Tia Rita

Tia Rita nos deixou ontem, no final da tarde. Estava em estado crítico já havia um tempo, indo e voltando do hospital. Não resistiu a um câncer de cérebro e seu corpo parou de funcionar em um domingo, depois de castigar sua alma por mais de um ano. É inimaginável a extensão do sofrimento pelo qual passou e especialmente frustrante tentar compreender como uma pessoa como ela pode ter sido submetida a tudo isso, pelo menos dentro dos parâmetros humanos de merecimento e/ou causa e efeito. Se existisse alguma lógica passível de ser entendida nesses termos, isso jamais teria acontecido.

Conheci minha tia Rita quando me dei conta do mundo ao meu redor. Sendo ela a irmã mais velha de minha mãe e a primeira de uma prole de oito, sempre esteve lá. Faz parte daquele universo de presenças que nunca chegaram de algum lugar ou precisaram ser apresentadas. Ela era um lugar em si mesma. Um lugar de acolhimento, de presença amorosa, de cuidado zeloso com seus três filhos (Samuel, Ivana e Raphael), seus netos e bisnetos.

Tia Rita era a alquimista daquele cheiro de infância que todo mundo lembra. De pão caseiro quentinho passando por debaixo da porta e por entre as janelas. Tão invisível quanto inconfundível. Era a autoridade feminina, matrona protetora para quem estar feliz era servir aos outros, ouvir o barulho de sua família reunida comendo e brincando, a criançada correndo, brigando, quebrando coisas para levar bronca primeiro e um afago cúmplice depois. Sabia que felicidade é ser, não ter. Foi o ícone máximo da religião pra mim durante muito tempo, com seu cabelão quase sempre preso em um coque e seu modo de se vestir, seu conhecimento bíblico, sua fé comovente e o respeito que naturalmente inspirava nos demais. Tinha o riso alto, rasgado, fácil, daqueles que você ria da risada dela sem precisar nem saber o motivo.

Eu nunca fui de me importar com o que os outros pensam a meu respeito, mas há algumas poucas pessoas cuja opinião eu sempre respeitei, por mais que discordasse. Minha tia definitivamente era uma delas, sei lá eu por quê. Cresci convivendo com uma religiosidade cristã pentecostal, daquelas mais rígidas e ortodoxas. Na igreja as mulheres se sentavam de um lado do corredor e os homens do outro. Tudo o que fugisse aos ensinamentos passados pelos pastores era “do mundo”, “do inimigo”, “pecado”. Frequentei Escola Dominical da Igreja Batista na infância e diversas vezes visitei cultos de outras denominações sem nunca ter participado ativamente de uma congregação. Não me lembro de ter visitado uma igreja em que não me tivesse sido perguntado se “aceitava Jesus”, sem falhar uma. Meio intimidador, artificial. Nunca entendi direito o que isso quer dizer, Jesus também sempre esteve lá. Como aceitar o que já fazia parte da minha vida? Meu próprio nome me foi dado por causa de um de seus discípulos, assim como os dos meus irmãos. Sei Hinos da Harpa Cristã de cor desde criança, conheço muitos personagens bíblicos e suas trajetórias. Já fui de Adão a João Batista, de Moisés a Paulo, de Abraão à Lázaro. E Rute e Raquel e Jezabel e Dalila e Maria e “as virgens loucas que deixaram suas lâmpadas se apagar“. A certa altura percebi que igrejas são comunidades que funcionam muito mais na base da interpretação de dogmas que seus membros compartilham de forma parecida naquele círculo específico e que é com base nisso que se preservam, mais do que no sentido universal da fé cristã e por definição, dos ensinamentos de Jesus. Os sacerdotes emprestam sua personalidade à egrégora que alimentam e a cultura daquele templo gira em torno disso. Respeito e acho que muita gente é ajudada espiritualmente por essas igrejas, mas geralmente me sinto mais coagido que acolhido nesses lugares. Aceito Jesus como meu mestre, guia e referência de comportamento e valores, mas não sou ovelha de pastor algum, nem pretendo. Quem se sente bem assim, que o faça e espero que se realize plenamente.

