Om Mani Padme Hum

“É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.” – Friedrich Nietzsche

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Por mais que haja certos níveis de comunicação em que pessoas se conectem por compartilhar experiências, opiniões e sentimentos parecidos, existe um lugar na alma de cada um que é totalmente insondável, misterioso e além de qualquer racionalização que se possa fazer.

Trata-se daquela dimensão onde uma conversa interna acontece envolvendo duas vozes ou entes de uma mesma pessoa em que uma busca influenciar a outra a não se deixar levar por estímulos externos, a aceitar sua própria escuridão e encarar de frente suas limitações morais, suas falhas de caráter, sua transferência de responsabilidade para os outros, sua incapacidade total ou parcial de aceitar o que não pode controlar, sua mesquinhez, medos e egoísmo.

Percebe-se ao fim e ao cabo que ferir o outro é ferir a si mesmo, que julgamentos são menos importantes que o motivo para que eles existam, que boas intenções são geralmente inúteis ou mesmo nocivas. Há uma dor que é mental e que portanto pode ser eliminada ou transformada em outra coisa. Porém há uma dor que dilacera camadas que vão muito além do ego, que não é causada por palavras duras ou atos impensados de raiva. Ela é a dor que se destina a destruir o amor em si, fazer com que se abra mão dele ou que se pense que não vale a pena senti-lo. Por isso dói tanto, porque embora a destruição seja sempre o princípio de outro ciclo e portanto parte indissociável da vida, não se escolhe amar. Tal sentimento se impõe por si só, talvez por ser a própria força motriz de tudo o que existe. Não tem culpa ou remorso de ser o que é nem tampouco age. Amor não age, não faz. Ele é. Não morre, não perde, não se vinga. Não inveja, não aprisiona, não exclui. A impressão que se tem é que trata-se de um sentimento perfeito e elevado demais pra que algum ser humano consiga lidar com ele. Daí surge a insatisfação, “dhukka“, causada pela mente que tenta impor regras e limites a algo que é infinitamente maior e mais completo que ela mesma. Jamais conseguiria.

Do choque entre a mente por definição insatisfeita e o amor inexorável e perfeito surge primeiro os sentimentos de impotência e frustração devastadores, destruindo todas as camadas de vaidade, orgulho e sensação de posse. Debaixo disso, percebe-se que é tudo Mara, ilusão. O amor continua lá, impávido. Inabalável. Ele é a própria força que permite a harmonia entre a Criação, a Preservação e a Destruição e que faz com que os ciclos se alternem seguindo não o padrão da vontade de alguma inteligência humana, mas o da ordenação suprema do universo. Igual para todos mas percebida de forma diferente conforme a consciência de cada um.

Daí surgem a resignação, o aprendizado e a sensação de que o que se busca não é de ser buscado, o que se quer não é de ser querido. Não se trata de acrescentar coisas, mas de saber perdê-las e perceber que ainda assim se ama. Nessa dimensão, não existe perda tampouco insatisfação. É o ser, não o ter. É o próprio Amor.

A flor de lótus nasce da lama. Om Mani Padme Hum.

Tia Rita

Tia Rita nos deixou ontem, no final da tarde. Estava em estado crítico já havia um tempo, indo e voltando do hospital. Não resistiu a um câncer de cérebro e seu corpo parou de funcionar em um domingo, depois de castigar sua alma por mais de um ano. É inimaginável a extensão do sofrimento pelo qual passou e especialmente frustrante tentar compreender como uma pessoa como ela pode ter sido submetida a tudo isso, pelo menos dentro dos parâmetros humanos de merecimento e/ou causa e efeito. Se existisse alguma lógica passível de ser entendida nesses termos, isso jamais teria acontecido.

Conheci minha tia Rita quando me dei conta do mundo ao meu redor. Sendo ela a irmã mais velha de minha mãe e a primeira de uma prole de oito, sempre esteve lá. Faz parte daquele universo de presenças que nunca chegaram de algum lugar ou precisaram ser apresentadas. Ela era um lugar em si mesma. Um lugar de acolhimento, de presença amorosa, de cuidado zeloso com seus três filhos (Samuel, Ivana e Raphael), seus netos e bisnetos.

