Tia Rita

Tia Rita nos deixou ontem, no final da tarde. Estava em estado crítico já havia um tempo, indo e voltando do hospital. Não resistiu a um câncer de cérebro e seu corpo parou de funcionar em um domingo, depois de castigar sua alma por mais de um ano. É inimaginável a extensão do sofrimento pelo qual passou e especialmente frustrante tentar compreender como uma pessoa como ela pode ter sido submetida a tudo isso, pelo menos dentro dos parâmetros humanos de merecimento e/ou causa e efeito. Se existisse alguma lógica passível de ser entendida nesses termos, isso jamais teria acontecido.

Conheci minha tia Rita quando me dei conta do mundo ao meu redor. Sendo ela a irmã mais velha de minha mãe e a primeira de uma prole de oito, sempre esteve lá. Faz parte daquele universo de presenças que nunca chegaram de algum lugar ou precisaram ser apresentadas. Ela era um lugar em si mesma. Um lugar de acolhimento, de presença amorosa, de cuidado zeloso com seus três filhos (Samuel, Ivana e Raphael), seus netos e bisnetos.

Tia Rita era a alquimista daquele cheiro de infância que todo mundo lembra. De pão caseiro quentinho passando por debaixo da porta e por entre as janelas. Tão invisível quanto inconfundível. Era a autoridade feminina, matrona protetora para quem estar feliz era servir aos outros, ouvir o barulho de sua família reunida comendo e brincando, a criançada correndo, brigando, quebrando coisas para levar bronca primeiro e um afago cúmplice depois. Sabia que felicidade é ser, não ter. Foi o ícone máximo da religião pra mim durante muito tempo, com seu cabelão quase sempre preso em um coque e seu modo de se vestir, seu conhecimento bíblico, sua fé comovente e o respeito que naturalmente inspirava nos demais. Tinha o riso alto, rasgado, fácil, daqueles que você ria da risada dela sem precisar nem saber o motivo.

Eu nunca fui de me importar com o que os outros pensam a meu respeito, mas há algumas poucas pessoas cuja opinião eu sempre respeitei, por mais que discordasse. Minha tia definitivamente era uma delas, sei lá eu por quê. Cresci convivendo com uma religiosidade cristã pentecostal, daquelas mais rígidas e ortodoxas. Na igreja as mulheres se sentavam de um lado do corredor e os homens do outro. Tudo o que fugisse aos ensinamentos passados pelos pastores era “do mundo”, “do inimigo”, “pecado”. Frequentei Escola Dominical da Igreja Batista na infância e diversas vezes visitei cultos de outras denominações sem nunca ter participado ativamente de uma congregação. Não me lembro de ter visitado uma igreja em que não me tivesse sido perguntado se “aceitava Jesus”, sem falhar uma. Meio intimidador, artificial. Nunca entendi direito o que isso quer dizer, Jesus também sempre esteve lá. Como aceitar o que já fazia parte da minha vida? Meu próprio nome me foi dado por causa de um de seus discípulos, assim como os dos meus irmãos. Sei Hinos da Harpa Cristã de cor desde criança, conheço muitos personagens bíblicos e suas trajetórias. Já fui de Adão a João Batista, de Moisés a Paulo, de Abraão à Lázaro. E Rute e Raquel e Jezabel e Dalila e Maria e “as virgens loucas que deixaram suas lâmpadas se apagar“. A certa altura percebi que igrejas são comunidades que funcionam muito mais na base da interpretação de dogmas que seus membros compartilham de forma parecida naquele círculo específico e que é com base nisso que se preservam, mais do que no sentido universal da fé cristã e por definição, dos ensinamentos de Jesus. Os sacerdotes emprestam sua personalidade à egrégora que alimentam e a cultura daquele templo gira em torno disso. Respeito e acho que muita gente é ajudada espiritualmente por essas igrejas, mas geralmente me sinto mais coagido que acolhido nesses lugares. Aceito Jesus como meu mestre, guia e referência de comportamento e valores, mas não sou ovelha de pastor algum, nem pretendo. Quem se sente bem assim, que o faça e espero que se realize plenamente.

