A Paralização dos Caminhoneiros

(texto originalmente postado no Facebook)

1 – É sempre bom lembrar que não faço questão da amizade forçada de ninguém. Se gosta de mim bem, se não gosta também. Vou na linha “seja uma boa pessoa, mas não perca tempo provando”. Se quiser sair, vou continuar tratando com respeito desde que me respeite.

2 – Os caminhoneiros estão do lado certo, lutando por uma causa justa. Isso é uma “faca de dois legumes”, como diria Vicente Matheus. Defender uma causa justa pressupõe a responsabilidade de manter uma conduta compatível com ela. Se sua pauta extrapola a reivindicação inicial e desanda pro conflito ideológico e violência por violência, tanto tal pauta já se perdeu quanto seu movimento ficou enfraquecido. A falação de merda no Facebook está em níveis estratosféricos. Só hoje eu já vi 3 intervenções militares, 5 golpes de Estado, algumas mortes a esmo e vários vídeos de anos atrás convocando para manifestações que já aconteceram há tempos. No seu exagero habitual, geral Brasil já elevou o conceito de “Fake News” a um novo patamar. Essa esquizofrenia toda confunde mais que ajuda e pior, desacredita o próprio movimento. Quando você vê nego chamando Rachel Sheherazade de “comunista” é porque o cérebro já foi desligado da fala faz tempo.

3 – “Esquerda”, “Direita” e “Centro” são conceitos, formas de se interpretar as relações sociais. Não são grupos, pessoas, lugares. Acusar um ou outro disso ou daquilo é um tiro no pé numa hora dessas, em que fica claro que se trata de o governo contra a população. Você consegue matar e prender pessoas, não ideias. Na verdade, muitas vezes acaba fortalecendo seu inimigo através de injustiça, quando qualquer pessoa vê que a realidade não corresponde às explicações dadas. O caso de Lula, encarcerado injustamente nesse exato instante apenas para não vencer a eleição de lavada é um ótimo exemplo. Aliás, não adianta você xingar minha mãe, bater sua cabeça na parede, tirar as calças e pisar em cima, cagar na mão e jogar nas pessoas etc. Sua raiva apenas demonstra sua falta de argumentos, sua intolerância é apenas pobreza de espírito. Sem contar que eu não estou nem um pouco preocupado com se alguém acha que sou comunista, viado, maconheiro, Opus Dei, macumbeiro, extraterrestre, hippie ou qualquer outra coisa que signifique o “não-eu”, que é basicamente a entidade necessária no imaginário das pessoas para poder atribuir a culpa do que dá errado em alguém e não assumir a própria responsabilidade. Sou o que sou e já era. Mudo de opinião constantemente e sem pudor algum, desde que faça sentido para mim naquele momento. Não tenho preguiça de pensar.

4 – O Facebook está parecendo comercial de Viagra. O que tem de velho brocha de farda falando besteira, querendo posar de “redentor da nação brasileira”, fazendo cara de mau dentro de uma farda velha cheirando a naftalina é uma coisa impressionante. A maioria deles nunca deu uma porra de um tiro pra valer na vida e vive de uma hierarquia carcomida de uma instituição incompetente (veja a guarda das fronteiras e a atuação deles agora no RJ , por exemplo) e frágil chamada Exército. Só estão inflamando ódio e confusão. Os militares não tem condições de cuidar de dois cachorros ao mesmo tempo, que dirá de um país inteiro. Chega a ser patético ver os tiozões lá, tudo de cabelo branco e suas panças enormes, posando de “Capitão América”. Ridículo, vergonha alheia. Lembra a sessão do impeachment tabajara de Dilma Rousseff, quando assistimos horrorizados ao festival de bizarrice que é a Câmara dos Deputados.

5 – A corrida aos postos atrás de gasolina é apenas a repetição de um padrão de comportamento típico desse país. A Globo anuncia o caos e geral corre pra rua, fica horas em filas intermináveis, sai na porrada animalescamente com quem atravessar seu caminho e vira não muito mais que um bicho acuado. Duas semanas depois, esquece tudo e volta a ser estuprado pelo governo. O exemplo mais recente é do tal surto de febre amarela, que fez um monte de gente passar o dia em filas quilométricas para tomar vacina e em seguida foi solenemente esquecido, como se nunca tivesse acontecido. Ou alguém lembra da última vez que ouviu falar do assunto? A falta de consistência, a ausência de uma conduta e o individualismo histórico do brasileiro típico são grandes problemas que temos.

