Pessoas invisíveis

Logo cedo fui passar por uma porta giratória de um grande condomínio de escritórios e um senhor dos seus sessenta anos estava limpando os vidros. Notou minha distração por eu estar com a cara enfiada no celular feito os vários zumbis do Walking Dead em que se transformou caminhar por SP, percebeu o que eu faria e disse: “Bom dia! O senhor vai por ali por favor?”, apontando para uma outra porta de vidro que estava escancarada, logo atrás da tela do meu telefone. Foi quem primeiro falou comigo hoje na rua. Uniforme puído herdado de alguém, gestual rápido e determinado de trabalhador atarefado e olhos cansados de quem faz aquilo todo dia, o dia todo. Ao entrar no prédio, os mesmos bouncers de sempre: ternos pretos com ombreiras estilo anos 80, walkie-talkies e sua linguagem de QRA´s, QAP´s e QRU´s. Não entendo esses códigos, TKS por não me ensinar. Recepcionistas com uniformes iguais, rostos diferentes e frases prontas, ensaiadas e repetidas o dia todo. Contas para pagar, desrespeitos para tolerar, sapos e mais sapos para engolir. Mais do mesmo.

Subo até o nono andar. Não tenho um crachá para cruzar a porta travada da empresa dos USA, land of the free and home of the brave. Uma faxineira magra e simpática aperta o passo até mim, para que eu não espere muito. “Vou abrir pra você, professor. Quer café?”. Quero, quero muito. Nunca quis tanto, na verdade. A noite mal dormida provoca bocejos, olhos vermelhos e corpo arqueado. Cafeína transforma essa forma decadente em Mun-Rá, o de vida eterna. Salvo pela senhorinha do café, como muitas vezes em muitos lugares.

Tenho o privilégio de ser visto pelos invisíveis. Os pintados de cinza, azul ou preto. Monocromáticos, monossilábicos, monofásicos. Aqueles que em inglês a gente diz que são “taken for granted“. É como se fossem parte da paisagem. O chão está limpo, as luzes todas acesas, os equipamentos funcionando.  Nem parece que sem eles nada acontece. Acendem luzes, consertam defeitos, limpam espaços, destravam portas, fazem café, carregam peso, intermediam encontros, organizam filas, controlam acesso, repõem materiais. Invariavelmente dentro de roupas discretas, foscas, escuras, pra que fiquem mais invisíveis ainda. Aprendem a olhar de baixo pra cima, ou guardam seus olhares para quando não correm o risco de cruzar com os dos outros. Sempre olham e sempre veem, no entanto. Estão em outra frequência.

Cresci em ambientes e situações nos quais eles não estão soterrados sob seus crachás e tergais. Aquele porteiro preto que não recebe de volta metade dos “bons dias” que profere é também o cara que resolve no futebol de várzea no domingo, por exemplo. Pessoas vão até o campo só pra vê-lo. O futebol é uma linguagem. Suas qualificações, origem ou cor servem para nada diante do domínio debochado dos espaços e tempos que um cara desses tem. Você “não acha nem pra bater”, como se diz. Vai levar um chapéu, um rolinho. Vai levar gols e provavelmente perder o jogo. Ali ele exerce sua plenitude, sua vingança. Só restam duas alternativas: bater palma ou ir brincar de outra coisa. Da mesma forma, a pessoa que limpa os banheiros é o esteio de uma associação comunitária ou religiosa. É o pastor daquela igrejinha humilde que, a despeito do uso torto que alguns fazem de religião, conforta almas machucadas e salva vidas de pessoas tão invisíveis quanto ele. Ou a tiazinha da cozinha de uniforme azul e branco e cabelo preso, mãe de santo da Umbanda que atende de graça os que procuram conforto naquela fé, ela mesma tão discriminada e incompreendida pelos mesmos motivos: por ser preta, por ser brasileira, por ser humilde. E o pessoal do samba? E os que levam o sopão e agasalho pros que estão na rua, sem abrigo, comida e dignidade? Acima de tudo, os que suportam as humilhações e más-vontades cotidianas só para conseguir manter suas famílias com o mínimo de proteção e perspectiva (o que já é um feito quase que milagroso para tanta gente).

