Fake News pra presidente?

(Texto originalmente publicado no Facebook)

Hoje, aqui no Facebook, vi uma publicação de um “amigo” (daqueles bem da onça mesmo, devidamente excluído ao final do processo) sobre um “filho do Lula que estava tirando sarro dos brasileiros”. Era um vídeo requentado de um cara dirigindo e falando groselha que havia viralizado na época da greve dos caminhoneiros, o cara não era filho do Lula. Postei um comentário dizendo isso e provando que era falso. Meu “amigo” apagou (o comentário, não o post). Perguntei, ele respondeu: “sim, e vou apagar esse também.”

Ontem também aconteceu. Em uma publicação de uma “amiga” (prima) outro fake news com um Photoshop tosco da Manuela d’Avilla e uma camiseta falsa com os dizeres “Jesus é travesti”. Quando mostrei, a pessoa veio falar do Lula (que nem era o assunto). Não apagou, não admitiu. Levou pro lado da ofensa pessoal.
Essas eleições foram marcadas pela irracionalidade e ódio apenas. Muitos dos apoiadores do Bolsonaro não têm interesse algum em melhoria, combate à corrupção e muito menos pudor algum em mentir, caluniar e destruir quem quer que se apresente como opositor. Não importa o preço. Não tem nada a ver com a busca de um país melhor, mais justo ou honesto. É apenas truculência, cegueira e o mais absoluto fascismo. Verdade é o que concorda comigo, mentira é o que não. Se você mostra tudo o que Haddad fez como ministro e prefeito, não serve pra nada. Se inventa que ele disse que após os seis anos a criança pertence ao Estado e que inventou o tal “kit gay”” (outra fake news), tome “cidadão de bem” compartilhando no Facebook e WhatsApp, cheio de ódio, a baba escorrendo pelo canto da boca.
O vencedor dessa eleição, como o do Brexit e das eleições dos EUA não é uma pessoa ou uma ideologia. É uma prática milenar que atingiu rapidez e alcance nunca vistas, graças à internet, seus algarismos e bolhas. Ganhou até um nome em inglês, “fake news”. Mas trata-se mesmo da boa e velha MENTIRA. Aquela que os cristãos antigamente diziam ser “filha do diabo” e que hoje muitos deles passam o dia espalhando pelos grupos, redes e afins. A pós-verdade de Sygmunt Balman está aí, elegendo “mitos”, matando argumentos e disseminando o ódio.

“Brasil melhor” assim, só se for no WhatsApp…

My heart beats to the sound of Reggae

I saw you on the field
a little insecure
I think I saw you out in the rain like tears
And I know you’re feeling small
and tired of it all
Looking for a softer place to fall

I saw you at the field, on the wild
I watch you for a while
I almost thought I saw you smile
And I know you’re feeling small
and you’re tired of it all
Looking for a softer place to fall
You’re looking for a softer place to fall
After All, After all, After all
After all, After all, After all

I saw you on the field a little insecure
I think I saw you out in the rain like tears
and I know you’re feeling small
and you’re tired of it all
looking for a softer place to fall

I saw you on the field, on the wild
I watch you for a while
I almost thought you smile
and I know you’re feeling small
and you’re tired of it all
Looking for a softer place to fall
You’re looking for a softer place to fall
After all, After all, After all
After all, After all, After all
After all, After all, After all
After all, After all, After all
(looking for a softer place to fall)
a softer place to fall…
After all, After all…

 