Tia Rita era a alquimista daquele cheiro de infância que todo mundo lembra. De pão caseiro quentinho passando por debaixo da porta e por entre as janelas. Tão invisível quanto inconfundível. Era a autoridade feminina, matrona protetora para quem estar feliz era servir aos outros, ouvir o barulho de sua família reunida comendo e brincando, a criançada correndo, brigando, quebrando coisas para levar bronca primeiro e um afago cúmplice depois. Sabia que felicidade é ser, não ter. Foi o ícone máximo da religião pra mim durante muito tempo, com seu cabelão quase sempre preso em um coque e seu modo de se vestir, seu conhecimento bíblico, sua fé comovente e o respeito que naturalmente inspirava nos demais. Tinha o riso alto, rasgado, fácil, daqueles que você ria da risada dela sem precisar nem saber o motivo.

Eu nunca fui de me importar com o que os outros pensam a meu respeito, mas há algumas poucas pessoas cuja opinião eu sempre respeitei, por mais que discordasse. Minha tia definitivamente era uma delas, sei lá eu por quê. Cresci convivendo com uma religiosidade cristã pentecostal, daquelas mais rígidas e ortodoxas. Na igreja as mulheres se sentavam de um lado do corredor e os homens do outro. Tudo o que fugisse aos ensinamentos passados pelos pastores era “do mundo”, “do inimigo”, “pecado”. Frequentei Escola Dominical da Igreja Batista na infância e diversas vezes visitei cultos de outras denominações sem nunca ter participado ativamente de uma congregação. Não me lembro de ter visitado uma igreja em que não me tivesse sido perguntado se “aceitava Jesus”, sem falhar uma. Meio intimidador, artificial. Nunca entendi direito o que isso quer dizer, Jesus também sempre esteve lá. Como aceitar o que já fazia parte da minha vida? Meu próprio nome me foi dado por causa de um de seus discípulos, assim como os dos meus irmãos. Sei Hinos da Harpa Cristã de cor desde criança, conheço muitos personagens bíblicos e suas trajetórias. Já fui de Adão a João Batista, de Moisés a Paulo, de Abraão à Lázaro. E Rute e Raquel e Jezabel e Dalila e Maria e “as virgens loucas que deixaram suas lâmpadas se apagar“. A certa altura percebi que igrejas são comunidades que funcionam muito mais na base da interpretação de dogmas que seus membros compartilham de forma parecida naquele círculo específico e que é com base nisso que se preservam, mais do que no sentido universal da fé cristã e por definição, dos ensinamentos de Jesus. Os sacerdotes emprestam sua personalidade à egrégora que alimentam e a cultura daquele templo gira em torno disso. Respeito e acho que muita gente é ajudada espiritualmente por essas igrejas, mas geralmente me sinto mais coagido que acolhido nesses lugares. Aceito Jesus como meu mestre, guia e referência de comportamento e valores, mas não sou ovelha de pastor algum, nem pretendo. Quem se sente bem assim, que o faça e espero que se realize plenamente.

De todo modo, muitas vezes tive receio do que minha tia Rita pensaria sobre mim. Sinceramente, não sei de onde vem. O mais curioso é que ao mesmo tempo em que é uma limitação meio que auto imposta, tal fato nunca me incomodou. Lembro de uma vez, já há quase vinte anos, que apareci na casa da minha mãe para um churrasco com meu filho pequeno no colo e uma camiseta cor de rosa com três crânios pretos na frente e ossos cruzados formando um “x”, como a clássica bandeira dos piratas dos filmes. Tia Rita estava lá, e ao ver minha roupa, cravou: “Esse símbolo é do Exu Caveira, sabia?”. Gelei dos pés à cabeça na hora, quase derrubei o bebê. Não poderia haver no mundo um nome mais aterrorizante que esse. Como eu ia saber? Apenas tinha visto a camiseta em uma loja e achado bonita, comprado e a estava usando inocentemente. Tirei do corpo na hora, joguei no lixo. Peguei outra emprestada com alguém e passei a morrer de medo do Exu Caveira e de todos os outros Exus, mudava de calçada se avistasse uma Casa de Umbanda no meu caminho. Anos mais tarde descobri não apenas que aquele símbolo não era bem o que ela tinha dito, mas também que Deus não erra. Sendo assim, se existe Exu é porque ele tem que existir. Mais recentemente, ao precisar ir até seu apartamento ainda antes de saber do tumor que acabou por vencê-la, passei em minha casa pra trocar de roupa por causa de uma camiseta de caveira que estava usando. Achei que seria desrespeitoso ir vestido daquela forma. Sem ressentimentos, no hard feelings. Mesmo que ela não dissesse uma palavra sobre isso, não era direito meu. Ponto.