6 – Comerciantes (de combustível, alimentos ou qualquer item de primeira necessidade) que se aproveitam do momento crítico para lucrar financeiramente são tão ou mais canalhas que os políticos desonestos. Adotam as mesmas práticas, têm a mesma ética de se aproveitar dos outros sem nem corar. Merecem o mesmo tratamento. Vai pedir “Brasil sem corrupção” pra lá, tiozão!

7 – Quem não aprende com as situações que a vida impõe está condenado a repetir o erro até aprender. Moral é de fora pra dentro. Ética é de dentro pra fora. Um filósofo importantíssimo já disse que “a História se repete. Primeiro como tragédia, depois como farsa.” Sim, ele. Aliás, várias de suas teorias se comprovam historicamente ano após ano, o que explica o fato de toda a propaganda e demonização contra ele surtirem zero efeito. Simplesmente porque ele sabia o que estava dizendo. Karl Marx, obviamente.

8 – A propósito: não sou comunista nem petista, mas sei que não sou melhor ou tenho mais direito do que quem é. Independentemente de matiz ideológica, respeito só se obtém quando se respeita o outro. Não deu, não vai receber. E ponto.

9 – Em 2013 os protestos começaram de forma legítima e desandaram por falta de uma pauta a seguir. Esse papo de “o povo brasileiro convoca” fica muito bonito na internet, mas só serve pra criar uma massa acéfala, amorfa e facilmente manipulável. Foi lá atrás que começou esse papo de “Coxinha x Mortadela”. Enquanto eu te chamo de um e você retruca me chamando do outro, os políticos sujos passam a mão nas nossas bundas sem distinção.

10 – Quem tem heroi é filme da Marvel. Caminhoneiro é caminhoneiro, professor é professor, político é político e o Palmeiras não tem mundial. #SomosTodosCaminhoneiros é muita gente, me inclua fora dessa. Cocaína, armas, contrabando em geral e prostituição infantil também chega tudo de caminhão. Apoio, louvo e incentivo a ação deles e estou à disposição para ajudar, mas nenhum deles é heroi meu poha nenhuma.

11 – Aja com o coração, mas leve o cérebro junto.

12 – Prefira “unfriend” a “unfollow”. Thank you very much indeed.

13 – “Hay gobierno? Soy contra!”, caso você não tenha entendido a foto que ilustra este post.

14 – Como diria o Sakamoto: “falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto”.

15 – Não quero que ninguém pense como eu. Quero apenas que as pessoas pensem.

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Ou vai ou vai

Há uma frase atribuída a Rumi que diz que “à medida que você começa a andar no caminho, o caminho aparece”. Sempre gostei desta ideia, não sei se por acreditar na afirmação em si ou por seu otimismo. O fato é que, desde que comecei este blog, os pensamentos que me estimularam a fazê-lo paracem ter minguado, como se eu mesmo colocasse impedimentos ou censurasse o que tenho a dizer.

É estranho, porque em geral escrevia no Facebook e na maioria das vezes de uma vez só, em poucos minutos. Basicamente publicava um “textão” e só depois de um tempo exposto na timeline que me preocupava em saber se ele precisava de alguma edição, correção ortográfica e que tais. A própria razão de ter começado aqui foi ter muita coisa que eu gostaria de registrar e poucos recursos para fazê-lo. Era coisa que eu achava relevante que lá não caberia, era meio que óbvio migrar este tipo de texto para cá.

Acontece que a partir de então, me.veio aquele clássico bloqueio criativo. Não que eu seja particularmente talentoso para isso ou o que eu tenha a dizer seja algo importante, mas o próprio processo de escrever sobre qualquer coisa que seja se tornou um parto, um negócio difícil de verdade. Naturalmente, passei a investigar de onde isso vem.