Brasil contra o Fascismo

O que temos posto é uma repetição da eleição de 1989. De um lado, um candidato fabricado, vazio e midiático, produto do medo e ódio. O trabalho que a Globo fez com Collor naquela oportunidade está sendo feito pelos fake news de hoje, principalmente no WhatsApp. Existe ainda, como na ocasião, o tal medo do “comunismo”, que nunca foi uma ameaça, mais da metade das pessoas sequer sabe o que é e nenhum dos partidos em disputa professa ou pratica, mas como somos um país que se informa pela televisão onde ninguém pega uma porra de um livro pra ler, é fácil de empurrar nos mais incautos (que são muitos). Do outro a temida “esquerda”, cada vez menos esquerda, cada vez mais odiada. Aliás, colocar o PT nesse campo ideológico já pode ser considerado licença poética, por assim dizer. Na disputa presidencial, o que é realmente socialista está longe de ter chances: Vera Lúcia e Boulos, e mesmo esse está mais para social-democrata que pra “comunista do djabo“. Negócio de “virar Venezuela” é bom pra amedrontar sua tia crente lá no grupo da família, comigo nem precisa se dar ao trabalho. Tenho preguiça.

FB_IMG_1535325644443
“Vou confiscar os meios de produçãããããooooo…”

O sistema não queria o fascio e desacreditou dele. Era melhor alguém mais “civilizado”, algum tucano de plumagem curtida com o tempo e cara de santo. Só que deu ruim, o plano fez água. Com isso ajudou a criar o monstro que agora se vê obrigado a abraçar, porque o tal “mercado” gosta dele. As bolsas sobem, “Wall Street aceita”. Como se isso fosse bom pra alguém além de grandes corporações internacionais que só estão interessadas no bottomline e foda-se os escrúpulos, os pobres, o meio ambiente, os povos, culturas e quem mais atravessar o caminho. It’s the economy, stupid!

Pra além do fascismo latente, Jair Bolsonaro é uma fraude, um embuste. Basta constatar o que fez até hoje: procure uma galinha que ele tenha ajudado a engordar, que você não acha. É uma farsa total, assim como era Collor, o playboy cocainômano que foi vendido como “caçador de marajás”. O apoio de hoje ao candidato fascista pode ser entendido como parte protesto, parte ignorância e alta dose de perversidade pura e simples, porque quem está falando sério sobre os rumos da política sabe que há gente muito melhor preparada em outros partidos, com currículo, lisura e competência suficientes para exercer o cargo. Muitos dos seus eleitores são apenas gente ruim mesmo, do tipo que entregava os vizinhos pro DOPS como “subversivos” na época do regime militar. Às vezes por ódio, por medo ou pura maldade, elemento facilmente encontrável nas manifestações de apoio à besta-fera (basta ver o episódio da placa da Marielle, acontecido ontem e perpetrado por candidatos da legenda do fascio). É muito fácil de se perceber que existe no Brasil uma maldade indisfarçável no ar. As pessoas te cumprimentam pela frente olhando dentro dos seus olhos, sorriem e elogiam com a mesma facilidade com que fazem fofoca a seu respeito, inventam mentiras e destroem quem quer que seja visto como ameaça. Há a onipresente inveja a guiar as ações (e as óbvias exceções de praxe que confirmam a regra). Inveja da competência, do sucesso profissional e/ou financeiro, da capacidade de ser amado, da inteligência ou o que for. Mendigos na rua invejam o papelão de dormir em cima uns dos outros. É um sentimento que diz mais sobre quem o tem do que sobre quem sofre. E fomenta as relações amistosas do brasileiro cordial #sqn. Aquele seu amigão do Facebook tem grandes chances de querer mais é te ver pelas costas. Talvez esteja trabalhando nisso nesse exato momento. Seja espalhando notícias falsas a seu respeito, seja denunciando seus atos para pessoas em posição de autoridade, seja lendo textos no seu blog e odiando sua capacidade argumentativa, seu uso do vernáculo ou simplesmente sua iniciativa de se posicionar a respeito de um tema qualquer. Conhece alguém assim? Não, né?