De todo modo, muitas vezes tive receio do que minha tia Rita pensaria sobre mim. Sinceramente, não sei de onde vem. O mais curioso é que ao mesmo tempo em que é uma limitação meio que auto imposta, tal fato nunca me incomodou. Lembro de uma vez, já há quase vinte anos, que apareci na casa da minha mãe para um churrasco com meu filho pequeno no colo e uma camiseta cor de rosa com três crânios pretos na frente e ossos cruzados formando um “x”, como a clássica bandeira dos piratas dos filmes. Tia Rita estava lá, e ao ver minha roupa, cravou: “Esse símbolo é do Exu Caveira, sabia?”. Gelei dos pés à cabeça na hora, quase derrubei o bebê. Não poderia haver no mundo um nome mais aterrorizante que esse. Como eu ia saber? Apenas tinha visto a camiseta em uma loja e achado bonita, comprado e a estava usando inocentemente. Tirei do corpo na hora, joguei no lixo. Peguei outra emprestada com alguém e passei a morrer de medo do Exu Caveira e de todos os outros Exus, mudava de calçada se avistasse uma Casa de Umbanda no meu caminho. Anos mais tarde descobri não apenas que aquele símbolo não era bem o que ela tinha dito, mas também que Deus não erra. Sendo assim, se existe Exu é porque ele tem que existir. Mais recentemente, ao precisar ir até seu apartamento ainda antes de saber do tumor que acabou por vencê-la, passei em minha casa pra trocar de roupa por causa de uma camiseta de caveira que estava usando. Achei que seria desrespeitoso ir vestido daquela forma. Sem ressentimentos, no hard feelings. Mesmo que ela não dissesse uma palavra sobre isso, não era direito meu. Ponto.

A última vez que conversei com ela foi no dia em que se mudou com o Fábio, seu marido, para o Espírito Santo, já faz uns dois anos ou mais. Disse a ela que a amava, desejei boa viagem e que tudo desse certo. Ela vinha tendo uns desmaios estranhos e umas crises de dor de cabeça, além de convulsões. A mudança era pra ficar perto da Ivana e para deixar a agitação de São Paulo pra trás, buscando qualidade de vida e melhor saúde. Fábio tinha conseguido um emprego por lá, tudo ficaria melhor. Tia Rita viveu feliz perto de sua filha e genro os últimos anos de sua vida, antes da doença se espalhar e tomar seu corpo, fazendo com que ele a deixasse depois de sofrer como foi, já de volta a São Paulo.

O que ficou pra mim foi saber que ela foi muito amada, o que era apenas a retribuição natural de todo o amor que ela sempre ofereceu aos seus de forma generosa e altruísta, apenas por ser assim o modo como sabia fazer. Mesmo sua intolerância com o que as vezes parecia não caber em sua religiosidade era uma forma de amar, porque ela tinha convicção de que somente ao seguir aquele dogma as pessoas poderiam encontrar refúgio em Deus e ser salvas e libertas, e era isso o que ela queria para todo mundo.

Hoje, no cemitério junto de parentes e amigos dela, tive a certeza de que minha tia Rita entrou no Céu em que sempre acreditou e foi acolhida por seu Jesus como sempre soube que seria, porque se o Céu não é para pessoas como ela, então para que serve o Céu?

Adeus, tia Rita amada. Se eu conseguir aprender a amar as pessoas nem que seja por uma fração ínfima do que você fez, certamente farei por merecer estar contigo aí quando chegar a minha vez. Descanse em paz e em amor.

Brasil contra o Fascismo

O que temos posto é uma repetição da eleição de 1989. De um lado, um candidato fabricado, vazio e midiático, produto do medo e ódio. O trabalho que a Globo fez com Collor naquela oportunidade está sendo feito pelos fake news de hoje, principalmente no WhatsApp. Existe ainda, como na ocasião, o tal medo do “comunismo”, que nunca foi uma ameaça, mais da metade das pessoas sequer sabe o que é e nenhum dos partidos em disputa professa ou pratica, mas como somos um país que se informa pela televisão onde ninguém pega uma porra de um livro pra ler, é fácil de empurrar nos mais incautos (que são muitos). Do outro a temida “esquerda”, cada vez menos esquerda, cada vez mais odiada. Aliás, colocar o PT nesse campo ideológico já pode ser considerado licença poética, por assim dizer. Na disputa presidencial, o que é realmente socialista está longe de ter chances: Vera Lúcia e Boulos, e mesmo esse está mais para social-democrata que pra “comunista do djabo“. Negócio de “virar Venezuela” é bom pra amedrontar sua tia crente lá no grupo da família, comigo nem precisa se dar ao trabalho. Tenho preguiça.

