A Paralização dos Caminhoneiros

(texto originalmente postado no Facebook)

1 – É sempre bom lembrar que não faço questão da amizade forçada de ninguém. Se gosta de mim bem, se não gosta também. Vou na linha “seja uma boa pessoa, mas não perca tempo provando”. Se quiser sair, vou continuar tratando com respeito desde que me respeite.

2 – Os caminhoneiros estão do lado certo, lutando por uma causa justa. Isso é uma “faca de dois legumes”, como diria Vicente Matheus. Defender uma causa justa pressupõe a responsabilidade de manter uma conduta compatível com ela. Se sua pauta extrapola a reivindicação inicial e desanda pro conflito ideológico e violência por violência, tanto tal pauta já se perdeu quanto seu movimento ficou enfraquecido. A falação de merda no Facebook está em níveis estratosféricos. Só hoje eu já vi 3 intervenções militares, 5 golpes de Estado, algumas mortes a esmo e vários vídeos de anos atrás convocando para manifestações que já aconteceram há tempos. No seu exagero habitual, geral Brasil já elevou o conceito de “Fake News” a um novo patamar. Essa esquizofrenia toda confunde mais que ajuda e pior, desacredita o próprio movimento. Quando você vê nego chamando Rachel Sheherazade de “comunista” é porque o cérebro já foi desligado da fala faz tempo.

3 – “Esquerda”, “Direita” e “Centro” são conceitos, formas de se interpretar as relações sociais. Não são grupos, pessoas, lugares. Acusar um ou outro disso ou daquilo é um tiro no pé numa hora dessas, em que fica claro que se trata de o governo contra a população. Você consegue matar e prender pessoas, não ideias. Na verdade, muitas vezes acaba fortalecendo seu inimigo através de injustiça, quando qualquer pessoa vê que a realidade não corresponde às explicações dadas. O caso de Lula, encarcerado injustamente nesse exato instante apenas para não vencer a eleição de lavada é um ótimo exemplo. Aliás, não adianta você xingar minha mãe, bater sua cabeça na parede, tirar as calças e pisar em cima, cagar na mão e jogar nas pessoas etc. Sua raiva apenas demonstra sua falta de argumentos, sua intolerância é apenas pobreza de espírito. Sem contar que eu não estou nem um pouco preocupado com se alguém acha que sou comunista, viado, maconheiro, Opus Dei, macumbeiro, extraterrestre, hippie ou qualquer outra coisa que signifique o “não-eu”, que é basicamente a entidade necessária no imaginário das pessoas para poder atribuir a culpa do que dá errado em alguém e não assumir a própria responsabilidade. Sou o que sou e já era. Mudo de opinião constantemente e sem pudor algum, desde que faça sentido para mim naquele momento. Não tenho preguiça de pensar.

4 – O Facebook está parecendo comercial de Viagra. O que tem de velho brocha de farda falando besteira, querendo posar de “redentor da nação brasileira”, fazendo cara de mau dentro de uma farda velha cheirando a naftalina é uma coisa impressionante. A maioria deles nunca deu uma porra de um tiro pra valer na vida e vive de uma hierarquia carcomida de uma instituição incompetente (veja a guarda das fronteiras e a atuação deles agora no RJ , por exemplo) e frágil chamada Exército. Só estão inflamando ódio e confusão. Os militares não tem condições de cuidar de dois cachorros ao mesmo tempo, que dirá de um país inteiro. Chega a ser patético ver os tiozões lá, tudo de cabelo branco e suas panças enormes, posando de “Capitão América”. Ridículo, vergonha alheia. Lembra a sessão do impeachment tabajara de Dilma Rousseff, quando assistimos horrorizados ao festival de bizarrice que é a Câmara dos Deputados.

5 – A corrida aos postos atrás de gasolina é apenas a repetição de um padrão de comportamento típico desse país. A Globo anuncia o caos e geral corre pra rua, fica horas em filas intermináveis, sai na porrada animalescamente com quem atravessar seu caminho e vira não muito mais que um bicho acuado. Duas semanas depois, esquece tudo e volta a ser estuprado pelo governo. O exemplo mais recente é do tal surto de febre amarela, que fez um monte de gente passar o dia em filas quilométricas para tomar vacina e em seguida foi solenemente esquecido, como se nunca tivesse acontecido. Ou alguém lembra da última vez que ouviu falar do assunto? A falta de consistência, a ausência de uma conduta e o individualismo histórico do brasileiro típico são grandes problemas que temos.

6 – Comerciantes (de combustível, alimentos ou qualquer item de primeira necessidade) que se aproveitam do momento crítico para lucrar financeiramente são tão ou mais canalhas que os políticos desonestos. Adotam as mesmas práticas, têm a mesma ética de se aproveitar dos outros sem nem corar. Merecem o mesmo tratamento. Vai pedir “Brasil sem corrupção” pra lá, tiozão!

7 – Quem não aprende com as situações que a vida impõe está condenado a repetir o erro até aprender. Moral é de fora pra dentro. Ética é de dentro pra fora. Um filósofo importantíssimo já disse que “a História se repete. Primeiro como tragédia, depois como farsa.” Sim, ele. Aliás, várias de suas teorias se comprovam historicamente ano após ano, o que explica o fato de toda a propaganda e demonização contra ele surtirem zero efeito. Simplesmente porque ele sabia o que estava dizendo. Karl Marx, obviamente.

8 – A propósito: não sou comunista nem petista, mas sei que não sou melhor ou tenho mais direito do que quem é. Independentemente de matiz ideológica, respeito só se obtém quando se respeita o outro. Não deu, não vai receber. E ponto.

9 – Em 2013 os protestos começaram de forma legítima e desandaram por falta de uma pauta a seguir. Esse papo de “o povo brasileiro convoca” fica muito bonito na internet, mas só serve pra criar uma massa acéfala, amorfa e facilmente manipulável. Foi lá atrás que começou esse papo de “Coxinha x Mortadela”. Enquanto eu te chamo de um e você retruca me chamando do outro, os políticos sujos passam a mão nas nossas bundas sem distinção.

10 – Quem tem heroi é filme da Marvel. Caminhoneiro é caminhoneiro, professor é professor, político é político e o Palmeiras não tem mundial. #SomosTodosCaminhoneiros é muita gente, me inclua fora dessa. Cocaína, armas, contrabando em geral e prostituição infantil também chega tudo de caminhão. Apoio, louvo e incentivo a ação deles e estou à disposição para ajudar, mas nenhum deles é heroi meu poha nenhuma.

11 – Aja com o coração, mas leve o cérebro junto.

12 – Prefira “unfriend” a “unfollow”. Thank you very much indeed.

13 – “Hay gobierno? Soy contra!”, caso você não tenha entendido a foto que ilustra este post.

14 – Como diria o Sakamoto: “falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto”.