A última vez que conversei com ela foi no dia em que se mudou com o Fábio, seu marido, para o Espírito Santo, já faz uns dois anos ou mais. Disse a ela que a amava, desejei boa viagem e que tudo desse certo. Ela vinha tendo uns desmaios estranhos e umas crises de dor de cabeça, além de convulsões. A mudança era pra ficar perto da Ivana e para deixar a agitação de São Paulo pra trás, buscando qualidade de vida e melhor saúde. Fábio tinha conseguido um emprego por lá, tudo ficaria melhor. Tia Rita viveu feliz perto de sua filha e genro os últimos anos de sua vida, antes da doença se espalhar e tomar seu corpo, fazendo com que ele a deixasse depois de sofrer como foi, já de volta a São Paulo.

O que ficou pra mim foi saber que ela foi muito amada, o que era apenas a retribuição natural de todo o amor que ela sempre ofereceu aos seus de forma generosa e altruísta, apenas por ser assim o modo como sabia fazer. Mesmo sua intolerância com o que as vezes parecia não caber em sua religiosidade era uma forma de amar, porque ela tinha convicção de que somente ao seguir aquele dogma as pessoas poderiam encontrar refúgio em Deus e ser salvas e libertas, e era isso o que ela queria para todo mundo.

Hoje, no cemitério junto de parentes e amigos dela, tive a certeza de que minha tia Rita entrou no Céu em que sempre acreditou e foi acolhida por seu Jesus como sempre soube que seria, porque se o Céu não é para pessoas como ela, então para que serve o Céu?

Adeus, tia Rita amada. Se eu conseguir aprender a amar as pessoas nem que seja por uma fração ínfima do que você fez, certamente farei por merecer estar contigo aí quando chegar a minha vez. Descanse em paz e em amor.

As mulheres vão nos salvar (de novo)!

Geral machista da nossa pátria amada salve salve até tolera o que eles chamam de “esquerda”, umas esmolas pros mais pobres aqui e ali e tals, uma Parada Gay acolá até que passa.

Agora, mulheres se posicionando politicamente, empoderadas e lutando por seus direitos, aí não: os caras simplesmente não sabem lidar, perdem a linha totalmente. Já tem “celebridade”, sub-celebridade, wannabes em geral e um monte de Zé por aí cagando regra pra dizer que “se as mulheres estivessem falando sério, não criariam um grupo contra o Bostanágua, mas fariam campanha pra Marina”, como se a escolha de um(a) presidente tivesse que passar por gênero e como se feminismo fosse o oposto de machismo (e como se Marina Silva não fosse perfeitamente capaz de apoiar o Bozonaro no segundo turno).

Surgiu um grupo “Mulheres por Bolsonaro” que só tem homem e há várias fake news circulando para desacreditar o outro, que elas criaram e que já conta com mais de um milhão de adesões em uma semana.
Pensam que assim vão evitar que elas salvem as eleições desse ano. Mal sabem eles que elas já salvaram.

Quando você ia com a farinha, elas já tinham comido o pão, chapa. Fica moscando aí de boca aberta, posando de Macho Alfa pra ver o que sobra de você, bonitão!