Caso essa aberração chamada Bolsonaro seja eleito, o país vai ser entregue à uma turba de incompetentes combinados com agentes diretamente interessados em uma agenda neoliberal, para quem a base da pirâmide social é apenas mão de obra batata, abundante e descartável. Receita repetida, resultado idem. Definição de insanidade de Einstein, conhece? Além disso, a violência já presente no discurso será legitimada pelo voto e os ataques às minorias, que já são constantes, se tornarão o padrão. No outro lado da equação, haverá mais resistência ainda, porque ideias não podem ser mortas ou presas. Pessoas não serão pisoteadas pelo sistema e voltarão pedindo bis. Violência se combate com violência? Lex Talionis vale para os dois lados, ou não? Isso não tem fim, sabemos. E outra: em um país onde basicamente qualquer tipo de burocracia tem duas formas de contornar (a oficial e a “por debaixo do pano”), quão desonesto alguém precisa ser pra acreditar que posse de arma será concedida aos “cidadãos de bem”, obedecendo critérios sensatos de equilíbrio emocional, necessidade de defesa pessoal e perfil psicológico ao invés de na base da propina pra “quebrar” a lei, como se faz abertamente com carteira nacional de habilitação? Alguém realmente espera que pessoas com o mínimo de noção da realidade acreditem nesse tipo de argumentação? É sério isso mesmo? Aliás, o que exatamente é um “cidadão de bem“? Na mesma linha, em um lugar onde meia tonelada de cocaína é encontrada e não se sabe o dono, uma tonelada de maconha desaparece de dentro de uma delegacia “como se nada”, mais de 90% dos assassinatos ficam sem solução, uma vereadora que luta pelos direitos humanos é executada junto com seu motorista em praça pública e o crime não é esclarecido, quem é quem? Quem é o crime? A quem entregar a responsabilidade pela segurança? A um ex-militar de meia-pataca que foi expulso do exército? Um bunda-mole que foi assaltado e teve sua arma roubada? Pergunta lá no posto Ipiranga? Que porra de Brasil melhor é esse que vocês querem?

FB_IMG_1525860370967
Pensar não dói, experimente!

A situação que vivemos é tão surreal que há cristãos que vão a igreja aos domingos prestar culto a um Messias que foi inimigo do sistema e por isso torturado e morto pelo Estado, para depois fazer campanha para um candidato que exaltou um torturador e que diz abertamente ser favorável à prática. Vemos mulheres, de quem o mesmo candidato disse que “não empregaria com o mesmo salário“, que sua única filha foi uma “fraquejada”, que “até existem mulheres competentes” e outras sandices, também fazendo campanha pra ele. Pretos e gays defendendo sua candidatura. Donos de prostíbulo e atores pornô defendendo a “família tradicional”. Um parlamentar que passou quase trinta anos no Congresso Nacional e guindou os filhos à mesma condição pregando “diminuição do Estado” enquanto diz que “não abre mão das verbas de parlamentar a que tem direito“. Se recusa a ir a debates e nos poucos aos quais compareceu falava devagar para que acabasse o tempo e conseguisse escapar de responder. Passou mais de uma hora de uma sabatina sem dar uma resposta objetiva para uma pergunta que fosse. Muitas vezes devolveu a pergunta para quem a fez. É um desqualificado completo. Sem cultura, educação formal, preparo administrativo ou político, capacidade de relacionamento interpessoal ou diplomacia. O sujeito mal fala português direito, é tosco e limitado intelectualmente. Parece um personagem de filme B, a gente se pergunta como pode alguém racionalmente declarar voto num paspalho desses. Não tem explicação plausível que não seja ignorância ou maldade. Por ódio ao PT? Conta outra. Por mais besteiras ou desvios que um partido político tenha feito, não justifica entregar um país na mão de um pazzo desses, vai me desculpar. Há mecanismos de punição (muitos deles criados pelo próprio partido em questão e que acabaram usados contra ele mesmo – seu grande ícone está preso nesse momento). De quais princípios as pessoas estão dispostas a abrir mão por ódio a um partido? Conseguem ser condescendentes com racismo, misoginia, tortura e homofobia por causa disso? Deixam de perceber a nítida falta de capacidade do cara para ser presidente? Que porcaria de argumento é esse? Uma postura dessa chega a ser irresponsável.