Muitas vezes, esperando por alguém atrasado ou por causa de um compromisso cancelado qualquer, fico observando essas pessoas trabalhar. O que me impressiona é o contraste. Não muito mais perceptível que uma porta automática em um contexto, eixo dos acontecimentos em outro. Excluído de um “bom dia” de segunda à sexta, Sol do sábado e domingo. Essas pessoas são as que fazem o mundo andar. São as que criam, nutrem, ensinam, preservam, acreditam, compram, se submetem. Todo e qualquer governo que se arroga o direito de existir deveria ser para elas. E se você acha piegas ou clichê o que estou dizendo, é muito provável que esteja certo. Quando alguém se propõe a escrever textos públicos corre o risco de ficar sem assunto, falar besteira e errar a mão no que escreve. Risco calculado, “ossos do ofício”. Mesmo assim, faça uma experiência: olhe para essas pessoas no rosto, “na bolinha do olho”. Perceba o quanto de você há nelas. Sinta a alma que existe atrás da expressão mecânica, alugada, social. É o que se busca expressar com um cumprimento usado na Ásia e que é normalmente associado ao Yoga, mas que na verdade é apenas uma questão de respeito no convívio: as mãos espalmadas postas à frente do peito com os dedos para cima mostrando o todo, o ligeiro curvar pra frente e a saudação opcionalmente falada que acompanha o gesto: “saúdo-te”. Namaste.

Sua atenção tem o poder de salvar o dia de alguém. Algumas vezes muda o curso de uma vida. Ou de duas, três e muitas mais, se você se permitir.

Bom dia, boa tarde, boa noite!

 

O errado é o novo certo

“Ia pro trabalho, cansado / às seis da manhã / ouvia no seu rádio calcinhas / e sutiã”

Circular por São Paulo é um negócio louco: pode ser animador, deprimente ou automático, dependendo do gosto do freguês. Veja os workaholics corporativos, por exemplo. Sempre imersos em seus deadlines, feedbacks, workshops, BU’s, BI’s, bottom lines e haja termos em inglês para dar uma roupagem mais business-friendly para o fato de trabalharem feito abelhas, run-of-the-mill. SP tende a ser ferramenta. O dinheiro está aqui, os contatos, as pessoas. A máquina azeitada e sempre em funcionamento do capitalismo selvagem. Food trucks gourmetizam um prosaico pão com salsicha a ponto de ele virar um Royal Zig Zig Sputnik Master Blaster Hot Dog Power Sandwich. Assim você paga cinco vezes mais por ele e esquece um pouco que está se alimentando mal do mesmo jeito. É mais chique chamar alguma quase-comida de junk food do que de “mas que porra é essa que você tá comendo?”. English, dude. Deal with it.

Hoje de manhã, madrugador que sou, estava circulando pelo Morumbi já pelas sete horas perto do Shopping. Começo às oito por ali, mas experimente tentar cruzar a ponte do Morumbi nesse horário e deixe de ter dúvidas sobre a existência do inferno. Tudo bem, jogado aos seus pés eu sou mesmo exagerado e adoro um amor inventado. Ainda assim, vai indo que eu não vou. Prefiro chegar mais cedo mesmo e ler algo na internet, tomar um café ou adiantar algum trabalho a ficar dentro de um carro preso no engarrafamento.

Dei de cara naquela hora com uma cena daquelas que acorda o sujeito melhor que qualquer café melado da tia da Kombi na rua, vendido por um dinheiro e meio e ameaçado de confisco pelo bar da frente que reivindica seu direito de vender café colombiano com espuminha cor-de-rosa e que é “amigo” do fiscal que por sua vez é amigo dos amigos e tem-um-qualquer-aí-pra-mim-senão-vai-ficar-difícil-de-você-trabalhar-porque-essa-área-é-minha-e-todo-mundo-paga-não-é-permitido-mas-a-lei-sou-eu-e-já-era-senhora. Outra história, no entanto.