De todo modo, muitas vezes tive receio do que minha tia Rita pensaria sobre mim. Sinceramente, não sei de onde vem. O mais curioso é que ao mesmo tempo em que é uma limitação meio que auto imposta, tal fato nunca me incomodou. Lembro de uma vez, já há quase vinte anos, que apareci na casa da minha mãe para um churrasco com meu filho pequeno no colo e uma camiseta cor de rosa com três crânios pretos na frente e ossos cruzados formando um “x”, como a clássica bandeira dos piratas dos filmes. Tia Rita estava lá, e ao ver minha roupa, cravou: “Esse símbolo é do Exu Caveira, sabia?”. Gelei dos pés à cabeça na hora, quase derrubei o bebê. Não poderia haver no mundo um nome mais aterrorizante que esse. Como eu ia saber? Apenas tinha visto a camiseta em uma loja e achado bonita, comprado e a estava usando inocentemente. Tirei do corpo na hora, joguei no lixo. Peguei outra emprestada com alguém e passei a morrer de medo do Exu Caveira e de todos os outros Exus, mudava de calçada se avistasse uma Casa de Umbanda no meu caminho. Anos mais tarde descobri não apenas que aquele símbolo não era bem o que ela tinha dito, mas também que Deus não erra. Sendo assim, se existe Exu é porque ele tem que existir. Mais recentemente, ao precisar ir até seu apartamento ainda antes de saber do tumor que acabou por vencê-la, passei em minha casa pra trocar de roupa por causa de uma camiseta de caveira que estava usando. Achei que seria desrespeitoso ir vestido daquela forma. Sem ressentimentos, no hard feelings. Mesmo que ela não dissesse uma palavra sobre isso, não era direito meu. Ponto.

A última vez que conversei com ela foi no dia em que se mudou com o Fábio, seu marido, para o Espírito Santo, já faz uns dois anos ou mais. Disse a ela que a amava, desejei boa viagem e que tudo desse certo. Ela vinha tendo uns desmaios estranhos e umas crises de dor de cabeça, além de convulsões. A mudança era pra ficar perto da Ivana e para deixar a agitação de São Paulo pra trás, buscando qualidade de vida e melhor saúde. Fábio tinha conseguido um emprego por lá, tudo ficaria melhor. Tia Rita viveu feliz perto de sua filha e genro os últimos anos de sua vida, antes da doença se espalhar e tomar seu corpo, fazendo com que ele a deixasse depois de sofrer como foi, já de volta a São Paulo.

O que ficou pra mim foi saber que ela foi muito amada, o que era apenas a retribuição natural de todo o amor que ela sempre ofereceu aos seus de forma generosa e altruísta, apenas por ser assim o modo como sabia fazer. Mesmo sua intolerância com o que as vezes parecia não caber em sua religiosidade era uma forma de amar, porque ela tinha convicção de que somente ao seguir aquele dogma as pessoas poderiam encontrar refúgio em Deus e ser salvas e libertas, e era isso o que ela queria para todo mundo.

Hoje, no cemitério junto de parentes e amigos dela, tive a certeza de que minha tia Rita entrou no Céu em que sempre acreditou e foi acolhida por seu Jesus como sempre soube que seria, porque se o Céu não é para pessoas como ela, então para que serve o Céu?

Adeus, tia Rita amada. Se eu conseguir aprender a amar as pessoas nem que seja por uma fração ínfima do que você fez, certamente farei por merecer estar contigo aí quando chegar a minha vez. Descanse em paz e em amor.

Sartre, fascismo e as Eleições 2018

“O inferno são os outros”, disse Jean-Paul Sartre.

Na mentalidade fascista, dualista, é preciso que haja um “inimigo” a ser combatido. O mais clássico é o diabo, logicamente.

Na História já foram os judeus, os comunistas, os ciganos, etc.
Hoje é a “esquerda”, essa entidade imaginária que serve basicamente pras pessoas elegerem um “mal comum”, um satanás qualquer, e não assumirem a responsabilidade por sua própria sombra, seus próprios ódios, limitações, medo e mesquinhez. Fascismo tupiniquim tacanho e escroto que põe vidas em perigo e julga o caráter alheio sem empatia ou misericórdia, muitas vezes escondido atrás da religião que é supostamente misericordiosa por natureza, a de Yeshua Ben Yosef, Jesus Cristo. Aquele mesmo que perdoou um ladrão na cruz e ensinou a “amar seus inimigos e orar pelos que lhe caluniam”.