Talvez tenha a ver com o fato de que se estar emocionalmente envolvido com algo faz com que as ideias fluam mais naturalmente. A forma como uso o Facebook já possibilita isso: sigo muitas agências de notícias de alguns países, diversas vertentes ideológicas e espirituais. Muitas vezes acompanho de perto algum político que não gosto justamente para ter mais base para combatê-lo. Além disso, tento driblar o tal “algoritmo do Facebook” que acaba meio que moldando a timeline das pessoas ao que elas querem ver e faz com que sua percepção dos fatos fique cada vez mais parecida com suas crenças e não o processo natural, que seria justamente o contrário: opiniões e convicções devem partir de uma análise que seja a mais completa possível do que acontece, a partir da qual posições e parcialidades tem mais fundamento e menos chance de ser apenas barulho, tentativa de chamar a atenção por si só. Então, naquela plataforma, era ler algo e postar em seguida, no calor do momento.

Aqui, pelo menos até agora, o processo é diferente. Eu já começo me impondo a obrigação: “preciso escrever algo no blog”. Não sei de onde surge essa imposição, mas ela é limitante. Ao por na cabeça que “preciso” escrever, qualquer ideia que surgiria naturalmente e poderia perfeitamente servir de entretenimento para quem gosta de ler e vem aqui por isso simplesmente desaparece, escapa igual água entre os dedos. Além de eu muitas vezes me meter a usar “tempo livre” para isso (leia-se quando não tenho algo melhor pra fazer, o que reduz o blog à pura encheção de linguiça, praticamente um “tricô mental”). Escrever é tempo ativo, não livre.

Um exemplo é este mesmo texto: comecei a escrevê-lo porque tive uma aula cancelada de última hora, pensei que seria uma boa forma de usar o tempo que ganhei até a próxima e me sentei com o computador para dizer algo. Já se foram alguns parágrafos, eu só enrolei até aqui e não disse coisa com coisa que prestasse. Pior que eu sei disso. Você que está aqui comigo agora provavelmente já notou que está chato, arrastado, vazio. Meus textos costumam ser mais nervosos, mais emocionados. Pelo lado bom, posso te dizer que você está acompanhando uma pessoa em uma busca sincera por inspiração, lutando dignamente contra seu cérebro embotado e preguiçoso, negligente de qualquer colaboração. A má notícia é que cada vez mais me convenço que tenho que estar muito puto, muito feliz ou muito magoado para escrever. Qualquer emoção serve, a falta delas é que não.

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Fui solenemente expulso da sala

Daí me veio à mente que uma coisa que me chama muito à atenção sobre se expressar criativamente é o fato de que sem raiva, tesão, amor, revolta, libido, inconformismo, inquietude, desilusão e outros sentimentos e emoções intensos, muito pouca coisa pode ser dita ou feita. Nietzsche dizia que “é preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Uma versão mais acessível é “porque ninguém começa uma história com ‘…outro dia eu estava tomando leite e…'”. O verbo vem da ira, o “causo” engraçado do bar vem do álcool. Faz todo o sentido.

Entendo que eu esteja em uma fase de transição (sempre estamos, mas algumas vezes ela fica mais nítida). Não mais bebo ou uso qualquer substância “estupefaciante”, passei a encarar a espiritualidade de uma forma mais intuitiva do que dogmática e muitos valores que defendi hoje me parecem pálidos, fracos, sem razão de ser. Metamorfose ambulante, salve Raulzito! Não que isso tenha me anestesiado emocionalmente ou brutalizado, pelo contrário: minha percepção está mais aguçada, minha saúde melhor e meu ego tem sido cada vez mais fácil de educar. Apenas acho que ainda tenho que aprender mais sobre quais estímulos valem a pena seguir e quais não, quanto barulho estou disposto a manipular e quanto do meu próprio nonsense eu já tenho consciência.

Essa zona nebulosa faz com que, ao mesmo tempo em que goste que as pessoas venham ler meus textos pelo simples prazer que elas têm nisso, eu sinta que escrever só para dar satisfação é um negócio meio pedante, meio babaca. Só pra dizer que tem um blog com um número “x” de textos, “y” de visitas e “z” de elogios. Vários amig@s dizem que gostam do que escrevo, mas saber usar as palavras é completamente inútil quando não se tem o que dizer. Gosto de ao menos ter a ilusão de que meus textos são relevantes para alguém, de alguma forma. Nesses termos, não consigo sentir isso.

Este texto que você está lendo não é nada além de um esforço em sair da inércia, “por o blog para andar”, buscar inspiração lá no fundo do cérebro e acreditar na máxima do primeiro parágrafo: …o caminho aparece”. Não apareceu até aqui, mas no próximo texto a gente vê o que dá, continuo acreditando.