O Paradoxo da Tolerância e as Eleições de 2018

Voltando ao tema da tolerância, obviamente por causa do clima político no Brasil. O filósofo Karl Popper https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper formulou a noção do “paradoxo da tolerância”, segundo o qual “liberdade em excesso leva ao fim da liberdade, tolerância em excesso leva ao fim da tolerância”.
É justamente o principal problema de Jair Bolsonaro e seu séquito de “homens de bem”. Ao radicalizar o discurso e se achar no direito de dizer quem é ser humano e quem não é, qual religião deve ser estimulada e qual não, qual orientação sexual é aceitável etc, incorre no vício do fascismo e da intolerância, que são venenos sociais e não têm lugar em um mundo naturalmente diverso e multifacetado. A ideologia de Bolsonaro, também paradoxalmente (porque autoproclamada a defensora dos “valores conservadores”) é antinatural, porque busca a preservação de padrões artificiais, impostos historicamente na base da força, violência e desrespeito. Não por acaso, as mesmas “armas” (trocadilho involuntário) da religião, do patriarcado e da noção de “raças”.
Por sorte, Bolsonaro jamais será eleito presidente, porque as mulheres não permitirão. Embora ele tenha votos entre elas, a grande maioria sabe do que se trata ser mulher em uma sociedade como a nossa e não irão permitir que um padrão que já é reproduzido clandestinamente no dia a dia passe a ser a norma, legitimada pelo voto.
Bolsonaro morrerá pela própria boca no processo, afogado no seu próprio ódio. Porque se ele acha que sua filha foi uma “fraquejada”, é porque não sabe que as mulheres entendem perfeitamente que votar nele é que seria, e elas não vão entregar a paçoca pro opressor assim, não. Nunca.

Enquanto houver mulheres no mundo, Jair Bolsonaro não será presidente do Brasil. Nem em um milhão de anos. Pode ter certeza.

A Segunda Flecha

Sou leitor, sempre fui. Literatura em geral: ficção, biografias, política, contos, História, crônicas, poesia, filosofia, religiões. Dentre os vários tipos de leitura disponíveis, percebo que existe um certo preconceito contra livros de autoajuda, como se eles representassem um conhecimento inferior, superficial. Discordo totalmente. Verdade que há livros nessa área que são realmente infantis e irrealistas, doutrinando pessoas a partir de casos isolados e colocando todo mundo no mesmo saco, como se uma fórmula preconcebida pudesse ser aplicada de forma igual para pessoas diferentes. Ainda assim, há muito material útil e relevante de autoajuda que vale muito a pena explorar. Cada caso é um caso, cada cabeça é uma sentença e “o vinho de um homem é o veneno de outro”. Foi de um livro de auto ajuda que tirei inspiração para este texto, depois de um tempo sem escrever coisa alguma por aqui. Seu nome é “O Cérebro de Buda“, dos neurocientistas estadunidenses Rick Hanson e Richard Mendius. O livro mostra como as emoções, sentimentos e variações de humor usam processos químicos do corpo e estruturas neuronais para acontecer e como podemos intervir conscientemente nesse processo. É muito interessante e requer atenção plena do leitor o tempo todo. Recomendo.

É fácil constatar que as relações sociais dependem em grande parte de sistemática hipocrisia e falsidade. São cola social. E digo isso não para agredir alguém gratuitamente, mas como uma constatação óbvia. É algo ancestral, primal mesmo. Vem provavelmente da necessidade do convívio comunitário, no qual as atitudes corretas para cada tipo de interação rendem favores ou vetos, acessos ou negativas, prazeres ou privações. Está no DNA humano, na categoria “instinto de sobrevivência”. Atitudes hipócritas possibilitam a vida em sociedade, em geral cobrando o preço na forma de “sapos” engolidos, relações deterioradas e rancores guardados no porão do subconsciente. Fígado carregado, raiva contida, bomba-relógio. A hipocrisia é um paradoxo, porque o que ela busca mascarar também é falso: o ego.

Até aí nada contra ser hipócrita, eu também não sou flor que se cheire tampouco faço questão que me sigam ou deem atenção ao que digo. Fabrico a verdade que me convém sempre que posso, igualzinho a você. Apenas não tenho problema algum em admitir essas “falhas”. Não espero ser perfeito, modelo de comportamento ou mestre de seja lá o que for. Apenas procuro tratar a todos com respeito e pelo menos não atrapalhar. Também busco aprender e não repetir sempre os mesmos erros. Não nutro pensamentos destrutivos com relação a ninguém, espero que as pessoas tenham paz e saúde irrestritamente. Entendo que o maior inimigo que eu jamais possa ter seja eu mesmo, assim como sou também o único que pode enfrentá-lo. Não porque sou esquizofrênico e ouço vozes na mente sem saber de quem são, mas por perceber que há dois aspectos principais que governam as ações do ser humano. Um é flutuante, influenciável, dinâmico e instável. É a própria mente em si, que trabalha para o que na definição clássica que vem desde os Vedas se conhece como o “falso eu” e que mais tarde viria a ser chamado de ego. Não o Freudiano, da psicanálise. O termo é o mesmo, o conceito não. O outro aspecto é o ser que observa a mente funcionar. Esta é a verdadeira fonte, o observador. Chame de espírito se entender melhor assim.