Dois mil e dezoito anos depois, muitos dos que dizem segui-lo fazem campanha para um candidato que declarou ser seu livro de cabeceira “A Verdade Sufocada”, de Brilhante Ulstra, torturador que prendia canos de PVC com ratos dentro ao corpo de suas vítimas e um lado fechado, pra que eles tentassem sair pelo outro lado roendo a vagina de mulheres “comunistas”, “subversivas” ou qualquer outro rótulo que tirasse sua humanidade e as transformassem no “inimigo”, o “diabo”. Seja lá qual for o deus que estimula, aceita ou corrobora com isso, dele eu quero apenas distância. Amém.

O Paradoxo da Tolerância e as Eleições de 2018

Voltando ao tema da tolerância, obviamente por causa do clima político no Brasil. O filósofo Karl Popper https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper formulou a noção do “paradoxo da tolerância”, segundo o qual “liberdade em excesso leva ao fim da liberdade, tolerância em excesso leva ao fim da tolerância”.
É justamente o principal problema de Jair Bolsonaro e seu séquito de “homens de bem”. Ao radicalizar o discurso e se achar no direito de dizer quem é ser humano e quem não é, qual religião deve ser estimulada e qual não, qual orientação sexual é aceitável etc, incorre no vício do fascismo e da intolerância, que são venenos sociais e não têm lugar em um mundo naturalmente diverso e multifacetado. A ideologia de Bolsonaro, também paradoxalmente (porque autoproclamada a defensora dos “valores conservadores”) é antinatural, porque busca a preservação de padrões artificiais, impostos historicamente na base da força, violência e desrespeito. Não por acaso, as mesmas “armas” (trocadilho involuntário) da religião, do patriarcado e da noção de “raças”.
Por sorte, Bolsonaro jamais será eleito presidente, porque as mulheres não permitirão. Embora ele tenha votos entre elas, a grande maioria sabe do que se trata ser mulher em uma sociedade como a nossa e não irão permitir que um padrão que já é reproduzido clandestinamente no dia a dia passe a ser a norma, legitimada pelo voto.
Bolsonaro morrerá pela própria boca no processo, afogado no seu próprio ódio. Porque se ele acha que sua filha foi uma “fraquejada”, é porque não sabe que as mulheres entendem perfeitamente que votar nele é que seria, e elas não vão entregar a paçoca pro opressor assim, não. Nunca.

Enquanto houver mulheres no mundo, Jair Bolsonaro não será presidente do Brasil. Nem em um milhão de anos. Pode ter certeza.

Ode ao madrugador

Não posso dizer que escolhi a madrugada como habitat. Fui escolhido por ela, na verdade. Sou daqueles que não precisa de muitas horas de sono pra estar inteiro no dia seguinte. Se conseguir seis horas bem dormidas já fico bem. Reflexos, raciocínios e metabolismo em perfeitas condições. Entendo que sou um espírito habitando uma carapaça temporariamente e que é meu trabalho garantir a preservação e o bom funcionamento dela, pra que minha mente (ponte entre espírito e corpo) possa estar em boas condições e trabalhe a meu favor, não contra mim. Quisera eu ter essa noção antes, mas não tinha. Já era, estraguei meu organismo durante anos com química e pensamentos tóxicos. Algumas coisas dá pra recuperar, outras reverter e outras melhorar. Mas há também aquilo que é preciso aceitar e se render, dá pra aprender muita coisa fazendo isso. Recomendo.