15 – Não quero que ninguém pense como eu. Quero apenas que as pessoas pensem.

bandeira-negra-anarquismo

Ou vai ou vai

Há uma frase atribuída a Rumi que diz que “à medida que você começa a andar no caminho, o caminho aparece”. Sempre gostei desta ideia, não sei se por acreditar na afirmação em si ou por seu otimismo. O fato é que, desde que comecei este blog, os pensamentos que me estimularam a fazê-lo paracem ter minguado, como se eu mesmo colocasse impedimentos ou censurasse o que tenho a dizer.

É estranho, porque em geral escrevia no Facebook e na maioria das vezes de uma vez só, em poucos minutos. Basicamente publicava um “textão” e só depois de um tempo exposto na timeline que me preocupava em saber se ele precisava de alguma edição, correção ortográfica e que tais. A própria razão de ter começado aqui foi ter muita coisa que eu gostaria de registrar e poucos recursos para fazê-lo. Era coisa que eu achava relevante que lá não caberia, era meio que óbvio migrar este tipo de texto para cá.

Acontece que a partir de então, me.veio aquele clássico bloqueio criativo. Não que eu seja particularmente talentoso para isso ou o que eu tenha a dizer seja algo importante, mas o próprio processo de escrever sobre qualquer coisa que seja se tornou um parto, um negócio difícil de verdade. Naturalmente, passei a investigar de onde isso vem.

Talvez tenha a ver com o fato de que se estar emocionalmente envolvido com algo faz com que as ideias fluam mais naturalmente. A forma como uso o Facebook já possibilita isso: sigo muitas agências de notícias de alguns países, diversas vertentes ideológicas e espirituais. Muitas vezes acompanho de perto algum político que não gosto justamente para ter mais base para combatê-lo. Além disso, tento driblar o tal “algoritmo do Facebook” que acaba meio que moldando a timeline das pessoas ao que elas querem ver e faz com que sua percepção dos fatos fique cada vez mais parecida com suas crenças e não o processo natural, que seria justamente o contrário: opiniões e convicções devem partir de uma análise que seja a mais completa possível do que acontece, a partir da qual posições e parcialidades tem mais fundamento e menos chance de ser apenas barulho, tentativa de chamar a atenção por si só. Então, naquela plataforma, era ler algo e postar em seguida, no calor do momento.

Aqui, pelo menos até agora, o processo é diferente. Eu já começo me impondo a obrigação: “preciso escrever algo no blog”. Não sei de onde surge essa imposição, mas ela é limitante. Ao por na cabeça que “preciso” escrever, qualquer ideia que surgiria naturalmente e poderia perfeitamente servir de entretenimento para quem gosta de ler e vem aqui por isso simplesmente desaparece, escapa igual água entre os dedos. Além de eu muitas vezes me meter a usar “tempo livre” para isso (leia-se quando não tenho algo melhor pra fazer, o que reduz o blog à pura encheção de linguiça, praticamente um “tricô mental”). Escrever é tempo ativo, não livre.

Um exemplo é este mesmo texto: comecei a escrevê-lo porque tive uma aula cancelada de última hora, pensei que seria uma boa forma de usar o tempo que ganhei até a próxima e me sentei com o computador para dizer algo. Já se foram alguns parágrafos, eu só enrolei até aqui e não disse coisa com coisa que prestasse. Pior que eu sei disso. Você que está aqui comigo agora provavelmente já notou que está chato, arrastado, vazio. Meus textos costumam ser mais nervosos, mais emocionados. Pelo lado bom, posso te dizer que você está acompanhando uma pessoa em uma busca sincera por inspiração, lutando dignamente contra seu cérebro embotado e preguiçoso, negligente de qualquer colaboração. A má notícia é que cada vez mais me convenço que tenho que estar muito puto, muito feliz ou muito magoado para escrever. Qualquer emoção serve, a falta delas é que não.

20180223_112702
Fui solenemente expulso da sala

Daí me veio à mente que uma coisa que me chama muito à atenção sobre se expressar criativamente é o fato de que sem raiva, tesão, amor, revolta, libido, inconformismo, inquietude, desilusão e outros sentimentos e emoções intensos, muito pouca coisa pode ser dita ou feita. Nietzsche dizia que “é preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Uma versão mais acessível é “porque ninguém começa uma história com ‘…outro dia eu estava tomando leite e…'”. O verbo vem da ira, o “causo” engraçado do bar vem do álcool. Faz todo o sentido.

Entendo que eu esteja em uma fase de transição (sempre estamos, mas algumas vezes ela fica mais nítida). Não mais bebo ou uso qualquer substância “estupefaciante”, passei a encarar a espiritualidade de uma forma mais intuitiva do que dogmática e muitos valores que defendi hoje me parecem pálidos, fracos, sem razão de ser. Metamorfose ambulante, salve Raulzito! Não que isso tenha me anestesiado emocionalmente ou brutalizado, pelo contrário: minha percepção está mais aguçada, minha saúde melhor e meu ego tem sido cada vez mais fácil de educar. Apenas acho que ainda tenho que aprender mais sobre quais estímulos valem a pena seguir e quais não, quanto barulho estou disposto a manipular e quanto do meu próprio nonsense eu já tenho consciência.

Essa zona nebulosa faz com que, ao mesmo tempo em que goste que as pessoas venham ler meus textos pelo simples prazer que elas têm nisso, eu sinta que escrever só para dar satisfação é um negócio meio pedante, meio babaca. Só pra dizer que tem um blog com um número “x” de textos, “y” de visitas e “z” de elogios. Vários amig@s dizem que gostam do que escrevo, mas saber usar as palavras é completamente inútil quando não se tem o que dizer. Gosto de ao menos ter a ilusão de que meus textos são relevantes para alguém, de alguma forma. Nesses termos, não consigo sentir isso.

Este texto que você está lendo não é nada além de um esforço em sair da inércia, “por o blog para andar”, buscar inspiração lá no fundo do cérebro e acreditar na máxima do primeiro parágrafo: …o caminho aparece”. Não apareceu até aqui, mas no próximo texto a gente vê o que dá, continuo acreditando.

Por hora, vai ficar mais na intenção do “exorcismo” mesmo, de sacudir a poeira deste blog, de voltar aqui. Sabe no futebol, quando o atacante fica um tempo sem marcar e depois mete um gol de canela, todo feio, mas que serve pra “tirar a zica”? Então, este texto é isso. Que desbloqueie, solte, flua, ande. Assim é.