Este texto era pra ser um post no Facebook, mas ficou muito longo e coloquei aqui. Sei que, ao mesmo tempo que pode servir como reflexão ou entretenimento para uns, pode despertar raiva em outros, além de me expor à geral fascistóide cujo objetivo é intimidar e querer destruir tudo o que seja diferente deles, inclusive quem estiver alinhado com sua mentalidade e por algum motivo deixe de estar. Fascismo sempre foi assim, autofágico, truculento e pronto para colocar a cabeça pra fora do lixo humanitário em que habita, para o qual se destina e de que se alimenta. Pra mim não tem problema. Sem nenhum medo de estar fazendo demagogia, afirmo com convicção: estou do lado dos pretos, dos pobres, das mulheres, de pessoas de qualquer orientação sexual ou corrente espiritual. Mesmo que el@s mesm@s às vezes não estejam. Há diferentes níveis de consciência, empatia e compaixão. Estes são os que eu consigo sentir e nos quais meus princípios e ações estão alicerçados. Não abro mão de me manifestar, já que ainda estamos numa democracia (estamos?). Respeito até o limite qualquer formulação política em que se acredite. Se você é liberal, anarquista, conservador, socialista, comunista, social-democrata, marxista, ambientalista, a little bit of this, a little bit of that, a little bit of the other. Na verdade o verdadeiro “cidadão de bem” quer apenas trabalhar em paz, ter acesso ao mínimo de dignidade, saúde e respeito, que não lhe encham o saco e que o fardo da existência seja aliviado por doses de amor e alegria sempre que possível, independentemente da fé que tenha ou deixe de ter, dos partidos, do Political Compass, dos países e de toda mesquinhez humana. Fascismo não. É a exceção da regra. Ele quer que o diferente não exista. Ele intimida, exclui, ameaça, segrega, violenta, destrói, separa, quebra, queima, faz desaparecer, entristece, suja, turva, desvirtua, apodrece, contamina, infecta, sabota, retrocede, atrasa, polui, mata. Respeito opiniões, não ideologias de morte.

ezgif.com-video-to-gif
Mein Fuhrer my ass!

Bolsonaro não será eleito, mas parte do estrago já está feito. O fascismo despertou, a reação a ele não pode deixar de existir. Sem tergiversar, sem negociar, sem dar chance de ele ter chance. Por outro lado, sabemos mais claramente quem é quem, que princípios as pessoas têm e do que são capazes. Várias máscaras estão caindo, o que é ótimo. Melhor olhar o inimigo na bolinha do olho, creio eu. Every cloud has a silver lining, como se diz em inglês.

Venceremos. O amor sempre vence o ódio. É uma questão de energia, não adianta espernear. É o Dharma, o TAO, o funcionamento. A Lei.

P.S.: Recomendo o voto em Ciro Gomes, número 12 na urna. Preparado, experiente, quase quarenta anos de ficha limpa, honesto, tem amor pelo Brasil e um projeto completo de governo que protege o trabalhador ao mesmo tempo que estimula o crescimento, o empreendedorismo, saúde, segurança e educação. Barba, cabelo e bigode. Dará um grande presidente. Sou brasileiro como você e também quero o melhor para o meu país. Isso inclui mandar um ou outro ir tomar no cu de vez em quando, que é mais um aspecto do meu candidadto com o qual me identifico.

As mulheres vão nos salvar (de novo)!

Geral machista da nossa pátria amada salve salve até tolera o que eles chamam de “esquerda”, umas esmolas pros mais pobres aqui e ali e tals, uma Parada Gay acolá até que passa.

Agora, mulheres se posicionando politicamente, empoderadas e lutando por seus direitos, aí não: os caras simplesmente não sabem lidar, perdem a linha totalmente. Já tem “celebridade”, sub-celebridade, wannabes em geral e um monte de Zé por aí cagando regra pra dizer que “se as mulheres estivessem falando sério, não criariam um grupo contra o Bostanágua, mas fariam campanha pra Marina”, como se a escolha de um(a) presidente tivesse que passar por gênero e como se feminismo fosse o oposto de machismo (e como se Marina Silva não fosse perfeitamente capaz de apoiar o Bozonaro no segundo turno).

