Meu pai era a Esfinge

Véspera de Natal, aproximadamente oito da noite. Na periferia de São Paulo os fogos estouram pelo céu, as motocicletas circulam em comboio, cheiros se misturam no ar e as pessoas procuram algum conforto e aconchego. Seja junto de suas famílias ou amigos, sozinhos dentro de suas almas incompreendidas, ou se entorpecendo de alguma droga legal ou ilegal que preencha temporariamente o vazio de suas vidas e os façam esquecer um pouco o peso dos anos, das atitudes e falta delas, das palavras nunca ditas que deveriam ter sido e das palavras ditas que machucam tanto que elas mesmas não dão conta de descrever.

Pela primeira vez na vida, dei banho sozinho em meu pai. Há alguns minutos estávamos lá ele e eu no banheiro do quarto da casa da minha mãe, onde cresci e vivemos juntos e onde ele hoje se recupera de uma cirurgia seríssima para a retirada de um câncer que lhe arrancou parte do maxilar, da língua e de sua vontade de viver. Por mais que seja algo normal, apenas uma rotina de higiene, era uma situação para a qual eu não tinha me preparado. Não tinha visto a passagem do tempo nem a inexorável deterioração dos corpos dessa maneira até este dia. O homem que me levava nos ombros contra as ondas do mar, fortaleza de músculos e virilidade que foi meu herói e modelo de comportamento, grande e indestrutível como um titã estava agora sentado em uma cadeira de plástico branco, com duas feridas nas pernas abertas para que tecidos e ossos fossem tirados para servir de enxerto e precisavam ser lavadas para não infeccionar. Com dificuldade e o auxílio de um andador foi até o banheiro, com minha ajuda tirou a roupa e se lavou, esfreguei e enxaguei partes do seu corpo velho, frágil, arqueado e dolorido.

No início houve um certo incômodo nítido no ar da parte dele. Meu pai sempre foi orgulhoso, teimoso e muito independente. Quantas barreiras de orgulho ele teve que derrubar para aceitar estar ali comigo, só ele sabe. Isso me incomodou também por conhecê-lo bem e saber o quão difícil estava sendo. Em alguns minutos, porém, ficou bem mais fácil tanto pra ele quanto pra mim. Sentado, esfregou os ferimentos com o sabão indicado para isso, eu ajudei com os tubos de sonda e traqueostomia, joguei água, ensaboei, mostrei onde faltava limpar. Cinco minutos depois, era apenas mais um banho qualquer, uma necessidade básica sendo atendida respeitando os limites das circunstâncias. Ao final enxugamos seu corpo, ele vestiu-se com minha ajuda e fomos fazer a barba na medida do possível, pra refazer os curativos do seu rosto. Meu velho pai então pegou o andador e voltou pro quarto mancando e fazendo um barulho estranho típico de respiração ofegante por dentro do tubo de traqueostomia. Curativos e lençóis novos, dieta e sedativo correndo na sonda em seguida, visita de um de seus irmãos e mais um dia longo de recuperação se encerrando. O fato de ser véspera de Natal talvez torne seu sono mais difícil, não por qualquer tipo de sentimentalismo ou apego à data em si, mas por causa da barulheira que fazem na rua nesses dias.

pai

Hoje aprendi que, por mais tortuosos que sejam seus caminhos e seu estilo de vida e por mais que sempre há um preço a se pagar por vícios, escolhas e falhas de caráter, a vida é um bem muito precioso e a gente sempre acaba se apegando nela da forma que der. Alma e corpo vão se descolando aos poucos um do outro e nenhum dos dois quer fazê-lo. Aprendi também que há vários níveis de orgulho e auto estima e que eles deixam de ser prioridade muito facilmente, bastando você se ver aprisionado em um corpo que não funciona ou reage da forma como gostaria que ele fizesse. Acima de tudo, tive uma experiência de interagir com meu pai pela primeira vez de um modo em que ele tivesse algum tipo de dependência de mim, como muitas vezes tive dele. Vivenciei o enigma proposto pela Esfinge a Édipo sobre o ser que tem quatro pernas de manhã, duas ao meio dia e três à noite ao decifrá-lo no fundo dos olhos do meu pai quando nossos olhares envergonhados se cruzavam. Foi estranho, muito marcante e, acima de tudo, me mostrou uma nova perspectiva sobre ser útil e relevante de alguma forma. Ser importante não importa.

E meu Natal foi feliz assim, como jamais seria de outra maneira.