“Não importa o quanto você vá devagar desde que não pare.” – Confúcio

A Segunda Flecha

Sou leitor, sempre fui. Literatura em geral: ficção, biografias, política, contos, História, crônicas, poesia, filosofia, religiões. Dentre os vários tipos de leitura disponíveis, percebo que existe um certo preconceito contra livros de autoajuda, como se eles representassem um conhecimento inferior, superficial. Discordo totalmente. Verdade que há livros nessa área que são realmente infantis e irrealistas, doutrinando pessoas a partir de casos isolados e colocando todo mundo no mesmo saco, como se uma fórmula preconcebida pudesse ser aplicada de forma igual para pessoas diferentes. Ainda assim, há muito material útil e relevante de autoajuda que vale muito a pena explorar. Cada caso é um caso, cada cabeça é uma sentença e “o vinho de um homem é o veneno de outro”. Foi de um livro de auto ajuda que tirei inspiração para este texto, depois de um tempo sem escrever coisa alguma por aqui. Seu nome é “O Cérebro de Buda“, dos neurocientistas estadunidenses Rick Hanson e Richard Mendius. O livro mostra como as emoções, sentimentos e variações de humor usam processos químicos do corpo e estruturas neuronais para acontecer e como podemos intervir conscientemente nesse processo. É muito interessante e requer atenção plena do leitor o tempo todo. Recomendo.

É fácil constatar que as relações sociais dependem em grande parte de sistemática hipocrisia e falsidade. São cola social. E digo isso não para agredir alguém gratuitamente, mas como uma constatação óbvia. É algo ancestral, primal mesmo. Vem provavelmente da necessidade do convívio comunitário, no qual as atitudes corretas para cada tipo de interação rendem favores ou vetos, acessos ou negativas, prazeres ou privações. Está no DNA humano, na categoria “instinto de sobrevivência”. Atitudes hipócritas possibilitam a vida em sociedade, em geral cobrando o preço na forma de “sapos” engolidos, relações deterioradas e rancores guardados no porão do subconsciente. Fígado carregado, raiva contida, bomba-relógio. A hipocrisia é um paradoxo, porque o que ela busca mascarar também é falso: o ego.

Até aí nada contra ser hipócrita, eu também não sou flor que se cheire tampouco faço questão que me sigam ou deem atenção ao que digo. Fabrico a verdade que me convém sempre que posso, igualzinho a você. Apenas não tenho problema algum em admitir essas “falhas”. Não espero ser perfeito, modelo de comportamento ou mestre de seja lá o que for. Apenas procuro tratar a todos com respeito e pelo menos não atrapalhar. Também busco aprender e não repetir sempre os mesmos erros. Não nutro pensamentos destrutivos com relação a ninguém, espero que as pessoas tenham paz e saúde irrestritamente. Entendo que o maior inimigo que eu jamais possa ter seja eu mesmo, assim como sou também o único que pode enfrentá-lo. Não porque sou esquizofrênico e ouço vozes na mente sem saber de quem são, mas por perceber que há dois aspectos principais que governam as ações do ser humano. Um é flutuante, influenciável, dinâmico e instável. É a própria mente em si, que trabalha para o que na definição clássica que vem desde os Vedas se conhece como o “falso eu” e que mais tarde viria a ser chamado de ego. Não o Freudiano, da psicanálise. O termo é o mesmo, o conceito não. O outro aspecto é o ser que observa a mente funcionar. Esta é a verdadeira fonte, o observador. Chame de espírito se entender melhor assim.

O ego nesse prisma é a imagem que criamos de nós mesmo e da importância que temos. É um “eu” social, imaginário, teatral até. Há um esforço em mantê-lo, como quando a gente deixa de fazer algo que poderia ser proveitoso ou interessante porque “somos assim mesmo”. “Ah, você sabe como o Matheus é, né? Místico.”
Na defesa muitas vezes automática desse ego, agimos como se fôssemos a sensação que algo nos causa, a experiência pela qual passamos. Inevitavelmente sofremos com isso, atiramos em nós mesmos a “segunda flecha”.

Siddhartha Gautama, o Buda histórico, ensinava sobre a “segunda flecha”. Entendo ser um dos pontos centrais da filosofia de vida que é a prática budista. Embora hoje em dia seja popular no Ocidente, o Budismo é um tanto mal compreendido quando se relaciona com a ideia de religião, que da forma como é entendida no contexto cristão, judaico ou islâmico se parece muito pouco com as práticas orientais como o Hinduísmo, Taoísmo, com ele próprio e outras tradições. Estas funcionam mais como formas milenares de administrar o convívio em sociedade e ensinar pessoas a desempenhar tarefas do dia a dia desde tempos ancestrais em que não se tinha acesso à educação formal, a tecnologia era incipiente e a transmissão de conhecimento se dava pela tradição, por metáforas e histórias de divindades que representavam por arquétipos os elementos da natureza. Chamar a isso de “religião” é uma simplificação frágil que atrapalha o próprio entendimento da coisa.
Na prática, o que acontece é que pessoas que tendem a ser mais “conservadoras” e fundamentalistas nesse aspecto costumam rejeitar os ensinamentos dessas “escolas” por ignorância (sempre ela), pelo receio de estar “servindo a outro deus” (!!). Pouco importa se no caso de Gautama trata-se de um homem que viveu oitenta anos, passou metade da vida ensinando técnicas de administrar a mente que descobriu meditando sozinho, nunca se preocupou em mostrar a alguém como chegar a deus, não operou milagres ou usou poderes sobrenaturais e apenas ensinou seus seguidores a conhecer a si mesmos. Ele morreu de diarreia. Nunca ouvi falar de uma divindade que tenha sequer morrido, que dirá dessa forma. De todo modo, já ouvi coisas como “não troco meu Jesus”, “não me curvo ao Buda” e outras manifestações pouco simpáticas e nada racionais. Enfim, mesmo com todos os narizes torcidos e desconforto que isso causa em quem gosta mais de apontar o dedo e fazer Fla-Flu de divindades e/ou mestres do que de pensar e segui-los, sinto que é relevante falar sobre o assunto para as pessoas que vêm aqui ler meus textos (que eu sei que andam escassos, mas isso também vai passar). Tem sido para mim, talvez tenha alguma utilidade para quem se permitir aplicar.

É assim: imagine que você esteja em uma fila há uma hora. Há uma ameaça de febre amarela no ar, a TV não para de mostrar postos de saúde apinhados de gente sob o sol sahariano. Nem precisa comentar o stress. Bicho feio. Eis que um bonitão qualquer chega ao local cheio de si, pique “holandês” (Van Sie Phúder) e, ignorando completamente quem chegou antes dele, se infiltra no meio dos que esperam, bem à sua frente. É uma agressão desrespeitosa e rude, uma violência. Dói como uma flechada na sua carne. Ato contínuo seu rosto se enfurece, a adrenalina sobe, as palavras ficam ásperas e emocionadas e é certo: dependendo do seu estado emocional e das circunstâncias, pode haver desde uma discussão leve e troca de desaforos até as vias de fato. Tiro, porrada e bomba. A reação à violência sofrida é o que o Buda chamava de “segunda flecha”. Esta é atirada por nós mesmos, geralmente porque nosso ego foi atingido por algum agente externo e somos condicionados a defendê-lo pela mente, que é quem assume o comando e dita a resposta ao ataque sofrido. Acontece que não somos nossas mentes, lembra? Por isso que muitas decisões, reações e atitudes que parecem perfeitamente razoáveis na hora do conflito, do “choque”, geram arrependimento depois que a coisa esfria. Ao sair da mente condicionada e analisar a situação “de fora”, percebemos muitas vezes o quanto nossa atitude foi inadequada. O problema é que a constatação do erro por si só não é suficiente para que aprendamos para um próximo “teste”, porque o ego entra novamente em cena dizendo “é, eu sou assim mesmo e quem gostou, gostou. Quem não gostou, azar”. Mesmo admitindo a falha para nós mesmos, não nos redimimos dela porque precisamos defender a nossa fama de mau, reputação, gênio ou outro nome que se queira dar para o ego, esse safadinho. É um comportamento basicamente infantil e não precisa nem comentar quantas crianças de meia-idade ou mesmo idosas que existem por aí.