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“Vou confiscar os meios de produçãããããooooo…”

O sistema não queria o fascio e desacreditou dele. Era melhor alguém mais “civilizado”, algum tucano de plumagem curtida com o tempo e cara de santo. Só que deu ruim, o plano fez água. Com isso ajudou a criar o monstro que agora se vê obrigado a abraçar, porque o tal “mercado” gosta dele. As bolsas sobem, “Wall Street aceita”. Como se isso fosse bom pra alguém além de grandes corporações internacionais que só estão interessadas no bottomline e foda-se os escrúpulos, os pobres, o meio ambiente, os povos, culturas e quem mais atravessar o caminho. It’s the economy, stupid!

Pra além do fascismo latente, Jair Bolsonaro é uma fraude, um embuste. Basta constatar o que fez até hoje: procure uma galinha que ele tenha ajudado a engordar, que você não acha. É uma farsa total, assim como era Collor, o playboy cocainômano que foi vendido como “caçador de marajás”. O apoio de hoje ao candidato fascista pode ser entendido como parte protesto, parte ignorância e alta dose de perversidade pura e simples, porque quem está falando sério sobre os rumos da política sabe que há gente muito melhor preparada em outros partidos, com currículo, lisura e competência suficientes para exercer o cargo. Muitos dos seus eleitores são apenas gente ruim mesmo, do tipo que entregava os vizinhos pro DOPS como “subversivos” na época do regime militar. Às vezes por ódio, por medo ou pura maldade, elemento facilmente encontrável nas manifestações de apoio à besta-fera (basta ver o episódio da placa da Marielle, acontecido ontem e perpetrado por candidatos da legenda do fascio). É muito fácil de se perceber que existe no Brasil uma maldade indisfarçável no ar. As pessoas te cumprimentam pela frente olhando dentro dos seus olhos, sorriem e elogiam com a mesma facilidade com que fazem fofoca a seu respeito, inventam mentiras e destroem quem quer que seja visto como ameaça. Há a onipresente inveja a guiar as ações (e as óbvias exceções de praxe que confirmam a regra). Inveja da competência, do sucesso profissional e/ou financeiro, da capacidade de ser amado, da inteligência ou o que for. Mendigos na rua invejam o papelão de dormir em cima uns dos outros. É um sentimento que diz mais sobre quem o tem do que sobre quem sofre. E fomenta as relações amistosas do brasileiro cordial #sqn. Aquele seu amigão do Facebook tem grandes chances de querer mais é te ver pelas costas. Talvez esteja trabalhando nisso nesse exato momento. Seja espalhando notícias falsas a seu respeito, seja denunciando seus atos para pessoas em posição de autoridade, seja lendo textos no seu blog e odiando sua capacidade argumentativa, seu uso do vernáculo ou simplesmente sua iniciativa de se posicionar a respeito de um tema qualquer. Conhece alguém assim? Não, né?