Gilda, rainha da madrugada

Acontece que qualidade de sono é artigo raro, aparentemente. Tenho a impressão que depois da adolescência (quando eu mesmo dormia até meio dia facilmente) as pessoas dormem cada vez menos e pior. Cigarro, álcool e medicamentos influenciam também, agridem e desequilibram. Outro dia estava lendo sobre os short sleepers, pessoas que dormem quatro, cinco horas por noite e conseguem estar inteiros, fully functional pela manhã. Cada vez mais me vejo e aceito ser um deles. Talvez por herança dos genes do meu pai, que é sempre o último a ir dormir e o primeiro a estar acordado. A diferença é que ele bebe quantidades carnavalescas de cerveja e fuma bagaraio, e eu abandonei o uso de substâncias “estupefaciantes” (como diria o Luiz Thunderbird) há tempos. Cigarro há dez anos, bebida alcoólica há três. O corpo se acostuma tanto com agressões quanto com a falta delas.

Me lembro bem do que chamo de “sono de bêbado”. Não é um sono propriamente, é uma espécie de desmaio, de desligamento. O ritual é sempre o mesmo: seu corpo parece estar obedecendo e seu raciocínio parece que presta para alguma coisa, mas na verdade você está a beira de um colapso total. Continua agindo quando já parou de pensar, fala cada vez mais mole e cada vez mais merda. Sua “conversa” consiste em um monte de trocas dos sons das palavras e cuspes na cara do seu interlocutor. Na sua cabeça você é bonito, sábio, rico e interessante. Na realidade já passou de “mala” pra “container” faz tempo. Vai deteriorando até que acaba a cerveja, a paciência de alguém, o evento ou a noite e é inevitável: sua fuga da realidade acabou e você precisa dormir. Com sorte não cometeu crime algum e sua liberdade não será tolhida, não dessa vez. Quando a cama que está rodando pelo quarto passa pela sua frente, você cai nela. De jeans, de chapéu, fumando, seja lá como for. Um trapo sujo no chão do banheiro do boteco tem mais dignidade que você. Ronca e baba por umas duas horas, deixando o recinto com aquele cheiro azedo dos gases gerados por essa bomba química em que se tornou. Daí acorda de repente. Olhos arregalados, sono impossível. Não estava dormindo, na verdade. Seu cérebro apenas desligou seu sistema por um tempo pra evitar que você morresse, não é lindo? Ele mesmo não parou, continuou funcionando a um milhão por hora. Por isso o sono de bêbado não é reparador, não descansa. Você acorda de ressaca, prometendo nunca mais beber, tentando sobreviver àquela segunda-feira dia de Exu e fingindo que não está esperando a próxima oportunidade de chapar o glóbulo novamente, fugir de si mesmo novamente, ficar lindo e rico e sábio novamente. Pois é, já estive lá, como se diz em inglês. Been there, done that.

Já foi dito que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“. Conheço bastante gente que tem uma relação saudável com bebida e consegue conciliar seus afazeres com ela, mas quanto mais penso nessa coisa de dependência química mais tenho a impressão que é uma questão de se conhecer, de saber quais limites você consegue esticar e quais decisões precisa tomar. O limite muda, o prazer ilude, o corpo tenta se impor e tomar a mente pra si. Esta já é preguiçosa e influenciável, se deixa levar facilmente. E a espiral descendente começa, arrastando consistentemente, às gargalhadas. Álcool é uma droga socialmente aceita e comercialmente estimulada, o que a torna especialmente perigosa. Todo mundo tem medo das “drogas”, mas quando conta histórias de dependência geralmente é sobre aquele parente alcoólatra que estraga a própria vida e a dos outros. Há um documentário interessante no YouTube sobre o assunto, chama-se Terapia Psicodélica. Recomendo também. Eye-opener.

Ao parar de beber, de cara perdi peso, deixei de roncar e passei a dormir bem melhor. Após três anos o peso se manteve (dez quilos a menos) e o ronco apneico sumiu definitivamente, mas o sono voltou a ficar esquisito. Idealmente durmo das onze às cinco. Seis horas. Se fosse simples assim, estaria ótimo. Só que pouco depois das três da manhã acordo, muitas vezes no mesmo horário exato. Daí que vem: é incrível como meus pensamentos são diferentes dos que costumo ter durante o dia. Imagino que isso tenha a ver com processos químicos do organismo mesmo, afinal o sono tem uma função importante de reparação e organização. Quando o processo é interrompido, é inevitável que haja espaços vazios, pontas soltas, fendas abertas.