O cara que furou a fila não o fez para te ofender pessoalmente. Entrou porque não se importa com os outros ou porque é um Joselito mesmo, um “moscão”. Tá cheio deles por aí. Inconscientes, no automático. Entrou na fila em que você estava como entraria em qualquer outra, em qualquer outro lugar. O problema é com ele, não com você. Ao levar para o pessoal, nos preocupamos mais com a ofensa em si do que com o que ela representa na prática: alguma discussão sobre ser justo e pontual que levaria à solução do problema rapidamente (e o mosca-de-boi em questão para seu lugar de direito, o final da fila).

O ponto central do ensinamento budista consiste em educar a mente. A alegoria da segunda flecha é uma forma simples de explicar como isso pode ser feito e as situações em que pode ser aplicada são inúmeras, acontecem o tempo todo. Até ao ler este mesmo texto, você pode escolher duas maneiras de reagir. Uma delas é desacreditar do que leu, afinal que autoridade eu tenho pra versar sobre isso? Quem eu penso que sou? Só porque eu acendo uns incensos, medito à minha maneira e uso umas camisetas psicodélicas já estou me achando o guru, o Iluminado, um Bodhisatvva?
Ou então você pode escolher o caminho do observador desprovido de ego, aquele que realmente sente que a existência tem um certo funcionamento e que é baseado nele que as coisas fazem sentido ou não, independentemente de onde vêm. Se um fruto está estragado, as sementes dentro dele ainda podem ser aproveitadas. Mesmo eu sendo insignificante e desprovido de autoridade e conhecimento, ainda assim posso ter alguma coisa de útil para passar. Ao que aprende, é indispensável ter humildade. Assim como ao que ensina. Perdi a conta de quanta sabedoria eu já pude perceber em gente simples, despretensiosa, daqueles de quem se diz que “não se dá nada”. Se for analisar friamente, na maioria das vezes em que senti ter aprendido algo, foi desse tipo de conhecimento que me aproveitei.

Então eu vou usar o fato de que você já veio até aqui para te dizer: preste atenção no mecanismo de “segunda flecha”. Aquele sujeito que sabe quais cordas tocar para te fazer sair do sério usa sempre as mesmas armas porque sabe que não falha, apertando os botões certos o resultado é sempre o mesmo. Arrasta você para o tipo de emoção que sabe manejar melhor, entra na sua mente e vence o conflito psicológico, mesmo que sua vitória seja ser ofendido ou agredido para depois poder posar de vítima e começar novamente o ciclo insano de jogos mentais. Samsara. Você já deve ter convivido com gente que “tem um problema para cada solução“. Pois é, eu também.
Quando se condiciona a não reagir impulsivamente e se aprende aos poucos a relativizar os “ataques” que sofremos, gradativamente vamos aprendendo a escolher em quais discussões vale a pena entrar, quais vão dar sempre no mesmo lugar e quais são tão sem sentido que não deveriam sequer existir. Diminui-se bastante o fardo a carregar, a existência se torna mais leve. Pelo menos é assim que tem funcionado para mim. Há no Zen (corrente espiritual que consiste basicamente em meditação, muito ligada ao Budismo) a máxima “se encontrar o Buda pelo caminho, mate-o”. Significa que nenhum ensinamento deve ser levado em consideração se não passar pelo crivo da experiência pessoal, ou seja: por mais que se use palavras bonitas, metáforas precisas e linguagem agradável, se o conceito não puder ser aplicado nas situações reais da vida, não tem utilidade alguma. São só palavras, barulho, desperdício. Não valem nem de longe um bom silêncio.

A segunda flecha está no acordar atrasado, por exemplo. Perdeu a hora, vai chegar depois dos demais ou não vai chegar de forma alguma. Então começa a angústia, ansiedade e correria. “Vou perder o emprego”. “Vou levar bronca”. “Vai ficar chato”. Mesmo que as três coisas venham a acontecer, naquele momento você apenas está atrasado e nenhum pensamento que tenha vai fazer o relógio voltar. A única coisa que pode ser feita é diminuir o atraso no que puder ou reprogramar a ação. Sofrer é segunda flecha, só aumenta a dor. Eu chamo isso de “agir igual ao Waze”. Quando uma rota é traçada e você não obedece, o aplicativo simplesmente recalcula o que deve ser feito. Ele não vira pra você e fala “Puta que o pariu, e agora? Você pegou o caminho errado! Fodeu! Vai dar merda! Por que fez isso?”. O objetivo é alcançar uma “mente Waze”, digamos.
Outro exemplo: você se dirige educadamente ao policial que trabalhava na segregação de uma rua para um evento e pergunta a ele do que se trata. O homem nem olha na sua cara e te responde com casca e tudo: “Manifestação. E você circulando, circulando, vai!”. Precisa falar assim? Não, mas agora é tarde. É nas ações e palavras dele que está o erro, não no fato de ter sido com você. E ainda que tenha sido pessoal, o juízo que ele fez continua a ser dele e tem zero relação com a realidade dos fatos.

Para concluir, cito os quatro estágios em que se aprende a lidar com a segunda flecha:
– Inconsciência inconsciente: o cara no trânsito comete uma barbeiragem e te fecha com o carro em alta velocidade. Automaticamente você xinga, buzina, mostra o dedo do meio e quase rasga a roupa de raiva. Fica uns dez minutos remoendo a situação e amaldiçoando até a quinta geração de descendentes do infeliz.
– Inconsciência consciente: a mesma situação no trânsito e a mesma reação de raiva e palavrões em alto e bom som, só que dessa vez sabendo que é uma reação nociva e parte do problema. Dá vergonha depois que passa a fase de inconsciência, de fúria.
– Consciência consciente: fechada e barbeiragem do mesmo jeito. Reação de controle da raiva e do ímpeto de jogar o extintor de incêndio no carro do vivente que fez a merda, porque eu sei que essa reação é a mais sensata. Meu corpo não foi arrastado pela minha mente porque eu não permiti. Estou sereno e escolho os pensamentos que quero preservar e os que quero descartar.
– Consciência consciente: a resposta de não agressão (que é não disparar a segunda flecha) acontece automaticamente, assim como acontecia a inconsciência e acesso de raiva da primeira fase. Aí já é estágio avançado, requer treino e repetição. Há recaídas, retomadas e níveis de consciência. Mas vale muito a pena. No mínimo se evita muito coração amargurado, atitudes impensadas, perda de saúde mental e física e conflitos vazios e sem sentido. Barulho apenas. O barulho tem inveja do silêncio porque não consegue os mesmos resultados que ele, não caminha na mesma direção, não tem a mesma importância. As respostas estão no que não é dito. Todo o barulho se rende a ele no final, sempre. Trazendo o silêncio para o cotidiano, ele se impõe pela própria força.

