Tempos estranhos se avizinham. Baixa!

BAIXA
SANTO SALVADOR
BAIXA
SEJA COMO FOR
ACHA
NOSSA DIREÇÃO
FLECHA
NOSSO CORAÇÃO
PUXA
PELO NOSSO AMOR
RACHA
OS MUROS DA PRISÃO

EXTRA
RESTA UMA ILUSÃO
EXTRA
RESTA UMA ILUSÃO
EXTRA
ABRE-SE CADABRA-SE A PRISÃO

BAIXA
CRISTO OU OXALÁ
BAIXA
SANTO OU ORIXÁ
ROCHA
CHUVA, LASER, GAZ
BICHO
PLANTA, TANTO FAZ
BRECHA
FAÇA-SE ABRIR
DEIXA
NOSSA DOR FUGIR

EXTRA
ENTRA POR FAVOR
EXTRA
ENTRA POR FAVOR
EXTRA ABRA-SE CADABRA-SE O TEMOR

EU, TU E TODOS NO MUNDO
NO FUNDO TEMEMOS POR NOSSO FUTURO
ET E TODOS OS SANTOS VALEI-NOS
LIVRAI-NOS DESSE TEMPO ESCURO, LÁ LÁ LÁ LA…

Om Mani Padme Hum

“É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.” – Friedrich Nietzsche

ommanipadmehum

Por mais que haja certos níveis de comunicação em que pessoas se conectem por compartilhar experiências, opiniões e sentimentos parecidos, existe um lugar na alma de cada um que é totalmente insondável, misterioso e além de qualquer racionalização que se possa fazer.

Trata-se daquela dimensão onde uma conversa interna acontece envolvendo duas vozes ou entes de uma mesma pessoa em que uma busca influenciar a outra a não se deixar levar por estímulos externos, a aceitar sua própria escuridão e encarar de frente suas limitações morais, suas falhas de caráter, sua transferência de responsabilidade para os outros, sua incapacidade total ou parcial de aceitar o que não pode controlar, sua mesquinhez, medos e egoísmo.

Percebe-se ao fim e ao cabo que ferir o outro é ferir a si mesmo, que julgamentos são menos importantes que o motivo para que eles existam, que boas intenções são geralmente inúteis ou mesmo nocivas. Há uma dor que é mental e que portanto pode ser eliminada ou transformada em outra coisa. Porém há uma dor que dilacera camadas que vão muito além do ego, que não é causada por palavras duras ou atos impensados de raiva. Ela é a dor que se destina a destruir o amor em si, fazer com que se abra mão dele ou que se pense que não vale a pena senti-lo. Por isso dói tanto, porque embora a destruição seja sempre o princípio de outro ciclo e portanto parte indissociável da vida, não se escolhe amar. Tal sentimento se impõe por si só, talvez por ser a própria força motriz de tudo o que existe. Não tem culpa ou remorso de ser o que é nem tampouco age. Amor não age, não faz. Ele é. Não morre, não perde, não se vinga. Não inveja, não aprisiona, não exclui. A impressão que se tem é que trata-se de um sentimento perfeito e elevado demais pra que algum ser humano consiga lidar com ele. Daí surge a insatisfação, “dhukka“, causada pela mente que tenta impor regras e limites a algo que é infinitamente maior e mais completo que ela mesma. Jamais conseguiria.

Do choque entre a mente por definição insatisfeita e o amor inexorável e perfeito surge primeiro os sentimentos de impotência e frustração devastadores, destruindo todas as camadas de vaidade, orgulho e sensação de posse. Debaixo disso, percebe-se que é tudo Mara, ilusão. O amor continua lá, impávido. Inabalável. Ele é a própria força que permite a harmonia entre a Criação, a Preservação e a Destruição e que faz com que os ciclos se alternem seguindo não o padrão da vontade de alguma inteligência humana, mas o da ordenação suprema do universo. Igual para todos mas percebida de forma diferente conforme a consciência de cada um.

Daí surgem a resignação, o aprendizado e a sensação de que o que se busca não é de ser buscado, o que se quer não é de ser querido. Não se trata de acrescentar coisas, mas de saber perdê-las e perceber que ainda assim se ama. Nessa dimensão, não existe perda tampouco insatisfação. É o ser, não o ter. É o próprio Amor.

A flor de lótus nasce da lama. Om Mani Padme Hum.