Nessas fendas que eu caio. Por vezes presto atenção na cara que a madrugada tem em SP: algumas luzes coloridas, pálidas e tristes. O barulho de uma moto ao longe, sirenes de vez em quando, cachorros latindo, a noite onde as sombras prevalecem, os instintos e os apetites são outros, bem outros. A polaridade se inverte: as plantas sujam o ar ao invés de limpar, o dinheiro cuidado com zelo durante o dia passa a correr atrás do prazer, os corpos se procuram, a beleza e a virtude assumem outros nomes, formas e lógicas. É o negativo da foto, a luz tem outra função. Yin, não Yang.

Fora assim como dentro, em cima como embaixo. Os processos mentais também são bem diferentes no meio da noite. Medos mais profundos, reações mais dramáticas, minutos mais longos. Muitas vezes vem à tona aqueles pensamentos que não temos coragem de confessar para nossa própria alma. Somos monstros, poetas e santos nessa hora. Somos todos aqueles pensamentos e nenhum deles também. Quando a manhã chega e a luz retoma o controle, o que parecia tão intenso e definitivo se esvai, mingua até cair no território dos sonhos e fantasias, aquele mundo onde não sabemos distinguir o que foi vivido do que foi apenas imaginado. E a gente volta a assumir aquela persona que parece mais aceitável: a de gente normal, funcional e respeitável, produzindo para o bem da sociedade. O típico cidadão de bem, seja lá o que for isso. Até vir a próxima madrugada e seus fantasmas a assombrar novamente, mostrando que toda solidão é relativa, todo medo é uma forma de esperança e que quanto mais intensa a luz, mais nítida a sombra que ela projeta.

A madrugada é dona de uma das coisas mais importantes que existem em todos os mundos, em todos os tempos e para além das palavras, gestos e formas. Tudo o que é criado começa nele e só existe porque nossa mente precária precisa de sons e formas para tentar entender o que experimenta. Tudo o que vem dele é redução, simplificação, diminuição e representa apenas debilmente o que é de fato: o silêncio. Todo o barulho que existe é apenas uma imitação dele, uma tentativa irremediavelmente frustrada de reproduzi-lo.

Há um conto Zen de um simples diálogo entre um discípulo e seu professor que ilustra bem isso:

“-Mestre, qual é o primeiro princípio do Zen?”
“-Se eu te disser, ele passa a ser o segundo princípio.”

Tenho a impressão que é no silêncio da madrugada que está toda a sua força. Sou seu aprendiz, já não luto mais. Se passar o dia seguinte bocejando e à base de café, é o preço. Está muito bem pago.

Pessoas invisíveis

Logo cedo fui passar por uma porta giratória de um grande condomínio de escritórios e um senhor dos seus sessenta anos estava limpando os vidros. Notou minha distração por eu estar com a cara enfiada no celular feito os vários zumbis do Walking Dead em que se transformou caminhar por SP, percebeu o que eu faria e disse: “Bom dia! O senhor vai por ali por favor?”, apontando para uma outra porta de vidro que estava escancarada, logo atrás da tela do meu telefone. Foi quem primeiro falou comigo hoje na rua. Uniforme puído herdado de alguém, gestual rápido e determinado de trabalhador atarefado e olhos cansados de quem faz aquilo todo dia, o dia todo. Ao entrar no prédio, os mesmos bouncers de sempre: ternos pretos com ombreiras estilo anos 80, walkie-talkies e sua linguagem de QRA´s, QAP´s e QRU´s. Não entendo esses códigos, TKS por não me ensinar. Recepcionistas com uniformes iguais, rostos diferentes e frases prontas, ensaiadas e repetidas o dia todo. Contas para pagar, desrespeitos para tolerar, sapos e mais sapos para engolir. Mais do mesmo.

Subo até o nono andar. Não tenho um crachá para cruzar a porta travada da empresa dos USA, land of the free and home of the brave. Uma faxineira magra e simpática aperta o passo até mim, para que eu não espere muito. “Vou abrir pra você, professor. Quer café?”. Quero, quero muito. Nunca quis tanto, na verdade. A noite mal dormida provoca bocejos, olhos vermelhos e corpo arqueado. Cafeína transforma essa forma decadente em Mun-Rá, o de vida eterna. Salvo pela senhorinha do café, como muitas vezes em muitos lugares.