Detalhe importante: você não precisa abrir mão de nenhuma crença, religião ou dogma pra adotar esse tipo de raciocínio. É um treinamento mental apenas. Pode continuar praticando sua fé tranquilamente que ninguém vai te mandar para o inferno. Aliás, ele também é escolha e atende pelo nome de ignorância. De mais a mais, se estivesse tão seguro de sua espiritualidade, será que alguém ficaria patrulhando a dos outros? Não sei, acho que não. Se você está bem resolvido, não precisa ficar procurando incoerência na crença alheia. Fé não é de convencer ou impor, é de sentir. E é preciso agir a partir disso.

Que as flechadas venham de fora, não de nós mesmos. Cada um dá o que tem.

Natal, coisa e Tao

Mais um Natal vem aí. Por mais que às vezes eu me sinta meio party pooper por ter o costume de ficar procurando a origem das coisas (o “pé da fita” como se diz na quebrada), também é uma coisa que eu gosto muito de fazer, um hobby mesmo. Uma pegada meio historiador amador ocultista questionador subversivo chatolino TDAH hippie punk Rajneesh. Nessa, se tenho um blog pra escrever coisas, não seria o Natal a ficar de fora. Logo ele, provavelmente o evento mais importante da chamada Civilização Ocidental.

Jingle Bells. Sistema Natal in full swing. É um negócio tão enraizado no inconsciente coletivo que muito pouca gente se dá conta do fato de que tem feito em média 37° C em São Paulo por esses dias enquanto dá-lhe decoração de neve e snowman e Papai Noel e rena e o escambau. Todo mundo no rush automático de final de ano, metade reclamando que “passou rápido” e outra metade de 2018 “que não chega logo”, enquanto as luzes piscam, coloridas. Em ambos os casos a mente querendo o passado e o futuro e não o presente, único tempo em que as coisas acontecem. Ansiedade é o mal do milênio.

É relativamente conhecida a ideia de que a História é escrita pelo vencedor, o que significa que as versões dela adotadas oficialmente por países, povos e culturas têm bem mais a ver com os interesses de quem dita as regras naquele contexto do que com a realidade dos fatos propriamente dita. É muito mais difícil emprestar glamour e nobreza (conceitos tão abstratos quanto vazios) às rotinas entediantes da vida, à burocracia, afinal. Bem melhor colocar uma trilha sonora e um cenário, heróis e vilões, bem e mal, Superman versus Lex Luthor.

Legal, mas onde essa filosofia de boteco se aplica ao Natal, meu querido? Menos beating about the bush e mais Merry Christmas.

Então tá. Você tem uma árvore de Natal em casa? Eu não tenho, minha gata Gilda não gosta. Ou gosta demais para deixar uma delas inteira. Mesmo a árvore pequena que tínhamos na sala foi atacada furiosamente. Vira e mexe estava caída no chão ou havia várias bolinhas e enfeites mastigados e espalhados pela casa que acabavam pisoteados, chutados e jogados no lixo. Desistimos. Se você consegue ter uma, parabéns. Faça bom proveito.

Que mané “árvore”, porra nenhuma…

As origens da árvore como símbolo do Natal provavelmente têm a ver com o rigor do inverno em algumas regiões do Hemisfério Norte. Folhas verdes que duravam bastante tempo eram uma espécie de amuleto para alguns povos antigos, uma lembrança do poder do primeiro elemento da natureza a ser tido como um deus: o Sol ( leia em negrito abaixo na parte “digressão”).

As árvores dentro de casa durante o período mais frio do ano espantavam os maus espíritos pois eram um resquício da existência dessa divindade que as fazia existir e erguer-se do chão em direção aos céus. Outros povos consideravam as próprias árvores seres divinos. Uma cultura foi influenciando e incorporando elementos de outra até chegar na cristandade, quando tal crença foi de início combatida e por fim absorvida no melhor estilo “se não pode vencê-los junte-se a eles” que a Igreja Católica costuma adotar caso não consiga impor sua vontade integralmente. No caso, tipo “fala que o formato tem a ver com a ‘Santíssima Trindade’ que cola”. Política é a arte do possível e lá está seu pinheirinho de “prástico” piscando na sala até hoje, com algumas lâmpadas queimadas e uns enfeites meio tortos, capengas. Ficou uma bosta, aliás. Você também tem gato?

E o nosso querido Papai Noel, velho batuta? Originalmente uma mistura de São Nicolau (o termo foi sendo corrompido de Saint Nicholas até chegar em Santa Claus) e o deus germânico Odin, é o capitalismo de roupa vermelha e barba branca. Sua existência baseia-se em uma troca: bom comportamento por um presente, um regalito para ti. Criança pobre não adianta se comportar porque nem assim tem axé, criança rica recebe sua parte no trato de qualquer maneira. Nem precisa entrar no mérito da coisa.
Ainda assim o Papai Noel já fez parte do meu imaginário infantil e gosto do personagem. Particularmente do cara que se caracteriza como tal para ir a eventos com crianças pela brincadeira em si, pelo prazer de ser aquele ícone, aquele avatar. Acho bonito de verdade, principalmente se for um Noel daqueles bem toscos, vestido nuns TNT vermelhos e barba de algodão meio que descolando, suando em bicas no meio da criançada histérica (e em êxtase!). Um sujeito desses vai pro céu direto, sem escalas. Meu heroi. Já o da Coca-Cola eu não gosto. Nem de Coca-Cola eu gosto. Beba Coca-Cola.

black-santa-640x445
“-Ah, mas Papai Noel preto não existe!”

E tem ainda Jesus no Natal. A dimensão mística, espiritual do evento. Yeshua Ben Yossef e depois Yeshua Hamashia, o Cristo. Senhor e salvador dos cristãos de todas as confissões, origens e denominações. O Verbo Encarnado. O Filho do Homem. Leão Conquistador da Tribo de Judá. Cordeiro de Deus. No Ocidente estamos no final do ano 2017, contados a partir do seu nascimento. Não acho que precise de mais apresentações para você saber de quem estou falando. Não há nenhum registro histórico que ligue o Natal ao nascimento de Jesus, como há muito pouco registro histórico da própria existência de Jesus em si. Além disso as passagens da bíblia muitas vezes são metáforas, alegorias. Outras são inspiradas em textos antigos como a Epopeia de Gilgamesh. Está tudo aí. Quem busca, acha. Ao que bate, abrir-se-lhe-á.