Caso essa aberração chamada Bolsonaro seja eleito, o país vai ser entregue à uma turba de incompetentes combinados com agentes diretamente interessados em uma agenda neoliberal, para quem a base da pirâmide social é apenas mão de obra batata, abundante e descartável. Receita repetida, resultado idem. Definição de insanidade de Einstein, conhece? Além disso, a violência já presente no discurso será legitimada pelo voto e os ataques às minorias, que já são constantes, se tornarão o padrão. No outro lado da equação, haverá mais resistência ainda, porque ideias não podem ser mortas ou presas. Pessoas não serão pisoteadas pelo sistema e voltarão pedindo bis. Violência se combate com violência? Lex Talionis vale para os dois lados, ou não? Isso não tem fim, sabemos. E outra: em um país onde basicamente qualquer tipo de burocracia tem duas formas de contornar (a oficial e a “por debaixo do pano”), quão desonesto alguém precisa ser pra acreditar que posse de arma será concedida aos “cidadãos de bem”, obedecendo critérios sensatos de equilíbrio emocional, necessidade de defesa pessoal e perfil psicológico ao invés de na base da propina pra “quebrar” a lei, como se faz abertamente com carteira nacional de habilitação? Alguém realmente espera que pessoas com o mínimo de noção da realidade acreditem nesse tipo de argumentação? É sério isso mesmo? Aliás, o que exatamente é um “cidadão de bem“? Na mesma linha, em um lugar onde meia tonelada de cocaína é encontrada e não se sabe o dono, uma tonelada de maconha desaparece de dentro de uma delegacia “como se nada”, mais de 90% dos assassinatos ficam sem solução, uma vereadora que luta pelos direitos humanos é executada junto com seu motorista em praça pública e o crime não é esclarecido, quem é quem? Quem é o crime? A quem entregar a responsabilidade pela segurança? A um ex-militar de meia-pataca que foi expulso do exército? Um bunda-mole que foi assaltado e teve sua arma roubada? Pergunta lá no posto Ipiranga? Que porra de Brasil melhor é esse que vocês querem?

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Pensar não dói, experimente!

A situação que vivemos é tão surreal que há cristãos que vão a igreja aos domingos prestar culto a um Messias que foi inimigo do sistema e por isso torturado e morto pelo Estado, para depois fazer campanha para um candidato que exaltou um torturador e que diz abertamente ser favorável à prática. Vemos mulheres, de quem o mesmo candidato disse que “não empregaria com o mesmo salário“, que sua única filha foi uma “fraquejada”, que “até existem mulheres competentes” e outras sandices, também fazendo campanha pra ele. Pretos e gays defendendo sua candidatura. Donos de prostíbulo e atores pornô defendendo a “família tradicional”. Um parlamentar que passou quase trinta anos no Congresso Nacional e guindou os filhos à mesma condição pregando “diminuição do Estado” enquanto diz que “não abre mão das verbas de parlamentar a que tem direito“. Se recusa a ir a debates e nos poucos aos quais compareceu falava devagar para que acabasse o tempo e conseguisse escapar de responder. Passou mais de uma hora de uma sabatina sem dar uma resposta objetiva para uma pergunta que fosse. Muitas vezes devolveu a pergunta para quem a fez. É um desqualificado completo. Sem cultura, educação formal, preparo administrativo ou político, capacidade de relacionamento interpessoal ou diplomacia. O sujeito mal fala português direito, é tosco e limitado intelectualmente. Parece um personagem de filme B, a gente se pergunta como pode alguém racionalmente declarar voto num paspalho desses. Não tem explicação plausível que não seja ignorância ou maldade. Por ódio ao PT? Conta outra. Por mais besteiras ou desvios que um partido político tenha feito, não justifica entregar um país na mão de um pazzo desses, vai me desculpar. Há mecanismos de punição (muitos deles criados pelo próprio partido em questão e que acabaram usados contra ele mesmo – seu grande ícone está preso nesse momento). De quais princípios as pessoas estão dispostas a abrir mão por ódio a um partido? Conseguem ser condescendentes com racismo, misoginia, tortura e homofobia por causa disso? Deixam de perceber a nítida falta de capacidade do cara para ser presidente? Que porcaria de argumento é esse? Uma postura dessa chega a ser irresponsável.