Surgiu um grupo “Mulheres por Bolsonaro” que só tem homem e há várias fake news circulando para desacreditar o outro, que elas criaram e que já conta com mais de um milhão de adesões em uma semana.
Pensam que assim vão evitar que elas salvem as eleições desse ano. Mal sabem eles que elas já salvaram.

Quando você ia com a farinha, elas já tinham comido o pão, chapa. Fica moscando aí de boca aberta, posando de Macho Alfa pra ver o que sobra de você, bonitão!

Sartre, fascismo e as Eleições 2018

“O inferno são os outros”, disse Jean-Paul Sartre.

Na mentalidade fascista, dualista, é preciso que haja um “inimigo” a ser combatido. O mais clássico é o diabo, logicamente.

Na História já foram os judeus, os comunistas, os ciganos, etc.
Hoje é a “esquerda”, essa entidade imaginária que serve basicamente pras pessoas elegerem um “mal comum”, um satanás qualquer, e não assumirem a responsabilidade por sua própria sombra, seus próprios ódios, limitações, medo e mesquinhez. Fascismo tupiniquim tacanho e escroto que põe vidas em perigo e julga o caráter alheio sem empatia ou misericórdia, muitas vezes escondido atrás da religião que é supostamente misericordiosa por natureza, a de Yeshua Ben Yosef, Jesus Cristo. Aquele mesmo que perdoou um ladrão na cruz e ensinou a “amar seus inimigos e orar pelos que lhe caluniam”.

Dois mil e dezoito anos depois, muitos dos que dizem segui-lo fazem campanha para um candidato que declarou ser seu livro de cabeceira “A Verdade Sufocada”, de Brilhante Ulstra, torturador que prendia canos de PVC com ratos dentro ao corpo de suas vítimas e um lado fechado, pra que eles tentassem sair pelo outro lado roendo a vagina de mulheres “comunistas”, “subversivas” ou qualquer outro rótulo que tirasse sua humanidade e as transformassem no “inimigo”, o “diabo”. Seja lá qual for o deus que estimula, aceita ou corrobora com isso, dele eu quero apenas distância. Amém.

A Paralização dos Caminhoneiros

(texto originalmente postado no Facebook)

1 – É sempre bom lembrar que não faço questão da amizade forçada de ninguém. Se gosta de mim bem, se não gosta também. Vou na linha “seja uma boa pessoa, mas não perca tempo provando”. Se quiser sair, vou continuar tratando com respeito desde que me respeite.

2 – Os caminhoneiros estão do lado certo, lutando por uma causa justa. Isso é uma “faca de dois legumes”, como diria Vicente Matheus. Defender uma causa justa pressupõe a responsabilidade de manter uma conduta compatível com ela. Se sua pauta extrapola a reivindicação inicial e desanda pro conflito ideológico e violência por violência, tanto tal pauta já se perdeu quanto seu movimento ficou enfraquecido. A falação de merda no Facebook está em níveis estratosféricos. Só hoje eu já vi 3 intervenções militares, 5 golpes de Estado, algumas mortes a esmo e vários vídeos de anos atrás convocando para manifestações que já aconteceram há tempos. No seu exagero habitual, geral Brasil já elevou o conceito de “Fake News” a um novo patamar. Essa esquizofrenia toda confunde mais que ajuda e pior, desacredita o próprio movimento. Quando você vê nego chamando Rachel Sheherazade de “comunista” é porque o cérebro já foi desligado da fala faz tempo.