Também se confunde tradição e cultura de um lugar onde a crença evoluiu com cânone religioso, dogma. Você não encontra bíblia alguma que mencione Melchior, Balthazar e Gaspar ou que diga quantos eram os “magos do Oriente” que foram estar com Jesus. No entanto, todos sabem sobre os Três Reis Magos e eles têm um dia no calendário católico, seis de janeiro. O fato é que afirmar que Yeshua Jesus nasceu naquele dia tem 1/365 chances de estar certo e foi inserido artificialmente em um contexto que já existia, o do Sol Invictus (depois copiado pelos césares), que tinha a ver com o solstício de inverno e os três dias em que o sol ficava “parado” ou “morto” no céu até começar a “voltar”, ou “ressuscitar”. Havia um culto ao deus persa Mitra associado a isso. Os romanos passaram a atrelar a tradição existente a Jesus no ano 354 da Era Cristã. Incorporaram a celebração e deram a ela novo contexto e sentido.

Sol Invictus
Sol Invictus, pique Coringão

Eu posso dizer de mim que sou cristão, no sentido de procurar absorver e praticar os ensinamentos de Jesus, de imitá-lo. Faço orações conforme Ele me ensinou com frequência. Acalma minha alma em muitas situações, me ampara, me direciona e me conforta. Mas não sou cristão de dogma, de irreflexão, de parcialidade. Sou buscador, não ovelha. Jesus não é meu nem de ninguém. Nem padre, pastor, sacerdote ou membro de qualquer código ou tradição. Pelo que eu consegui entender até agora seu ensinamento mais fundamental, aquele que faz com que todos os outros sejam possíveis, é “amar ao teu próximo como a ti mesmo”. Poucas palavras. Um universo inteiro de espiritualidade contido nelas. Quando você se percebe no outro, todo o seu comportamento reflete isso. Um círculo virtuoso se inicia.

Religião

Religião por si é uma estrutura essencialmente política. Ateus ou praticantes de cultos não-cristãos não são mais ou menos éticos e sociáveis que ninguém por questões metafísicas, mas por empatia e amor ou falta destes. Jesus (que a propósito era judeu) não disse “ame a outro cristão como a ti mesmo”. Disse para amar o próximo. Ponto final. Qualquer sinônimo de “próximo” se encaixa nessa versão, nessa língua. Conseguir fazer isso já te faz um ser iluminado, chapa, um Buda praticamente. Basta você se imaginar praticando o ensinamento no dia a dia. Não precisa fazer mais nada, só isso já alimenta o ciclo de encontros, afetos, respeitos, cuidados. E aí você vive, evolui, ascende, se eleva.

A fé sem obras é morta, você tem que exercê-la, praticá-la. O resto é querer pegar Jesus pra si. Fundamentalismo irracional e fascistóide, farisaísmo. Só serve pra fomentar ódios, divisões, rancores e incompreensão. Não gosto, não aprovo e não colaboro. Sou a favor da vida: cada um cuidando da sua. Primeiro tirar a trave do meu olho pra conseguir enxergar o cisco no olho do meu irmão. De sangue, de fé ou de existência. Sem rótulos nem código de barras espiritual. Quem sou eu para ter alguma autoridade sobre a espiritualidade alheia? Quanta arrogância ignorante há em quem acha que tem? Cego levando outro cego, caem os dois no buraco.

Gosto da data em si, do que o Natal representa para mim. Estar em paz consigo e com os demais, reunido em harmonia com pessoas importantes ou mesmo sozinho, em reflexão e prática desse ensinamento do Cristo, o amor incondicional. O amor que você dá volta pra você. O que você não dá também. Se te pedirem a capa, nem a túnica recuses. Se te faz andar uma milha, vai com ele duas.

Espero que este texto tenha te alcançado em um momento de paz interior e tranquilidade ou contribuído para que eles se instalem. Seja lá qual for o significado que você atribui ao Natal, que essas palavras possam lhe ter alguma utilidade, nem que seja voltar ao momento da sensação antes da interpretação que a mente dá a ela, transformando o que é positivo em estímulo, negativo em repulsa e neutro em ignorância. Antes que qualquer um desses três aspectos se forme, vedana.

Feliz Natal!

DIGRESSÃO: a afirmação de que “a humanidade inventou deuses para si” não é desrespeitosa com a religião de quem quer que seja, tampouco exclui a ideia da existência de Deus. Não tenho interesse algum, autoridade ou conhecimento para dar palpite, orientação ou parecer de qualquer natureza nesse campo. Estou apenas constatando um fato. Os povos primitivos atribuíam o calor, a luz, o alimento e todo o conforto e perspectivas que o Sol oferecia ao poder de um deus (o que não deixa de ser verdadeiro em um certo sentido).

Existe uma verdade que independe do nome ou forma que as pessoas dão aos seus deuses e ela sempre se manifesta da mesma maneira em todos os lugares e para todos os seres. Queira você (ou tenha sido condicionado a) chamar seu deus de D’us, Jeová, Jah, JHVH (Tetragammaton), Adonai, A Deusa, Allah, Javé, Olorum, Zambi, Brahman, Consciência Cósmica, El, Odin, A Lei, Zeus ou Maradona, a água continua molhada, as coisas sempre caem pra baixo, a noite é escura, o fogo é quente, o arco-íris tem sete cores e a terra gira em torno do Sol. O funcionamento inexorável dos processos do universo, o todo, é também conhecido como Tao, ele mesmo uma forma de se tentar entender Deus, um mistério tão colossalmente grandioso, além do tempo e do espaço, que eu tenho a impressão que qualquer pessoa que tente esquadrinhá-lo usando uma ferramenta tão limitada quanto a mente humana inevitavelmente estará “chutando” e diminuindo o conceito pela simples tentativa de atribuí-lo um nome e uma forma. Mesmo ateus e agnosticos muitas vezes não rejeitam a ideia de uma força causal, criadora em si, mas a atribuição de uma personalidade a ela.

Convenhamos (como diz o místico yogi indiano Sadhguru): se você fosse um búfalo, como seria o seu deus? Certamente um búfalo gigante, talvez com quatro chifres. Também vejo sentido na afirmação que “se os animais tivessem uma religião, o ser humano seria o diabo”. Ou não? 

Toda imagem que qualquer cultura consegue fazer de Deus é uma versão exagerada dela mesma, porque é assim que se imagina conseguir chegar mais próximo de compreendê-lo. O fato é que nos achamos muito especiais e inteligentes, mas sabemos muito pouca coisa sobre quase nada. De todo modo, “a religião certa é aquela que te faz uma pessoa melhor“, mesmo que ela seja nenhuma ou um pouco de cada.

 

 

The Bard is in the house!

This is the very first post in English here. Shakespeare’s language has always been my partner and I would not miss the chance to use it, obviously. It has been my bread and butter for over seventeen years and encompasses all aspects of my life, from my way of thinking to my social interactions, from professional issues to my leisure time. English language has saved me in many ways, shaped the kind of human being that I have become and taught me so much more than merely being able to communicate in a foreign language. I am not going to be able to express my love and gratitude for it, no matter how hard I try. The simple fact of using it here is bliss to me big time, I can tell you.