Um grito: “PEGA!”. Um cara de seus vinte e cinco anos correndo feito o Usain Bolt passa a mil e setecentos de jeans e jaqueta vermelha, seguido de outros dois. Outro grito, dessa vez de dentro do ônibus que passava: “QUEBRA ELE!” A atmosfera do lugar mudou em milisegundos, a tensão substituiu o marasmo daquela quinta-feira repetida, estilo Groundhog Day.

“Ladrão”, meu instinto me avisou. “Foi roubar e se deu mal. É o preço.” Havia uma fila de carros naquele trânsito cagado do lugar, e foi quando os motoristas de dois deles meteram a cabeça pra fora e se juntaram ao coro de “ESFOLA! MUTILA! EMPALA!” e outras “solicitações” que eu percebi que todo mundo meio que pensou a mesma coisa. A diferença foi que eu e uns poucos outros apenas queríamos sair dali. Eu não tinha certeza se o cara era ladrão, se os que tentavam alcançá-lo é que eram ou nenhuma das duas coisas. Se fosse, concordo que segurassem o cara pra polícia chegar e fazer seu trabalho e entendo perfeitamente que, no calor do momento, acaba sobrando o chamado “salve”. Não se toma as posses alheias e se espera flores amarelas em retribuição. Vai apanhar mesmo. Mas não ser mais errado que o errado pra querer ser o certo, que foi o que aconteceu.

Aqueles homens bem vestidos em seus carros não tinham a menor ideia do que estava acontecendo ali. Ainda assim seu veredito foi instantâneo: morte e forca e linchamento e fogueira e cheque-mate e “vamo que vamo”. Os homens continuaram correndo por entre os carros, até que um dos perseguidores acertou um chute nas pernas do cara que fugia, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse no asfalto, a uns trinta metros de mim. Perdeu. Foi alcançado e impiedosamente espancado, de tal modo que eu virei a cabeça para não ver e caminhei pra longe dali. O infeliz deve estar apanhando até agora.

Daí que vem minha inquietação: estava tudo transcorrendo pacificamente, os códigos tácitos de convivência sendo cumpridos com seus bons dias e com licenças e pode passar e por favor e nossa que tempo louco até que um corre-corre aflorou a barbárie e os distintos cavalheiros se transformaram em bestas-feras agentes da vingança, que poderia até mesmo ser contra coisa nenhuma. Não é a opinião ou o sentimento em si, mas a presunção automática do que está acontecendo e a reação que se tem a partir disso: com os olhos cheios de ódio, babando em suas gravatas caras, encolerizados pela atuação de um ladrão que eles sequer sabiam se de fato o era e se tinha feito algo. Os envolvidos na correria tinham condições de fazer julgamentos e acertar ou errar a partir disso. Os outros só tinham ódio. Quem se importa?

É um padrão. Se um motoboy cai na pista, um enxame deles se aglomera em volta da cena em segundos. Qualquer pessoa que esteja envolvida na queda ou mesmo que tenha parado para ajudar provavelmente será hostilizada, possivelmente agredida. Estando certa, errada ou tendo sido envolvida na situação. Vira motoboy x não-motoboy. Por outro lado esses profissionais sofrem o desprezo de muitos motoristas, que não apenas não colaboram com eles mas chegam a jogar os carros pra cima, fechar e impedir a passagem de propósito. O mesmo quando uma pessoa faz alguma barbeiragem no trânsito. Passa a ser inimigo mortal de alguém imediatamente. A atitude desrespeitosa precisa ser “punida” de preferência com um desrespeito maior ainda.

As pessoas andam intolerantes, as relações são apenas utilitárias, as interações obrigatórias, impessoais e protocolares. Há uma mistura perigosa entre o que é justiça e o que é vingança, a Lex Talionis parece ser cada vez mais a norma e respeito e empatia genuínos estão bastante escassos. Tudo isso impulsionado por stress galopante, competição desleal, drogas legais e ilegais, álcool, solidão, frustrações em contraste com expectativas e maus exemplos das chamadas autoridades constituídas na política institucional.

O errado, chapa, é o novo certo. Como já li em algum lugar, “em tempos de ódio é bom andar amado”. Consegue?