3 – “Esquerda”, “Direita” e “Centro” são conceitos, formas de se interpretar as relações sociais. Não são grupos, pessoas, lugares. Acusar um ou outro disso ou daquilo é um tiro no pé numa hora dessas, em que fica claro que se trata de o governo contra a população. Você consegue matar e prender pessoas, não ideias. Na verdade, muitas vezes acaba fortalecendo seu inimigo através de injustiça, quando qualquer pessoa vê que a realidade não corresponde às explicações dadas. O caso de Lula, encarcerado injustamente nesse exato instante apenas para não vencer a eleição de lavada é um ótimo exemplo. Aliás, não adianta você xingar minha mãe, bater sua cabeça na parede, tirar as calças e pisar em cima, cagar na mão e jogar nas pessoas etc. Sua raiva apenas demonstra sua falta de argumentos, sua intolerância é apenas pobreza de espírito. Sem contar que eu não estou nem um pouco preocupado com se alguém acha que sou comunista, viado, maconheiro, Opus Dei, macumbeiro, extraterrestre, hippie ou qualquer outra coisa que signifique o “não-eu”, que é basicamente a entidade necessária no imaginário das pessoas para poder atribuir a culpa do que dá errado em alguém e não assumir a própria responsabilidade. Sou o que sou e já era. Mudo de opinião constantemente e sem pudor algum, desde que faça sentido para mim naquele momento. Não tenho preguiça de pensar.

4 – O Facebook está parecendo comercial de Viagra. O que tem de velho brocha de farda falando besteira, querendo posar de “redentor da nação brasileira”, fazendo cara de mau dentro de uma farda velha cheirando a naftalina é uma coisa impressionante. A maioria deles nunca deu uma porra de um tiro pra valer na vida e vive de uma hierarquia carcomida de uma instituição incompetente (veja a guarda das fronteiras e a atuação deles agora no RJ , por exemplo) e frágil chamada Exército. Só estão inflamando ódio e confusão. Os militares não tem condições de cuidar de dois cachorros ao mesmo tempo, que dirá de um país inteiro. Chega a ser patético ver os tiozões lá, tudo de cabelo branco e suas panças enormes, posando de “Capitão América”. Ridículo, vergonha alheia. Lembra a sessão do impeachment tabajara de Dilma Rousseff, quando assistimos horrorizados ao festival de bizarrice que é a Câmara dos Deputados.

5 – A corrida aos postos atrás de gasolina é apenas a repetição de um padrão de comportamento típico desse país. A Globo anuncia o caos e geral corre pra rua, fica horas em filas intermináveis, sai na porrada animalescamente com quem atravessar seu caminho e vira não muito mais que um bicho acuado. Duas semanas depois, esquece tudo e volta a ser estuprado pelo governo. O exemplo mais recente é do tal surto de febre amarela, que fez um monte de gente passar o dia em filas quilométricas para tomar vacina e em seguida foi solenemente esquecido, como se nunca tivesse acontecido. Ou alguém lembra da última vez que ouviu falar do assunto? A falta de consistência, a ausência de uma conduta e o individualismo histórico do brasileiro típico são grandes problemas que temos.

6 – Comerciantes (de combustível, alimentos ou qualquer item de primeira necessidade) que se aproveitam do momento crítico para lucrar financeiramente são tão ou mais canalhas que os políticos desonestos. Adotam as mesmas práticas, têm a mesma ética de se aproveitar dos outros sem nem corar. Merecem o mesmo tratamento. Vai pedir “Brasil sem corrupção” pra lá, tiozão!

7 – Quem não aprende com as situações que a vida impõe está condenado a repetir o erro até aprender. Moral é de fora pra dentro. Ética é de dentro pra fora. Um filósofo importantíssimo já disse que “a História se repete. Primeiro como tragédia, depois como farsa.” Sim, ele. Aliás, várias de suas teorias se comprovam historicamente ano após ano, o que explica o fato de toda a propaganda e demonização contra ele surtirem zero efeito. Simplesmente porque ele sabia o que estava dizendo. Karl Marx, obviamente.

8 – A propósito: não sou comunista nem petista, mas sei que não sou melhor ou tenho mais direito do que quem é. Independentemente de matiz ideológica, respeito só se obtém quando se respeita o outro. Não deu, não vai receber. E ponto.