O ego nesse prisma é a imagem que criamos de nós mesmo e da importância que temos. É um “eu” social, imaginário, teatral até. Há um esforço em mantê-lo, como quando a gente deixa de fazer algo que poderia ser proveitoso ou interessante porque “somos assim mesmo”. “Ah, você sabe como o Matheus é, né? Místico.”
Na defesa muitas vezes automática desse ego, agimos como se fôssemos a sensação que algo nos causa, a experiência pela qual passamos. Inevitavelmente sofremos com isso, atiramos em nós mesmos a “segunda flecha”.

Siddhartha Gautama, o Buda histórico, ensinava sobre a “segunda flecha”. Entendo ser um dos pontos centrais da filosofia de vida que é a prática budista. Embora hoje em dia seja popular no Ocidente, o Budismo é um tanto mal compreendido quando se relaciona com a ideia de religião, que da forma como é entendida no contexto cristão, judaico ou islâmico se parece muito pouco com as práticas orientais como o Hinduísmo, Taoísmo, com ele próprio e outras tradições. Estas funcionam mais como formas milenares de administrar o convívio em sociedade e ensinar pessoas a desempenhar tarefas do dia a dia desde tempos ancestrais em que não se tinha acesso à educação formal, a tecnologia era incipiente e a transmissão de conhecimento se dava pela tradição, por metáforas e histórias de divindades que representavam por arquétipos os elementos da natureza. Chamar a isso de “religião” é uma simplificação frágil que atrapalha o próprio entendimento da coisa.
Na prática, o que acontece é que pessoas que tendem a ser mais “conservadoras” e fundamentalistas nesse aspecto costumam rejeitar os ensinamentos dessas “escolas” por ignorância (sempre ela), pelo receio de estar “servindo a outro deus” (!!). Pouco importa se no caso de Gautama trata-se de um homem que viveu oitenta anos, passou metade da vida ensinando técnicas de administrar a mente que descobriu meditando sozinho, nunca se preocupou em mostrar a alguém como chegar a deus, não operou milagres ou usou poderes sobrenaturais e apenas ensinou seus seguidores a conhecer a si mesmos. Ele morreu de diarreia. Nunca ouvi falar de uma divindade que tenha sequer morrido, que dirá dessa forma. De todo modo, já ouvi coisas como “não troco meu Jesus”, “não me curvo ao Buda” e outras manifestações pouco simpáticas e nada racionais. Enfim, mesmo com todos os narizes torcidos e desconforto que isso causa em quem gosta mais de apontar o dedo e fazer Fla-Flu de divindades e/ou mestres do que de pensar e segui-los, sinto que é relevante falar sobre o assunto para as pessoas que vêm aqui ler meus textos (que eu sei que andam escassos, mas isso também vai passar). Tem sido para mim, talvez tenha alguma utilidade para quem se permitir aplicar.

É assim: imagine que você esteja em uma fila há uma hora. Há uma ameaça de febre amarela no ar, a TV não para de mostrar postos de saúde apinhados de gente sob o sol sahariano. Nem precisa comentar o stress. Bicho feio. Eis que um bonitão qualquer chega ao local cheio de si, pique “holandês” (Van Sie Phúder) e, ignorando completamente quem chegou antes dele, se infiltra no meio dos que esperam, bem à sua frente. É uma agressão desrespeitosa e rude, uma violência. Dói como uma flechada na sua carne. Ato contínuo seu rosto se enfurece, a adrenalina sobe, as palavras ficam ásperas e emocionadas e é certo: dependendo do seu estado emocional e das circunstâncias, pode haver desde uma discussão leve e troca de desaforos até as vias de fato. Tiro, porrada e bomba. A reação à violência sofrida é o que o Buda chamava de “segunda flecha”. Esta é atirada por nós mesmos, geralmente porque nosso ego foi atingido por algum agente externo e somos condicionados a defendê-lo pela mente, que é quem assume o comando e dita a resposta ao ataque sofrido. Acontece que não somos nossas mentes, lembra? Por isso que muitas decisões, reações e atitudes que parecem perfeitamente razoáveis na hora do conflito, do “choque”, geram arrependimento depois que a coisa esfria. Ao sair da mente condicionada e analisar a situação “de fora”, percebemos muitas vezes o quanto nossa atitude foi inadequada. O problema é que a constatação do erro por si só não é suficiente para que aprendamos para um próximo “teste”, porque o ego entra novamente em cena dizendo “é, eu sou assim mesmo e quem gostou, gostou. Quem não gostou, azar”. Mesmo admitindo a falha para nós mesmos, não nos redimimos dela porque precisamos defender a nossa fama de mau, reputação, gênio ou outro nome que se queira dar para o ego, esse safadinho. É um comportamento basicamente infantil e não precisa nem comentar quantas crianças de meia-idade ou mesmo idosas que existem por aí.

