “cidadão de bem“? Na mesma linha, em um lugar onde meia tonelada de cocaína é encontrada e não se sabe o dono, uma tonelada de maconha desaparece de dentro de uma delegacia “como se nada”, mais de 90% dos assassinatos ficam sem solução, uma vereadora que luta pelos direitos humanos é executada junto com seu motorista em praça pública e o crime não é esclarecido, quem é quem? Quem é o crime? A quem entregar a responsabilidade pela segurança? A um ex-militar de meia-pataca que foi expulso do exército? Um bunda-mole que foi assaltado e teve sua arma roubada? Pergunta lá no posto Ipiranga? Que porra de Brasil melhor é esse que vocês querem?

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Pensar não dói, experimente!

A situação que vivemos é tão surreal que há cristãos que vão a igreja aos domingos prestar culto a um Messias que foi inimigo do sistema e por isso torturado e morto pelo Estado, para depois fazer campanha para um candidato que exaltou um torturador e que diz abertamente ser favorável à prática. Vemos mulheres, de quem o mesmo candidato disse que “não empregaria com o mesmo salário“, que sua única filha foi uma “fraquejada”, que “até existem mulheres competentes” e outras sandices, também fazendo campanha pra ele. Pretos e gays defendendo sua candidatura. Donos de prostíbulo e atores pornô defendendo a “família tradicional”. Um parlamentar que passou quase trinta anos no Congresso Nacional e guindou os filhos à mesma condição pregando “diminuição do Estado” enquanto diz que “não abre mão das verbas de parlamentar a que tem direito“. Se recusa a ir a debates e nos poucos aos quais compareceu falava devagar para que acabasse o tempo e conseguisse escapar de responder. Passou mais de uma hora de uma sabatina sem dar uma resposta objetiva para uma pergunta que fosse. Muitas vezes devolveu a pergunta para quem a fez. É um desqualificado completo. Sem cultura, educação formal, preparo administrativo ou político, capacidade de relacionamento interpessoal ou diplomacia. O sujeito mal fala português direito, é tosco e limitado intelectualmente. Parece um personagem de filme B, a gente se pergunta como pode alguém racionalmente declarar voto num paspalho desses. Não tem explicação plausível que não seja ignorância ou maldade. Por ódio ao PT? Conta outra. Por mais besteiras ou desvios que um partido político tenha feito, não justifica entregar um país na mão de um pazzo desses, vai me desculpar. Há mecanismos de punição (muitos deles criados pelo próprio partido em questão e que acabaram usados contra ele mesmo – seu grande ícone está preso nesse momento). De quais princípios as pessoas estão dispostas a abrir mão por ódio a um partido? Conseguem ser condescendentes com racismo, misoginia, tortura e homofobia por causa disso? Deixam de perceber a nítida falta de capacidade do cara para ser presidente? Que porcaria de argumento é esse? Uma postura dessa chega a ser irresponsável.

Este texto era pra ser um post no Facebook, mas ficou muito longo e coloquei aqui. Sei que, ao mesmo tempo que pode servir como reflexão ou entretenimento para uns, pode despertar raiva em outros, além de me expor à geral fascistóide cujo objetivo é intimidar e querer destruir tudo o que seja diferente deles, inclusive quem estiver alinhado com sua mentalidade e por algum motivo deixe de estar. Fascismo sempre foi assim, autofágico, truculento e pronto para colocar a cabeça pra fora do lixo humanitário em que habita, para o qual se destina e de que se alimenta. Pra mim não tem problema. Sem nenhum medo de estar fazendo demagogia, afirmo com convicção: estou do lado dos pretos, dos pobres, das mulheres, de pessoas de qualquer orientação sexual ou corrente espiritual. Mesmo que el@s mesm@s às vezes não estejam. Há diferentes níveis de consciência, empatia e compaixão. Estes são os que eu consigo sentir e nos quais meus princípios e ações estão alicerçados. Não abro mão de me manifestar, já que ainda estamos numa democracia (estamos?). Respeito até o limite qualquer formulação política em que se acredite. Se você é liberal, anarquista, conservador, socialista, comunista, social-democrata, marxista, ambientalista, a little bit of this, a little bit of that, a little bit of the other. Na verdade o verdadeiro “cidadão de bem” quer apenas trabalhar em paz, ter acesso ao mínimo de dignidade, saúde e respeito, que não lhe encham o saco e que o fardo da existência seja aliviado por doses de amor e alegria sempre que possível, independentemente da fé que tenha ou deixe de ter, dos partidos, do Political Compass, dos países e de toda mesquinhez humana. Fascismo não. É a exceção da regra. Ele quer que o diferente não exista. Ele intimida, exclui, ameaça, segrega, violenta, destrói, separa, quebra, queima, faz desaparecer, entristece, suja, turva, desvirtua, apodrece, contamina, infecta, sabota, retrocede, atrasa, polui, mata. Respeito opiniões, não ideologias de morte.

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Mein Fuhrer my ass!

Bolsonaro não será eleito, mas parte do estrago já está feito. O fascismo despertou, a reação a ele não pode deixar de existir. Sem tergiversar, sem negociar, sem dar chance de ele ter chance. Por outro lado, sabemos mais claramente quem é quem, que princípios as pessoas têm e do que são capazes. Várias máscaras estão caindo, o que é ótimo. Melhor olhar o inimigo na bolinha do olho, creio eu. Every cloud has a silver lining, como se diz em inglês.

Venceremos. O amor sempre vence o ódio. É uma questão de energia, não adianta espernear. É o Dharma, o TAO, o funcionamento. A Lei.

P.S.: Recomendo o voto em Ciro Gomes, número 12 na urna. Preparado, experiente, quase quarenta anos de ficha limpa, honesto, tem amor pelo Brasil e um projeto completo de governo que protege o trabalhador ao mesmo tempo que estimula o crescimento, o empreendedorismo, saúde, segurança e educação. Barba, cabelo e bigode. Dará um grande presidente. Sou brasileiro como você e também quero o melhor para o meu país. Isso inclui mandar um ou outro ir tomar no cu de vez em quando, que é mais um aspecto do meu candidadto com o qual me identifico.

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