9 – Em 2013 os protestos começaram de forma legítima e desandaram por falta de uma pauta a seguir. Esse papo de “o povo brasileiro convoca” fica muito bonito na internet, mas só serve pra criar uma massa acéfala, amorfa e facilmente manipulável. Foi lá atrás que começou esse papo de “Coxinha x Mortadela”. Enquanto eu te chamo de um e você retruca me chamando do outro, os políticos sujos passam a mão nas nossas bundas sem distinção.

10 – Quem tem heroi é filme da Marvel. Caminhoneiro é caminhoneiro, professor é professor, político é político e o Palmeiras não tem mundial. #SomosTodosCaminhoneiros é muita gente, me inclua fora dessa. Cocaína, armas, contrabando em geral e prostituição infantil também chega tudo de caminhão. Apoio, louvo e incentivo a ação deles e estou à disposição para ajudar, mas nenhum deles é heroi meu poha nenhuma.

11 – Aja com o coração, mas leve o cérebro junto.

12 – Prefira “unfriend” a “unfollow”. Thank you very much indeed.

13 – “Hay gobierno? Soy contra!”, caso você não tenha entendido a foto que ilustra este post.

14 – Como diria o Sakamoto: “falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto”.

15 – Não quero que ninguém pense como eu. Quero apenas que as pessoas pensem.

bandeira-negra-anarquismo

Ou vai ou vai

Há uma frase atribuída a Rumi que diz que “à medida que você começa a andar no caminho, o caminho aparece”. Sempre gostei desta ideia, não sei se por acreditar na afirmação em si ou por seu otimismo. O fato é que, desde que comecei este blog, os pensamentos que me estimularam a fazê-lo paracem ter minguado, como se eu mesmo colocasse impedimentos ou censurasse o que tenho a dizer.

É estranho, porque em geral escrevia no Facebook e na maioria das vezes de uma vez só, em poucos minutos. Basicamente publicava um “textão” e só depois de um tempo exposto na timeline que me preocupava em saber se ele precisava de alguma edição, correção ortográfica e que tais. A própria razão de ter começado aqui foi ter muita coisa que eu gostaria de registrar e poucos recursos para fazê-lo. Era coisa que eu achava relevante que lá não caberia, era meio que óbvio migrar este tipo de texto para cá.

Acontece que a partir de então, me.veio aquele clássico bloqueio criativo. Não que eu seja particularmente talentoso para isso ou o que eu tenha a dizer seja algo importante, mas o próprio processo de escrever sobre qualquer coisa que seja se tornou um parto, um negócio difícil de verdade. Naturalmente, passei a investigar de onde isso vem.

Talvez tenha a ver com o fato de que se estar emocionalmente envolvido com algo faz com que as ideias fluam mais naturalmente. A forma como uso o Facebook já possibilita isso: sigo muitas agências de notícias de alguns países, diversas vertentes ideológicas e espirituais. Muitas vezes acompanho de perto algum político que não gosto justamente para ter mais base para combatê-lo. Além disso, tento driblar o tal “algoritmo do Facebook” que acaba meio que moldando a timeline das pessoas ao que elas querem ver e faz com que sua percepção dos fatos fique cada vez mais parecida com suas crenças e não o processo natural, que seria justamente o contrário: opiniões e convicções devem partir de uma análise que seja a mais completa possível do que acontece, a partir da qual posições e parcialidades tem mais fundamento e menos chance de ser apenas barulho, tentativa de chamar a atenção por si só. Então, naquela plataforma, era ler algo e postar em seguida, no calor do momento.