O cara que furou a fila não o fez para te ofender pessoalmente. Entrou porque não se importa com os outros ou porque é um Joselito mesmo, um “moscão”. Tá cheio deles por aí. Inconscientes, no automático. Entrou na fila em que você estava como entraria em qualquer outra, em qualquer outro lugar. O problema é com ele, não com você. Ao levar para o pessoal, nos preocupamos mais com a ofensa em si do que com o que ela representa na prática: alguma discussão sobre ser justo e pontual que levaria à solução do problema rapidamente (e o mosca-de-boi em questão para seu lugar de direito, o final da fila).

O ponto central do ensinamento budista consiste em educar a mente. A alegoria da segunda flecha é uma forma simples de explicar como isso pode ser feito e as situações em que pode ser aplicada são inúmeras, acontecem o tempo todo. Até ao ler este mesmo texto, você pode escolher duas maneiras de reagir. Uma delas é desacreditar do que leu, afinal que autoridade eu tenho pra versar sobre isso? Quem eu penso que sou? Só porque eu acendo uns incensos, medito à minha maneira e uso umas camisetas psicodélicas já estou me achando o guru, o Iluminado, um Bodhisatvva?
Ou então você pode escolher o caminho do observador desprovido de ego, aquele que realmente sente que a existência tem um certo funcionamento e que é baseado nele que as coisas fazem sentido ou não, independentemente de onde vêm. Se um fruto está estragado, as sementes dentro dele ainda podem ser aproveitadas. Mesmo eu sendo insignificante e desprovido de autoridade e conhecimento, ainda assim posso ter alguma coisa de útil para passar. Ao que aprende, é indispensável ter humildade. Assim como ao que ensina. Perdi a conta de quanta sabedoria eu já pude perceber em gente simples, despretensiosa, daqueles de quem se diz que “não se dá nada”. Se for analisar friamente, na maioria das vezes em que senti ter aprendido algo, foi desse tipo de conhecimento que me aproveitei.

Então eu vou usar o fato de que você já veio até aqui para te dizer: preste atenção no mecanismo de “segunda flecha”. Aquele sujeito que sabe quais cordas tocar para te fazer sair do sério usa sempre as mesmas armas porque sabe que não falha, apertando os botões certos o resultado é sempre o mesmo. Arrasta você para o tipo de emoção que sabe manejar melhor, entra na sua mente e vence o conflito psicológico, mesmo que sua vitória seja ser ofendido ou agredido para depois poder posar de vítima e começar novamente o ciclo insano de jogos mentais. Samsara. Você já deve ter convivido com gente que “tem um problema para cada solução“. Pois é, eu também.
Quando nos condicionamos a não reagir impulsivamente e aprendemos aos poucos a relativizar os “ataques” que sofremos, gradativamente vamos escolhendo em quais discussões vale a pena entrar, quais vão dar sempre no mesmo lugar e quais são tão sem sentido que não deveriam sequer existir. Diminui-se bastante o fardo a carregar, a existência se torna mais leve. Pelo menos é assim que tem funcionado para mim. Há no Zen (corrente espiritual que consiste basicamente em meditação, muito ligada ao Budismo) a máxima “se encontrar o Buda pelo caminho, mate-o”. Significa que nenhum ensinamento deve ser levado em consideração se não passar pelo crivo da experiência pessoal, ou seja: por mais que se use palavras bonitas, metáforas precisas e linguagem agradável, se o conceito não puder ser aplicado nas situações reais da vida, não tem utilidade alguma. São só palavras, barulho, desperdício. Não valem nem de longe um bom silêncio.