Big Willy
“To bitch or not to bitch, that’s the question”

I work as an instructor of English, interpreter and translator. When I first started (back in the year 2000) it used to be a lot easier to find work as interpreter, which tended to be fun, pleasant to carry out and the pay was right. I used to say that I got paid to hang out, eat decent food and meet interesting people. Have lost account of how many times I met foreigners who would come to Brazil on business for an entire week, work four weekdays and then take that so-called “day off” on Friday, when they would engage in “underground” activities, for the lack of a better word. Anyways, snitching on people ain’t my cup of tea and “a word to the wise is sufficient”, they say. All good things must come to an end, the Bard would go for that matter.

That type of interaction with foreign businesspeople has also taught me, paradoxically, a whole lot about my own country and its people. It is an indisputable fact that “the average Brazilian” (if there can be such character) looks up to the USA a great deal. Hollywood, massive propaganda and loads of “yank culture” have been bombarding the West since the end of WWII with their values and lifestyle. The land of consumerism and competition has imprinted its agenda on the minds and souls of people from many other countries (and particularly our own) in spite of supporting sanguinary dictators at its will, killing whoever gets on their way to accomplish their goals, having 5% of the world’s population and consuming 35% of its natural resources, contributing to uneasiness, conflicts and economic crisis worldwide and selling a culture of individualism, hedonism and violence that will ultimately cause the planet to collapse. Uncle Sam always manages to get away with its crimes, racks up the best share in any agreement that it gets involved in and trashes the planet without being molested. Moreover, it still gets international admiration and approval. Most middle-class Brazilian good citizens would rather be born in the US while trying to pass as “patriots” and parading wrapped in Brazilian flags to fight “corruption” perpetrated by “communists” (which is just more American baloney intended to raise fear in people in order to manipulate them more easily). Ironically, corruption has now apparently reached an all-time high here, but you will not see anybody “protesting” it because those “crooked commies” are not involved. It is a lot more about the hype created by pressure groups and boosted by the right-wing biased media than about being outraged by whatever wrongdoings our politicians get involved in. Sheer manipulation combined with willful ignorance and fifty shades of bad-mindedness. Welcome to Brazil.

Anyways, my intention is not to write an anti-American text, but rather make it clear that, while I am fully aware (and thankful even) of the very many contributions that the US has given to the international community in the fields of science, technology, literature, medicine and various others, I think that those are many times offset (if not exceeded) by the price it makes other nations pay in the form of famine, war, ignorance, deprivation of basic human rights, poverty and disease. Just wanted to see some more fairness and equality, and I know darn well that these very lines are likely to be monitored and that my plea will eventually be seen as “communism”, “terrorism” or whatever “ism” that serves their purpose. It is written in English anyway, so if we look on the bright side, that represents some sort of shortcut. I am a peaceful person though, have nothing against US people whatsoever and still believe that things will be better someday, provided that people from all nations are treated as they are: human beings who do not choose where they are born and which circumstances they are born under. Please Uncle Sam, don’t “trump this bitch” here, okay?

Back to the language of the Angles: whatever subject one needs to study, they will find way more information about it in English than in any other language. If you think this is an overstatement, just pick any topic at random and google it. Then reach for the Wikipedia entry of it and swap language to English. Bingo! The topic is extended tenfold, in most of the cases. Just try and see for yourself. That basically means to say that it is an indispensable tool nowadays to anyone who knows that information is power and seeks some kind of competitive edge over others. It used to be very common to meet people who would say that they hated English (in fact I believe roughly 7 out of 10 people who need to study it for professional purposes do not like it at all). That too has changed. My generation (people born in the 70’s and early 80’s) was the last to be able to accomplish anything professionally (at least as far as the “big business” is concerned) without speaking it.

In most cases, people’s ill-will towards English is based on a misconception: they do not like to study grammar in Portuguese and think that it works the same way for foreign languages. I have had students from France, Argentina, Netherlands and other countries who do not see grammar as an impediment, but rather as a solution. I have given up teaching Portuguese to foreigners myself, it is the type of work that is exhausting and very little rewarding. Will do it if necessary, but would rather not. English is not quite like that though. It has a century-long oral tradition and is a lot more about speaking the way people do than trying to accumulate vocabulary just for the sake of knowing meanings. The way words are used in combination with others is way more important than knowing them individually. One cannot learn from dictionaries alone. They will teach you how to use words rather than help you build up on your vocabulary.

The thing about English is that, as mentioned before, it evolved as an oral language and was used as such for centuries before there was the need to develop a lexis to meet the needs of the new knowledge which started to be improved in England by prominent members of literature, physics and other areas (see embedded video below). When the printing press was invented, the need to spell words correctly and in a standardized way became imperative, then lexicographers started to investigate the origins of terms that had been used for centuries and had by then acquired different sounds and variations. In order to compile the various words that derived from them and establish some sort of logic, the spelling was many times preserved to the detriment of pronunciation. That explains the fact that the way words are spelt is many times very different from the way they are pronounced. It tends to be the most difficult aspect to get right for learners: spelling versus pronunciation.

For those out there willing to improve their skills at using English as a second language, here is a piece of (unsolicited) advice: your objective should never be to talk like a native or perfectly, but to make progress. If every day you get the feeling that you have learned something new, you will be in the right direction. Practice every way you can and do not be prejudiced against accents or spelling. There is an entire world of English language apart from that “made in USA” (which is also extremely important and rich), and it is there for the taking. Do not compare your English to that of others. Compare it to how your own ability of using it was the day before. There is a saying which goes like “everybody wants to go to heaven, nobody wants to die”. There is a lot of truth in it. Make your bit of effort, turn it into a routine. Next thing you know, it will come to fruition. It will be under your belt, for you to expand your possibilities. It is definitely worth it!

There will be texts in English regularly here for us to practice. Read me!

 

 

Ode ao madrugador

Não posso dizer que escolhi a madrugada como habitat. Fui escolhido por ela, na verdade. Sou daqueles que não precisa de muitas horas de sono pra estar inteiro no dia seguinte. Se conseguir seis horas bem dormidas já fico bem. Reflexos, raciocínios e metabolismo em perfeitas condições. Entendo que sou um espírito habitando uma carapaça temporariamente e que é meu trabalho garantir a preservação e o bom funcionamento dela, pra que minha mente (ponte entre espírito e corpo) possa estar em boas condições e trabalhe a meu favor, não contra mim. Quisera eu ter essa noção antes, mas não tinha. Já era, estraguei meu organismo durante anos com química e pensamentos tóxicos. Algumas coisas dá pra recuperar, outras reverter e outras melhorar. Mas há também aquilo que é preciso aceitar e se render, dá pra aprender muita coisa fazendo isso. Recomendo.