Este texto era pra ser um post no Facebook, mas ficou muito longo e coloquei aqui. Sei que, ao mesmo tempo que pode servir como reflexão ou entretenimento para uns, pode despertar raiva em outros, além de me expor à geral fascistóide cujo objetivo é intimidar e querer destruir tudo o que seja diferente deles, inclusive quem estiver alinhado com sua mentalidade e por algum motivo deixe de estar. Fascismo sempre foi assim, autofágico, truculento e pronto para colocar a cabeça pra fora do lixo humanitário em que habita, para o qual se destina e de que se alimenta. Pra mim não tem problema. Sem nenhum medo de estar fazendo demagogia, afirmo com convicção: estou do lado dos pretos, dos pobres, das mulheres, de pessoas de qualquer orientação sexual ou corrente espiritual. Mesmo que el@s mesm@s às vezes não estejam. Há diferentes níveis de consciência, empatia e compaixão. Estes são os que eu consigo sentir e nos quais meus princípios e ações estão alicerçados. Não abro mão de me manifestar, já que ainda estamos numa democracia (estamos?). Respeito até o limite qualquer formulação política em que se acredite. Se você é liberal, anarquista, conservador, socialista, comunista, social-democrata, marxista, ambientalista, a little bit of this, a little bit of that, a little bit of the other. Na verdade o verdadeiro “cidadão de bem” quer apenas trabalhar em paz, ter acesso ao mínimo de dignidade, saúde e respeito, que não lhe encham o saco e que o fardo da existência seja aliviado por doses de amor e alegria sempre que possível, independentemente da fé que tenha ou deixe de ter, dos partidos, do Political Compass, dos países e de toda mesquinhez humana. Fascismo não. É a exceção da regra. Ele quer que o diferente não exista. Ele intimida, exclui, ameaça, segrega, violenta, destrói, separa, quebra, queima, faz desaparecer, entristece, suja, turva, desvirtua, apodrece, contamina, infecta, sabota, retrocede, atrasa, polui, mata. Respeito opiniões, não ideologias de morte.

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Mein Fuhrer my ass!

Bolsonaro não será eleito, mas parte do estrago já está feito. O fascismo despertou, a reação a ele não pode deixar de existir. Sem tergiversar, sem negociar, sem dar chance de ele ter chance. Por outro lado, sabemos mais claramente quem é quem, que princípios as pessoas têm e do que são capazes. Várias máscaras estão caindo, o que é ótimo. Melhor olhar o inimigo na bolinha do olho, creio eu. Every cloud has a silver lining, como se diz em inglês.

Venceremos. O amor sempre vence o ódio. É uma questão de energia, não adianta espernear. É o Dharma, o TAO, o funcionamento. A Lei.

P.S.: Recomendo o voto em Ciro Gomes, número 12 na urna. Preparado, experiente, quase quarenta anos de ficha limpa, honesto, tem amor pelo Brasil e um projeto completo de governo que protege o trabalhador ao mesmo tempo que estimula o crescimento, o empreendedorismo, saúde, segurança e educação. Barba, cabelo e bigode. Dará um grande presidente. Sou brasileiro como você e também quero o melhor para o meu país. Isso inclui mandar um ou outro ir tomar no cu de vez em quando, que é mais um aspecto do meu candidadto com o qual me identifico.

Sartre, fascismo e as Eleições 2018

“O inferno são os outros”, disse Jean-Paul Sartre.

Na mentalidade fascista, dualista, é preciso que haja um “inimigo” a ser combatido. O mais clássico é o diabo, logicamente.

Na História já foram os judeus, os comunistas, os ciganos, etc.
Hoje é a “esquerda”, essa entidade imaginária que serve basicamente pras pessoas elegerem um “mal comum”, um satanás qualquer, e não assumirem a responsabilidade por sua própria sombra, seus próprios ódios, limitações, medo e mesquinhez. Fascismo tupiniquim tacanho e escroto que põe vidas em perigo e julga o caráter alheio sem empatia ou misericórdia, muitas vezes escondido atrás da religião que é supostamente misericordiosa por natureza, a de Yeshua Ben Yosef, Jesus Cristo. Aquele mesmo que perdoou um ladrão na cruz e ensinou a “amar seus inimigos e orar pelos que lhe caluniam”.

Dois mil e dezoito anos depois, muitos dos que dizem segui-lo fazem campanha para um candidato que declarou ser seu livro de cabeceira “A Verdade Sufocada”, de Brilhante Ulstra, torturador que prendia canos de PVC com ratos dentro ao corpo de suas vítimas e um lado fechado, pra que eles tentassem sair pelo outro lado roendo a vagina de mulheres “comunistas”, “subversivas” ou qualquer outro rótulo que tirasse sua humanidade e as transformassem no “inimigo”, o “diabo”. Seja lá qual for o deus que estimula, aceita ou corrobora com isso, dele eu quero apenas distância. Amém.