A segunda flecha está no acordar atrasado, por exemplo. Perdeu a hora, vai chegar depois dos demais ou não vai chegar de forma alguma. Então começa a angústia, ansiedade e correria. “Vou perder o emprego”. “Vou levar bronca”. “Vai ficar chato”. Mesmo que as três coisas venham a acontecer, naquele momento você apenas está atrasado e nenhum pensamento que tenha vai fazer o relógio voltar. A única coisa que pode ser feita é diminuir o atraso no que puder ou reprogramar a ação. Sofrer é segunda flecha, só aumenta a dor. Eu chamo isso de “agir igual ao Waze”. Quando uma rota é traçada e você não obedece, o aplicativo simplesmente recalcula o que deve ser feito. Ele não vira pra você e fala “Puta que o pariu, e agora? Você pegou o caminho errado! Fodeu! Vai dar merda! Por que fez isso?”. O objetivo é alcançar uma “mente Waze”, digamos.
Outro exemplo: você se dirige educadamente ao policial que trabalhava na segregação de uma rua para um evento e pergunta a ele do que se trata. O homem nem olha na sua cara e te responde com casca e tudo: “Manifestação. E você circulando, circulando, vai!”. Precisa falar assim? Não, mas agora é tarde. É nas ações e palavras dele que está o erro, não no fato de ter sido com você. E ainda que tenha sido pessoal, o juízo que ele fez continua a ser dele e tem zero relação com a realidade dos fatos.

Para concluir, cito os quatro estágios em que se aprende a lidar com a segunda flecha:
– Inconsciência inconsciente: o cara no trânsito comete uma barbeiragem e te fecha com o carro em alta velocidade. Automaticamente você xinga, buzina, mostra o dedo do meio e quase rasga a roupa de raiva. Fica uns dez minutos remoendo a situação e amaldiçoando até a quinta geração de descendentes do infeliz.
– Inconsciência consciente: a mesma situação no trânsito e a mesma reação de raiva e palavrões em alto e bom som, só que dessa vez sabendo que é uma reação nociva e parte do problema. Dá vergonha depois que passa a fase de inconsciência, de fúria.
– Consciência consciente: fechada e barbeiragem do mesmo jeito. Reação de controle da raiva e do ímpeto de jogar o extintor de incêndio no carro do vivente que fez a merda, porque eu sei que essa reação é a mais sensata. Meu corpo não foi arrastado pela minha mente porque eu não permiti. Estou sereno e escolho os pensamentos que quero preservar e os que quero descartar.
– Consciência consciente: a resposta de não agressão (que é não disparar a segunda flecha) acontece automaticamente, assim como acontecia a inconsciência e acesso de raiva da primeira fase. Aí já é estágio avançado, requer treino e repetição. Há recaídas, retomadas e níveis de consciência. Mas vale muito a pena. No mínimo se evita muito coração amargurado, atitudes impensadas, perda de saúde mental e física e conflitos vazios e sem sentido. Barulho apenas. O barulho tem inveja do silêncio porque não consegue os mesmos resultados que ele, não caminha na mesma direção, não tem a mesma importância. As respostas estão no que não é dito. Todo o barulho se rende a ele no final, sempre. Trazendo o silêncio para o cotidiano, ele se impõe pela própria força.

Detalhe importante: você não precisa abrir mão de nenhuma crença, religião ou dogma pra adotar esse tipo de raciocínio. É um treinamento mental apenas. Pode continuar praticando sua fé tranquilamente que ninguém vai te mandar para o inferno. Aliás, ele também é escolha e atende pelo nome de ignorância. De mais a mais, se estivesse tão seguro de sua espiritualidade, será que alguém ficaria patrulhando a dos outros? Não sei, acho que não. Se você está bem resolvido, não precisa ficar procurando incoerência na crença alheia. Fé não é de convencer ou impor, é de sentir. E é preciso agir a partir disso.

Que as flechadas venham de fora, não de nós mesmos. Cada um dá o que tem.