Por hora, vai ficar mais na intenção do “exorcismo” mesmo, de sacudir a poeira deste blog, de voltar aqui. Sabe no futebol, quando o atacante fica um tempo sem marcar e depois mete um gol de canela, todo feio, mas que serve pra “tirar a zica”? Então, este texto é isso. Que desbloqueie, solte, flua, ande. Assim é.

“Não importa o quanto você vá devagar desde que não pare.” – Confúcio

Pessoas invisíveis

Logo cedo fui passar por uma porta giratória de um grande condomínio de escritórios e um senhor dos seus sessenta anos estava limpando os vidros. Notou minha distração por eu estar com a cara enfiada no celular feito os vários zumbis do Walking Dead em que se transformou caminhar por SP, percebeu o que eu faria e disse: “Bom dia! O senhor vai por ali por favor?”, apontando para uma outra porta de vidro que estava escancarada, logo atrás da tela do meu telefone. Foi quem primeiro falou comigo hoje na rua. Uniforme puído herdado de alguém, gestual rápido e determinado de trabalhador atarefado e olhos cansados de quem faz aquilo todo dia, o dia todo. Ao entrar no prédio, os mesmos bouncers de sempre: ternos pretos com ombreiras estilo anos 80, walkie-talkies e sua linguagem de QRA´s, QAP´s e QRU´s. Não entendo esses códigos, TKS por não me ensinar. Recepcionistas com uniformes iguais, rostos diferentes e frases prontas, ensaiadas e repetidas o dia todo. Contas para pagar, desrespeitos para tolerar, sapos e mais sapos para engolir. Mais do mesmo.

Subo até o nono andar. Não tenho um crachá para cruzar a porta travada da empresa dos USA, land of the free and home of the brave. Uma faxineira magra e simpática aperta o passo até mim, para que eu não espere muito. “Vou abrir pra você, professor. Quer café?”. Quero, quero muito. Nunca quis tanto, na verdade. A noite mal dormida provoca bocejos, olhos vermelhos e corpo arqueado. Cafeína transforma essa forma decadente em Mun-Rá, o de vida eterna. Salvo pela senhorinha do café, como muitas vezes em muitos lugares.

Tenho o privilégio de ser visto pelos invisíveis. Os pintados de cinza, azul ou preto. Monocromáticos, monossilábicos, monofásicos. Aqueles que em inglês a gente diz que são “taken for granted“. É como se fossem parte da paisagem. O chão está limpo, as luzes todas acesas, os equipamentos funcionando.  Nem parece que sem eles nada acontece. Acendem luzes, consertam defeitos, limpam espaços, destravam portas, fazem café, carregam peso, intermediam encontros, organizam filas, controlam acesso, repõem materiais. Invariavelmente dentro de roupas discretas, foscas, escuras, pra que fiquem mais invisíveis ainda. Aprendem a olhar de baixo pra cima, ou guardam seus olhares para quando não correm o risco de cruzar com os dos outros. Sempre olham e sempre veem, no entanto. Estão em outra frequência.

Cresci em ambientes e situações nos quais eles não estão soterrados sob seus crachás e tergais. Aquele porteiro preto que não recebe de volta metade dos “bons dias” que profere é também o cara que resolve no futebol de várzea no domingo, por exemplo. Pessoas vão até o campo só pra vê-lo. O futebol é uma linguagem. Suas qualificações, origem ou cor servem para nada diante do domínio debochado dos espaços e tempos que um cara desses tem. Você “não acha nem pra bater”, como se diz. Vai levar um chapéu, um rolinho. Vai levar gols e provavelmente perder o jogo. Ali ele exerce sua plenitude, sua vingança. Só restam duas alternativas: bater palma ou ir brincar de outra coisa. Da mesma forma, a pessoa que limpa os banheiros é o esteio de uma associação comunitária ou religiosa. É o pastor daquela igrejinha humilde que, a despeito do uso torto que alguns fazem de religião, conforta almas machucadas e salva vidas de pessoas tão invisíveis quanto ele. Ou a tiazinha da cozinha de uniforme azul e branco e cabelo preso, mãe de santo da Umbanda que atende de graça os que procuram conforto naquela fé, ela mesma tão discriminada e incompreendida pelos mesmos motivos: por ser preta, por ser brasileira, por ser humilde. E o pessoal do samba? E os que levam o sopão e agasalho pros que estão na rua, sem abrigo, comida e dignidade? Acima de tudo, os que suportam as humilhações e más-vontades cotidianas só para conseguir manter suas famílias com o mínimo de proteção e perspectiva (o que já é um feito quase que milagroso para tanta gente).