Natal, coisa e Tao

Mais um Natal vem aí. Por mais que às vezes eu me sinta meio party pooper por ter o costume de ficar procurando a origem das coisas (o “pé da fita” como se diz na quebrada), também é uma coisa que eu gosto muito de fazer, um hobby mesmo. Uma pegada meio historiador amador ocultista questionador subversivo chatolino TDAH hippie punk Rajneesh. Nessa, se tenho um blog pra escrever coisas, não seria o Natal a ficar de fora. Logo ele, provavelmente o evento mais importante da chamada Civilização Ocidental.

Jingle Bells. Sistema Natal in full swing. É um negócio tão enraizado no inconsciente coletivo que muito pouca gente se dá conta do fato de que tem feito em média 37° C em São Paulo por esses dias enquanto dá-lhe decoração de neve e snowman e Papai Noel e rena e o escambau. Todo mundo no rush automático de final de ano, metade reclamando que “passou rápido” e outra metade de 2018 “que não chega logo”, enquanto as luzes piscam, coloridas. Em ambos os casos a mente querendo o passado e o futuro e não o presente, único tempo em que as coisas acontecem. Ansiedade é o mal do milênio.

É relativamente conhecida a ideia de que a História é escrita pelo vencedor, o que significa que as versões dela adotadas oficialmente por países, povos e culturas têm bem mais a ver com os interesses de quem dita as regras naquele contexto do que com a realidade dos fatos propriamente dita. É muito mais difícil emprestar glamour e nobreza (conceitos tão abstratos quanto vazios) às rotinas entediantes da vida, à burocracia, afinal. Bem melhor colocar uma trilha sonora e um cenário, heróis e vilões, bem e mal, Superman versus Lex Luthor.

Legal, mas onde essa filosofia de boteco se aplica ao Natal, meu querido? Menos beating about the bush e mais Merry Christmas.

Então tá. Você tem uma árvore de Natal em casa? Eu não tenho, minha gata Gilda não gosta. Ou gosta demais para deixar uma delas inteira. Mesmo a árvore pequena que tínhamos na sala foi atacada furiosamente. Vira e mexe estava caída no chão ou havia várias bolinhas e enfeites mastigados e espalhados pela casa que acabavam pisoteados, chutados e jogados no lixo. Desistimos. Se você consegue ter uma, parabéns. Faça bom proveito.

Que mané “árvore”, porra nenhuma…

As origens da árvore como símbolo do Natal provavelmente têm a ver com o rigor do inverno em algumas regiões do Hemisfério Norte. Folhas verdes que duravam bastante tempo eram uma espécie de amuleto para alguns povos antigos, uma lembrança do poder do primeiro elemento da natureza a ser tido como um deus: o Sol ( leia em negrito abaixo na parte “digressão”).

As árvores dentro de casa durante o período mais frio do ano espantavam os maus espíritos pois eram um resquício da existência dessa divindade que as fazia existir e erguer-se do chão em direção aos céus. Outros povos consideravam as próprias árvores seres divinos. Uma cultura foi influenciando e incorporando elementos de outra até chegar na cristandade, quando tal crença foi de início combatida e por fim absorvida no melhor estilo “se não pode vencê-los junte-se a eles” que a Igreja Católica costuma adotar caso não consiga impor sua vontade integralmente. No caso, tipo “fala que o formato tem a ver com a ‘Santíssima Trindade’ que cola”. Política é a arte do possível e lá está seu pinheirinho de “prástico” piscando na sala até hoje, com algumas lâmpadas queimadas e uns enfeites meio tortos, capengas. Ficou uma bosta, aliás. Você também tem gato?