Aqui, pelo menos até agora, o processo é diferente. Eu já começo me impondo a obrigação: “preciso escrever algo no blog”. Não sei de onde surge essa imposição, mas ela é limitante. Ao por na cabeça que “preciso” escrever, qualquer ideia que surgiria naturalmente e poderia perfeitamente servir de entretenimento para quem gosta de ler e vem aqui por isso simplesmente desaparece, escapa igual água entre os dedos. Além de eu muitas vezes me meter a usar “tempo livre” para isso (leia-se quando não tenho algo melhor pra fazer, o que reduz o blog à pura encheção de linguiça, praticamente um “tricô mental”). Escrever é tempo ativo, não livre.

Um exemplo é este mesmo texto: comecei a escrevê-lo porque tive uma aula cancelada de última hora, pensei que seria uma boa forma de usar o tempo que ganhei até a próxima e me sentei com o computador para dizer algo. Já se foram alguns parágrafos, eu só enrolei até aqui e não disse coisa com coisa que prestasse. Pior que eu sei disso. Você que está aqui comigo agora provavelmente já notou que está chato, arrastado, vazio. Meus textos costumam ser mais nervosos, mais emocionados. Pelo lado bom, posso te dizer que você está acompanhando uma pessoa em uma busca sincera por inspiração, lutando dignamente contra seu cérebro embotado e preguiçoso, negligente de qualquer colaboração. A má notícia é que cada vez mais me convenço que tenho que estar muito puto, muito feliz ou muito magoado para escrever. Qualquer emoção serve, a falta delas é que não.

20180223_112702
Fui solenemente expulso da sala

Daí me veio à mente que uma coisa que me chama muito à atenção sobre se expressar criativamente é o fato de que sem raiva, tesão, amor, revolta, libido, inconformismo, inquietude, desilusão e outros sentimentos e emoções intensos, muito pouca coisa pode ser dita ou feita. Nietzsche dizia que “é preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Uma versão mais acessível é “porque ninguém começa uma história com ‘…outro dia eu estava tomando leite e…'”. O verbo vem da ira, o “causo” engraçado do bar vem do álcool. Faz todo o sentido.

Entendo que eu esteja em uma fase de transição (sempre estamos, mas algumas vezes ela fica mais nítida). Não mais bebo ou uso qualquer substância “estupefaciante”, passei a encarar a espiritualidade de uma forma mais intuitiva do que dogmática e muitos valores que defendi hoje me parecem pálidos, fracos, sem razão de ser. Metamorfose ambulante, salve Raulzito! Não que isso tenha me anestesiado emocionalmente ou brutalizado, pelo contrário: minha percepção está mais aguçada, minha saúde melhor e meu ego tem sido cada vez mais fácil de educar. Apenas acho que ainda tenho que aprender mais sobre quais estímulos valem a pena seguir e quais não, quanto barulho estou disposto a manipular e quanto do meu próprio nonsense eu já tenho consciência.

Essa zona nebulosa faz com que, ao mesmo tempo em que goste que as pessoas venham ler meus textos pelo simples prazer que elas têm nisso, eu sinta que escrever só para dar satisfação é um negócio meio pedante, meio babaca. Só pra dizer que tem um blog com um número “x” de textos, “y” de visitas e “z” de elogios. Vários amig@s dizem que gostam do que escrevo, mas saber usar as palavras é completamente inútil quando não se tem o que dizer. Gosto de ao menos ter a ilusão de que meus textos são relevantes para alguém, de alguma forma. Nesses termos, não consigo sentir isso.

Este texto que você está lendo não é nada além de um esforço em sair da inércia, “por o blog para andar”, buscar inspiração lá no fundo do cérebro e acreditar na máxima do primeiro parágrafo: …o caminho aparece”. Não apareceu até aqui, mas no próximo texto a gente vê o que dá, continuo acreditando.

Por hora, vai ficar mais na intenção do “exorcismo” mesmo, de sacudir a poeira deste blog, de voltar aqui. Sabe no futebol, quando o atacante fica um tempo sem marcar e depois mete um gol de canela, todo feio, mas que serve pra “tirar a zica”? Então, este texto é isso. Que desbloqueie, solte, flua, ande. Assim é.

“Não importa o quanto você vá devagar desde que não pare.” – Confúcio