Muitas vezes, esperando por alguém atrasado ou por causa de um compromisso cancelado qualquer, fico observando essas pessoas trabalhar. O que me impressiona é o contraste. Não muito mais perceptível que uma porta automática em um contexto, eixo dos acontecimentos em outro. Excluído de um “bom dia” de segunda à sexta, Sol do sábado e domingo. Essas pessoas são as que fazem o mundo andar. São as que criam, nutrem, ensinam, preservam, acreditam, compram, se submetem. Todo e qualquer governo que se arroga o direito de existir deveria ser para elas. E se você acha piegas ou clichê o que estou dizendo, é muito provável que esteja certo. Quando alguém se propõe a escrever textos públicos corre o risco de ficar sem assunto, falar besteira e errar a mão no que escreve. Risco calculado, “ossos do ofício”. Mesmo assim, faça uma experiência: olhe para essas pessoas no rosto, “na bolinha do olho”. Perceba o quanto de você há nelas. Sinta a alma que existe atrás da expressão mecânica, alugada, social. É o que se busca expressar com um cumprimento usado na Ásia e que é normalmente associado ao Yoga, mas que na verdade é apenas uma questão de respeito no convívio: as mãos espalmadas postas à frente do peito com os dedos para cima mostrando o todo, o ligeiro curvar pra frente e a saudação opcionalmente falada que acompanha o gesto: “saúdo-te”. Namaste.

Sua atenção tem o poder de salvar o dia de alguém. Algumas vezes muda o curso de uma vida. Ou de duas, três e muitas mais, se você se permitir.

Bom dia, boa tarde, boa noite!

 

O errado é o novo certo

“Ia pro trabalho, cansado / às seis da manhã / ouvia no seu rádio calcinhas / e sutiã”

Circular por São Paulo é um negócio louco: pode ser animador, deprimente ou automático, dependendo do gosto do freguês. Veja os workaholics corporativos, por exemplo. Sempre imersos em seus deadlines, feedbacks, workshops, BU’s, BI’s, bottom lines e haja termos em inglês para dar uma roupagem mais business-friendly para o fato de trabalharem feito abelhas, run-of-the-mill. SP tende a ser ferramenta. O dinheiro está aqui, os contatos, as pessoas. A máquina azeitada e sempre em funcionamento do capitalismo selvagem. Food trucks gourmetizam um prosaico pão com salsicha a ponto de ele virar um Royal Zig Zig Sputnik Master Blaster Hot Dog Power Sandwich. Assim você paga cinco vezes mais por ele e esquece um pouco que está se alimentando mal do mesmo jeito. É mais chique chamar alguma quase-comida de junk food do que de “mas que porra é essa que você tá comendo?”. English, dude. Deal with it.

Hoje de manhã, madrugador que sou, estava circulando pelo Morumbi já pelas sete horas perto do Shopping. Começo às oito por ali, mas experimente tentar cruzar a ponte do Morumbi nesse horário e deixe de ter dúvidas sobre a existência do inferno. Tudo bem, jogado aos seus pés eu sou mesmo exagerado e adoro um amor inventado. Ainda assim, vai indo que eu não vou. Prefiro chegar mais cedo mesmo e ler algo na internet, tomar um café ou adiantar algum trabalho a ficar dentro de um carro preso no engarrafamento.

Dei de cara naquela hora com uma cena daquelas que acorda o sujeito melhor que qualquer café melado da tia da Kombi na rua, vendido por um dinheiro e meio e ameaçado de confisco pelo bar da frente que reivindica seu direito de vender café colombiano com espuminha cor-de-rosa e que é “amigo” do fiscal que por sua vez é amigo dos amigos e tem-um-qualquer-aí-pra-mim-senão-vai-ficar-difícil-de-você-trabalhar-porque-essa-área-é-minha-e-todo-mundo-paga-não-é-permitido-mas-a-lei-sou-eu-e-já-era-senhora. Outra história, no entanto.