E o nosso querido Papai Noel, velho batuta? Originalmente uma mistura de São Nicolau (o termo foi sendo corrompido de Saint Nicholas até chegar em Santa Claus) e o deus germânico Odin, é o capitalismo de roupa vermelha e barba branca. Sua existência baseia-se em uma troca: bom comportamento por um presente, um regalito para ti. Criança pobre não adianta se comportar porque nem assim tem axé, criança rica recebe sua parte no trato de qualquer maneira. Nem precisa entrar no mérito da coisa.
Ainda assim o Papai Noel já fez parte do meu imaginário infantil e gosto do personagem. Particularmente do cara que se caracteriza como tal para ir a eventos com crianças pela brincadeira em si, pelo prazer de ser aquele ícone, aquele avatar. Acho bonito de verdade, principalmente se for um Noel daqueles bem toscos, vestido nuns TNT vermelhos e barba de algodão meio que descolando, suando em bicas no meio da criançada histérica (e em êxtase!). Um sujeito desses vai pro céu direto, sem escalas. Meu heroi. Já o da Coca-Cola eu não gosto. Nem de Coca-Cola eu gosto. Beba Coca-Cola.

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“-Ah, mas Papai Noel preto não existe!”

E tem ainda Jesus no Natal. A dimensão mística, espiritual do evento. Yeshua Ben Yossef e depois Yeshua Hamashia, o Cristo. Senhor e salvador dos cristãos de todas as confissões, origens e denominações. O Verbo Encarnado. O Filho do Homem. Leão Conquistador da Tribo de Judá. Cordeiro de Deus. No Ocidente estamos no final do ano 2017, contados a partir do seu nascimento. Não acho que precise de mais apresentações para você saber de quem estou falando. Não há nenhum registro histórico que ligue o Natal ao nascimento de Jesus, como há muito pouco registro histórico da própria existência de Jesus em si. Além disso as passagens da bíblia muitas vezes são metáforas, alegorias. Outras são inspiradas em textos antigos como a Epopeia de Gilgamesh. Está tudo aí. Quem busca, acha. Ao que bate, abrir-se-lhe-á.

Também se confunde tradição e cultura de um lugar onde a crença evoluiu com cânone religioso, dogma. Você não encontra bíblia alguma que mencione Melchior, Balthazar e Gaspar ou que diga quantos eram os “magos do Oriente” que foram estar com Jesus. No entanto, todos sabem sobre os Três Reis Magos e eles têm um dia no calendário católico, seis de janeiro. O fato é que afirmar que Yeshua Jesus nasceu naquele dia tem 1/365 chances de estar certo e foi inserido artificialmente em um contexto que já existia, o do Sol Invictus (depois copiado pelos césares), que tinha a ver com o solstício de inverno e os três dias em que o sol ficava “parado” ou “morto” no céu até começar a “voltar”, ou “ressuscitar”. Havia um culto ao deus persa Mitra associado a isso. Os romanos passaram a atrelar a tradição existente a Jesus no ano 354 da Era Cristã. Incorporaram a celebração e deram a ela novo contexto e sentido.

Sol Invictus
Sol Invictus, pique Coringão

Eu posso dizer de mim que sou cristão, no sentido de procurar absorver e praticar os ensinamentos de Jesus, de imitá-lo. Faço orações conforme Ele me ensinou com frequência. Acalma minha alma em muitas situações, me ampara, me direciona e me conforta. Mas não sou cristão de dogma, de irreflexão, de parcialidade. Sou buscador, não ovelha. Jesus não é meu nem de ninguém. Nem padre, pastor, sacerdote ou membro de qualquer código ou tradição. Pelo que eu consegui entender até agora seu ensinamento mais fundamental, aquele que faz com que todos os outros sejam possíveis, é “amar ao teu próximo como a ti mesmo”. Poucas palavras. Um universo inteiro de espiritualidade contido nelas. Quando você se percebe no outro, todo o seu comportamento reflete isso. Um círculo virtuoso se inicia.

Religião

Religião por si é uma estrutura essencialmente política. Ateus ou praticantes de cultos não-cristãos não são mais ou menos éticos e sociáveis que ninguém por questões metafísicas, mas por empatia e amor ou falta destes. Jesus (que a propósito era judeu) não disse “ame a outro cristão como a ti mesmo”. Disse para amar o próximo. Ponto final. Qualquer sinônimo de “próximo” se encaixa nessa versão, nessa língua. Conseguir fazer isso já te faz um ser iluminado, chapa, um Buda praticamente. Basta você se imaginar praticando o ensinamento no dia a dia. Não precisa fazer mais nada, só isso já alimenta o ciclo de encontros, afetos, respeitos, cuidados. E aí você vive, evolui, ascende, se eleva.