Gilda, rainha da madrugada

Acontece que qualidade de sono é artigo raro, aparentemente. Tenho a impressão que depois da adolescência (quando eu mesmo dormia até meio dia facilmente) as pessoas dormem cada vez menos e pior. Cigarro, álcool e medicamentos influenciam também, agridem e desequilibram. Outro dia estava lendo sobre os short sleepers, pessoas que dormem quatro, cinco horas por noite e conseguem estar inteiros, fully functional pela manhã. Cada vez mais me vejo e aceito ser um deles. Talvez por herança dos genes do meu pai, que é sempre o último a ir dormir e o primeiro a estar acordado. A diferença é que ele bebe quantidades carnavalescas de cerveja e fuma bagaraio, e eu abandonei o uso de substâncias “estupefaciantes” (como diria o Luiz Thunderbird) há tempos. Cigarro há dez anos, bebida alcoólica há três. O corpo se acostuma tanto com agressões quanto com a falta delas.

Me lembro bem do que chamo de “sono de bêbado”. Não é um sono propriamente, é uma espécie de desmaio, de desligamento. O ritual é sempre o mesmo: seu corpo parece estar obedecendo e seu raciocínio parece que presta para alguma coisa, mas na verdade você está a beira de um colapso total. Continua agindo quando já parou de pensar, fala cada vez mais mole e cada vez mais merda. Sua “conversa” consiste em um monte de trocas dos sons das palavras e cuspes na cara do seu interlocutor. Na sua cabeça você é bonito, sábio, rico e interessante. Na realidade já passou de “mala” pra “container” faz tempo. Vai deteriorando até que acaba a cerveja, a paciência de alguém, o evento ou a noite e é inevitável: sua fuga da realidade acabou e você precisa dormir. Com sorte não cometeu crime algum e sua liberdade não será tolhida, não dessa vez. Quando a cama que está rodando pelo quarto passa pela sua frente, você cai nela. De jeans, de chapéu, fumando, seja lá como for. Um trapo sujo no chão do banheiro do boteco tem mais dignidade que você. Ronca e baba por umas duas horas, deixando o recinto com aquele cheiro azedo dos gases gerados por essa bomba química em que se tornou. Daí acorda de repente. Olhos arregalados, sono impossível. Não estava dormindo, na verdade. Seu cérebro apenas desligou seu sistema por um tempo pra evitar que você morresse, não é lindo? Ele mesmo não parou, continuou funcionando a um milhão por hora. Por isso o sono de bêbado não é reparador, não descansa. Você acorda de ressaca, prometendo nunca mais beber, tentando sobreviver àquela segunda-feira dia de Exu e fingindo que não está esperando a próxima oportunidade de chapar o glóbulo novamente, fugir de si mesmo novamente, ficar lindo e rico e sábio novamente. Pois é, já estive lá, como se diz em inglês. Been there, done that.

Já foi dito que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“. Conheço bastante gente que tem uma relação saudável com bebida e consegue conciliar seus afazeres com ela, mas quanto mais penso nessa coisa de dependência química mais tenho a impressão que é uma questão de se conhecer, de saber quais limites você consegue esticar e quais decisões precisa tomar. O limite muda, o prazer ilude, o corpo tenta se impor e tomar a mente pra si. Esta já é preguiçosa e influenciável, se deixa levar facilmente. E a espiral descendente começa, arrastando consistentemente, às gargalhadas. Álcool é uma droga socialmente aceita e comercialmente estimulada, o que a torna especialmente perigosa. Todo mundo tem medo das “drogas”, mas quando conta histórias de dependência geralmente é sobre aquele parente alcoólatra que estraga a própria vida e a dos outros. Há um documentário interessante no YouTube sobre o assunto, chama-se Terapia Psicodélica. Recomendo também. Eye-opener.

Ao parar de beber, de cara perdi peso, deixei de roncar e passei a dormir bem melhor. Após três anos o peso se manteve (dez quilos a menos) e o ronco apneico sumiu definitivamente, mas o sono voltou a ficar esquisito. Idealmente durmo das onze às cinco. Seis horas. Se fosse simples assim, estaria ótimo. Só que pouco depois das três da manhã acordo, muitas vezes no mesmo horário exato. Daí que vem: é incrível como meus pensamentos são diferentes dos que costumo ter durante o dia. Imagino que isso tenha a ver com processos químicos do organismo mesmo, afinal o sono tem uma função importante de reparação e organização. Quando o processo é interrompido, é inevitável que haja espaços vazios, pontas soltas, fendas abertas.

Nessas fendas que eu caio. Por vezes presto atenção na cara que a madrugada tem em SP: algumas luzes coloridas, pálidas e tristes. O barulho de uma moto ao longe, sirenes de vez em quando, cachorros latindo, a noite onde as sombras prevalecem, os instintos e os apetites são outros, bem outros. A polaridade se inverte: as plantas sujam o ar ao invés de limpar, o dinheiro cuidado com zelo durante o dia passa a correr atrás do prazer, os corpos se procuram, a beleza e a virtude assumem outros nomes, formas e lógicas. É o negativo da foto, a luz tem outra função. Yin, não Yang.

Fora assim como dentro, em cima como embaixo. Os processos mentais também são bem diferentes no meio da noite. Medos mais profundos, reações mais dramáticas, minutos mais longos. Muitas vezes vem à tona aqueles pensamentos que não temos coragem de confessar para nossa própria alma. Somos monstros, poetas e santos nessa hora. Somos todos aqueles pensamentos e nenhum deles também. Quando a manhã chega e a luz retoma o controle, o que parecia tão intenso e definitivo se esvai, mingua até cair no território dos sonhos e fantasias, aquele mundo onde não sabemos distinguir o que foi vivido do que foi apenas imaginado. E a gente volta a assumir aquela persona que parece mais aceitável: a de gente normal, funcional e respeitável, produzindo para o bem da sociedade. O típico cidadão de bem, seja lá o que for isso. Até vir a próxima madrugada e seus fantasmas a assombrar novamente, mostrando que toda solidão é relativa, todo medo é uma forma de esperança e que quanto mais intensa a luz, mais nítida a sombra que ela projeta.

A madrugada é dona de uma das coisas mais importantes que existem em todos os mundos, em todos os tempos e para além das palavras, gestos e formas. Tudo o que é criado começa nele e só existe porque nossa mente precária precisa de sons e formas para tentar entender o que experimenta. Tudo o que vem dele é redução, simplificação, diminuição e representa apenas debilmente o que é de fato: o silêncio. Todo o barulho que existe é apenas uma imitação dele, uma tentativa irremediavelmente frustrada de reproduzi-lo.

Há um conto Zen de um simples diálogo entre um discípulo e seu professor que ilustra bem isso:

“-Mestre, qual é o primeiro princípio do Zen?”
“-Se eu te disser, ele passa a ser o segundo princípio.”

Tenho a impressão que é no silêncio da madrugada que está toda a sua força. Sou seu aprendiz, já não luto mais. Se passar o dia seguinte bocejando e à base de café, é o preço. Está muito bem pago.