Um grito: “PEGA!”. Um cara de seus vinte e cinco anos correndo feito o Usain Bolt passa a mil e setecentos de jeans e jaqueta vermelha, seguido de outros dois. Outro grito, dessa vez de dentro do ônibus que passava: “QUEBRA ELE!” A atmosfera do lugar mudou em milisegundos, a tensão substituiu o marasmo daquela quinta-feira repetida, estilo Groundhog Day.

“Ladrão”, meu instinto me avisou. “Foi roubar e se deu mal. É o preço.” Havia uma fila de carros naquele trânsito cagado do lugar, e foi quando os motoristas de dois deles meteram a cabeça pra fora e se juntaram ao coro de “ESFOLA! MUTILA! EMPALA!” e outras “solicitações” que eu percebi que todo mundo meio que pensou a mesma coisa. A diferença foi que eu e uns poucos outros apenas queríamos sair dali. Eu não tinha certeza se o cara era ladrão, se os que tentavam alcançá-lo é que eram ou nenhuma das duas coisas. Se fosse, concordo que segurassem o cara pra polícia chegar e fazer seu trabalho e entendo perfeitamente que, no calor do momento, acaba sobrando o chamado “salve”. Não se toma as posses alheias e se espera flores amarelas em retribuição. Vai apanhar mesmo. Mas não ser mais errado que o errado pra querer ser o certo, que foi o que aconteceu.

Aqueles homens bem vestidos em seus carros não tinham a menor ideia do que estava acontecendo ali. Ainda assim seu veredito foi instantâneo: morte e forca e linchamento e fogueira e cheque-mate e “vamo que vamo”. Os homens continuaram correndo por entre os carros, até que um dos perseguidores acertou um chute nas pernas do cara que fugia, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse no asfalto, a uns trinta metros de mim. Perdeu. Foi alcançado e impiedosamente espancado, de tal modo que eu virei a cabeça para não ver e caminhei pra longe dali. O infeliz deve estar apanhando até agora.

Daí que vem minha inquietação: estava tudo transcorrendo pacificamente, os códigos tácitos de convivência sendo cumpridos com seus bons dias e com licenças e pode passar e por favor e nossa que tempo louco até que um corre-corre aflorou a barbárie e os distintos cavalheiros se transformaram em bestas-feras agentes da vingança, que poderia até mesmo ser contra coisa nenhuma. Não é a opinião ou o sentimento em si, mas a presunção automática do que está acontecendo e a reação que se tem a partir disso: com os olhos cheios de ódio, babando em suas gravatas caras, encolerizados pela atuação de um ladrão que eles sequer sabiam se de fato o era e se tinha feito algo. Os envolvidos na correria tinham condições de fazer julgamentos e acertar ou errar a partir disso. Os outros só tinham ódio. Quem se importa?

É um padrão. Se um motoboy cai na pista, um enxame deles se aglomera em volta da cena em segundos. Qualquer pessoa que esteja envolvida na queda ou mesmo que tenha parado para ajudar provavelmente será hostilizada, possivelmente agredida. Estando certa, errada ou tendo sido envolvida na situação. Vira motoboy x não-motoboy. Por outro lado esses profissionais sofrem o desprezo de muitos motoristas, que não apenas não colaboram com eles mas chegam a jogar os carros pra cima, fechar e impedir a passagem de propósito. O mesmo quando uma pessoa faz alguma barbeiragem no trânsito. Passa a ser inimigo mortal de alguém imediatamente. A atitude desrespeitosa precisa ser “punida” de preferência com um desrespeito maior ainda.

As pessoas andam intolerantes, as relações são apenas utilitárias, as interações obrigatórias, impessoais e protocolares. Há uma mistura perigosa entre o que é justiça e o que é vingança, a Lex Talionis parece ser cada vez mais a norma e respeito e empatia genuínos estão bastante escassos. Tudo isso impulsionado por stress galopante, competição desleal, drogas legais e ilegais, álcool, solidão, frustrações em contraste com expectativas e maus exemplos das chamadas autoridades constituídas na política institucional.

O errado, chapa, é o novo certo. Como já li em algum lugar, “em tempos de ódio é bom andar amado”. Consegue?