A fé sem obras é morta, você tem que exercê-la, praticá-la. O resto é querer pegar Jesus pra si. Fundamentalismo irracional e fascistóide, farisaísmo. Só serve pra fomentar ódios, divisões, rancores e incompreensão. Não gosto, não aprovo e não colaboro. Sou a favor da vida: cada um cuidando da sua. Primeiro tirar a trave do meu olho pra conseguir enxergar o cisco no olho do meu irmão. De sangue, de fé ou de existência. Sem rótulos nem código de barras espiritual. Quem sou eu para ter alguma autoridade sobre a espiritualidade alheia? Quanta arrogância ignorante há em quem acha que tem? Cego levando outro cego, caem os dois no buraco.

Gosto da data em si, do que o Natal representa para mim. Estar em paz consigo e com os demais, reunido em harmonia com pessoas importantes ou mesmo sozinho, em reflexão e prática desse ensinamento do Cristo, o amor incondicional. O amor que você dá volta pra você. O que você não dá também. Se te pedirem a capa, nem a túnica recuses. Se te faz andar uma milha, vai com ele duas.

Espero que este texto tenha te alcançado em um momento de paz interior e tranquilidade ou contribuído para que eles se instalem. Seja lá qual for o significado que você atribui ao Natal, que essas palavras possam lhe ter alguma utilidade, nem que seja voltar ao momento da sensação antes da interpretação que a mente dá a ela, transformando o que é positivo em estímulo, negativo em repulsa e neutro em ignorância. Antes que qualquer um desses três aspectos se forme, vedana.

Feliz Natal!

DIGRESSÃO: a afirmação de que “a humanidade inventou deuses para si” não é desrespeitosa com a religião de quem quer que seja, tampouco exclui a ideia da existência de Deus. Não tenho interesse algum, autoridade ou conhecimento para dar palpite, orientação ou parecer de qualquer natureza nesse campo. Estou apenas constatando um fato. Os povos primitivos atribuíam o calor, a luz, o alimento e todo o conforto e perspectivas que o Sol oferecia ao poder de um deus (o que não deixa de ser verdadeiro em um certo sentido).

Existe uma verdade que independe do nome ou forma que as pessoas dão aos seus deuses e ela sempre se manifesta da mesma maneira em todos os lugares e para todos os seres. Queira você (ou tenha sido condicionado a) chamar seu deus de D’us, Jeová, Jah, JHVH (Tetragammaton), Adonai, A Deusa, Allah, Javé, Olorum, Zambi, Brahman, Consciência Cósmica, El, Odin, A Lei, Zeus ou Maradona, a água continua molhada, as coisas sempre caem pra baixo, a noite é escura, o fogo é quente, o arco-íris tem sete cores e a terra gira em torno do Sol. O funcionamento inexorável dos processos do universo, o todo, é também conhecido como Tao, ele mesmo uma forma de se tentar entender Deus, um mistério tão colossalmente grandioso, além do tempo e do espaço, que eu tenho a impressão que qualquer pessoa que tente esquadrinhá-lo usando uma ferramenta tão limitada quanto a mente humana inevitavelmente estará “chutando” e diminuindo o conceito pela simples tentativa de atribuí-lo um nome e uma forma. Mesmo ateus e agnosticos muitas vezes não rejeitam a ideia de uma força causal, criadora em si, mas a atribuição de uma personalidade a ela.

Convenhamos (como diz o místico yogi indiano Sadhguru): se você fosse um búfalo, como seria o seu deus? Certamente um búfalo gigante, talvez com quatro chifres. Também vejo sentido na afirmação que “se os animais tivessem uma religião, o ser humano seria o diabo”. Ou não? 

Toda imagem que qualquer cultura consegue fazer de Deus é uma versão exagerada dela mesma, porque é assim que se imagina conseguir chegar mais próximo de compreendê-lo. O fato é que nos achamos muito especiais e inteligentes, mas sabemos muito pouca coisa sobre quase nada. De todo modo, “a religião certa é aquela que te faz uma pessoa melhor“, mesmo que ela seja nenhuma ou um pouco de cada.