Tenho o privilégio de ser visto pelos invisíveis. Os pintados de cinza, azul ou preto. Monocromáticos, monossilábicos, monofásicos. Aqueles que em inglês a gente diz que são “taken for granted“. É como se fossem parte da paisagem. O chão está limpo, as luzes todas acesas, os equipamentos funcionando.  Nem parece que sem eles nada acontece. Acendem luzes, consertam defeitos, limpam espaços, destravam portas, fazem café, carregam peso, intermediam encontros, organizam filas, controlam acesso, repõem materiais. Invariavelmente dentro de roupas discretas, foscas, escuras, pra que fiquem mais invisíveis ainda. Aprendem a olhar de baixo pra cima, ou guardam seus olhares para quando não correm o risco de cruzar com os dos outros. Sempre olham e sempre veem, no entanto. Estão em outra frequência.

Cresci em ambientes e situações nos quais eles não estão soterrados sob seus crachás e tergais. Aquele porteiro preto que não recebe de volta metade dos “bons dias” que profere é também o cara que resolve no futebol de várzea no domingo, por exemplo. Pessoas vão até o campo só pra vê-lo. O futebol é uma linguagem. Suas qualificações, origem ou cor servem para nada diante do domínio debochado dos espaços e tempos que um cara desses tem. Você “não acha nem pra bater”, como se diz. Vai levar um chapéu, um rolinho. Vai levar gols e provavelmente perder o jogo. Ali ele exerce sua plenitude, sua vingança. Só restam duas alternativas: bater palma ou ir brincar de outra coisa. Da mesma forma, a pessoa que limpa os banheiros é o esteio de uma associação comunitária ou religiosa. É o pastor daquela igrejinha humilde que, a despeito do uso torto que alguns fazem de religião, conforta almas machucadas e salva vidas de pessoas tão invisíveis quanto ele. Ou a tiazinha da cozinha de uniforme azul e branco e cabelo preso, mãe de santo da Umbanda que atende de graça os que procuram conforto naquela fé, ela mesma tão discriminada e incompreendida pelos mesmos motivos: por ser preta, por ser brasileira, por ser humilde. E o pessoal do samba? E os que levam o sopão e agasalho pros que estão na rua, sem abrigo, comida e dignidade? Acima de tudo, os que suportam as humilhações e más-vontades cotidianas só para conseguir manter suas famílias com o mínimo de proteção e perspectiva (o que já é um feito quase que milagroso para tanta gente).

Muitas vezes, esperando por alguém atrasado ou por causa de um compromisso cancelado qualquer, fico observando essas pessoas trabalhar. O que me impressiona é o contraste. Não muito mais perceptível que uma porta automática em um contexto, eixo dos acontecimentos em outro. Excluído de um “bom dia” de segunda à sexta, Sol do sábado e domingo. Essas pessoas são as que fazem o mundo andar. São as que criam, nutrem, ensinam, preservam, acreditam, compram, se submetem. Todo e qualquer governo que se arroga o direito de existir deveria ser para elas. E se você acha piegas ou clichê o que estou dizendo, é muito provável que esteja certo. Quando alguém se propõe a escrever textos públicos corre o risco de ficar sem assunto, falar besteira e errar a mão no que escreve. Risco calculado, “ossos do ofício”. Mesmo assim, faça uma experiência: olhe para essas pessoas no rosto, “na bolinha do olho”. Perceba o quanto de você há nelas. Sinta a alma que existe atrás da expressão mecânica, alugada, social. É o que se busca expressar com um cumprimento usado na Ásia e que é normalmente associado ao Yoga, mas que na verdade é apenas uma questão de respeito no convívio: as mãos espalmadas postas à frente do peito com os dedos para cima mostrando o todo, o ligeiro curvar pra frente e a saudação opcionalmente falada que acompanha o gesto: “saúdo-te”. Namaste.

Sua atenção tem o poder de salvar o dia de alguém. Algumas vezes muda o curso de uma vida. Ou de duas, três e muitas mais, se você se permitir.

Bom dia, boa tarde, boa noite!