A Segunda Flecha

Sou leitor, sempre fui. Literatura em geral: ficção, biografias, política, contos, História, crônicas, poesia, filosofia, religiões. Dentre os vários tipos de leitura disponíveis, percebo que existe um certo preconceito contra livros de autoajuda, como se eles representassem um conhecimento inferior, superficial. Discordo totalmente. Verdade que há livros nessa área que são realmente infantis e irrealistas, doutrinando pessoas a partir de casos isolados e colocando todo mundo no mesmo saco, como se uma fórmula preconcebida pudesse ser aplicada de forma igual para pessoas diferentes. Ainda assim, há muito material útil e relevante de autoajuda que vale muito a pena explorar. Cada caso é um caso, cada cabeça é uma sentença e “o vinho de um homem é o veneno de outro”. Foi de um livro de auto ajuda que tirei inspiração para este texto, depois de um tempo sem escrever coisa alguma por aqui. Seu nome é “O Cérebro de Buda“, dos neurocientistas estadunidenses Rick Hanson e Richard Mendius. O livro mostra como as emoções, sentimentos e variações de humor usam processos químicos do corpo e estruturas neuronais para acontecer e como podemos intervir conscientemente nesse processo. É muito interessante e requer atenção plena do leitor o tempo todo. Recomendo.

É fácil constatar que as relações sociais dependem em grande parte de sistemática hipocrisia e falsidade. São cola social. E digo isso não para agredir alguém gratuitamente, mas como uma constatação óbvia. É algo ancestral, primal mesmo. Vem provavelmente da necessidade do convívio comunitário, no qual as atitudes corretas para cada tipo de interação rendem favores ou vetos, acessos ou negativas, prazeres ou privações. Está no DNA humano, na categoria “instinto de sobrevivência”. Atitudes hipócritas possibilitam a vida em sociedade, em geral cobrando o preço na forma de “sapos” engolidos, relações deterioradas e rancores guardados no porão do subconsciente. Fígado carregado, raiva contida, bomba-relógio. A hipocrisia é um paradoxo, porque o que ela busca mascarar também é falso: o ego.

Até aí nada contra ser hipócrita, eu também não sou flor que se cheire tampouco faço questão que me sigam ou deem atenção ao que digo. Fabrico a verdade que me convém sempre que posso, igualzinho a você. Apenas não tenho problema algum em admitir essas “falhas”. Não espero ser perfeito, modelo de comportamento ou mestre de seja lá o que for. Apenas procuro tratar a todos com respeito e pelo menos não atrapalhar. Também busco aprender e não repetir sempre os mesmos erros. Não nutro pensamentos destrutivos com relação a ninguém, espero que as pessoas tenham paz e saúde irrestritamente. Entendo que o maior inimigo que eu jamais possa ter seja eu mesmo, assim como sou também o único que pode enfrentá-lo. Não porque sou esquizofrênico e ouço vozes na mente sem saber de quem são, mas por perceber que há dois aspectos principais que governam as ações do ser humano. Um é flutuante, influenciável, dinâmico e instável. É a própria mente em si, que trabalha para o que na definição clássica que vem desde os Vedas se conhece como o “falso eu” e que mais tarde viria a ser chamado de ego. Não o Freudiano, da psicanálise. O termo é o mesmo, o conceito não. O outro aspecto é o ser que observa a mente funcionar. Esta é a verdadeira fonte, o observador. Chame de espírito se entender melhor assim.

O ego nesse prisma é a imagem que criamos de nós mesmo e da importância que temos. É um “eu” social, imaginário, teatral até. Há um esforço em mantê-lo, como quando a gente deixa de fazer algo que poderia ser proveitoso ou interessante porque “somos assim mesmo”. “Ah, você sabe como o Matheus é, né? Místico.”
Na defesa muitas vezes automática desse ego, agimos como se fôssemos a sensação que algo nos causa, a experiência pela qual passamos. Inevitavelmente sofremos com isso, atiramos em nós mesmos a “segunda flecha”.

Siddhartha Gautama, o Buda histórico, ensinava sobre a “segunda flecha”. Entendo ser um dos pontos centrais da filosofia de vida que é a prática budista. Embora hoje em dia seja popular no Ocidente, o Budismo é um tanto mal compreendido quando se relaciona com a ideia de religião, que da forma como é entendida no contexto cristão, judaico ou islâmico se parece muito pouco com as práticas orientais como o Hinduísmo, Taoísmo, com ele próprio e outras tradições. Estas funcionam mais como formas milenares de administrar o convívio em sociedade e ensinar pessoas a desempenhar tarefas do dia a dia desde tempos ancestrais em que não se tinha acesso à educação formal, a tecnologia era incipiente e a transmissão de conhecimento se dava pela tradição, por metáforas e histórias de divindades que representavam por arquétipos os elementos da natureza. Chamar a isso de “religião” é uma simplificação frágil que atrapalha o próprio entendimento da coisa.
Na prática, o que acontece é que pessoas que tendem a ser mais “conservadoras” e fundamentalistas nesse aspecto costumam rejeitar os ensinamentos dessas “escolas” por ignorância (sempre ela), pelo receio de estar “servindo a outro deus” (!!). Pouco importa se no caso de Gautama trata-se de um homem que viveu oitenta anos, passou metade da vida ensinando técnicas de administrar a mente que descobriu meditando sozinho, nunca se preocupou em mostrar a alguém como chegar a deus, não operou milagres ou usou poderes sobrenaturais e apenas ensinou seus seguidores a conhecer a si mesmos. Ele morreu de diarreia. Nunca ouvi falar de uma divindade que tenha sequer morrido, que dirá dessa forma. De todo modo, já ouvi coisas como “não troco meu Jesus”, “não me curvo ao Buda” e outras manifestações pouco simpáticas e nada racionais. Enfim, mesmo com todos os narizes torcidos e desconforto que isso causa em quem gosta mais de apontar o dedo e fazer Fla-Flu de divindades e/ou mestres do que de pensar e segui-los, sinto que é relevante falar sobre o assunto para as pessoas que vêm aqui ler meus textos (que eu sei que andam escassos, mas isso também vai passar). Tem sido para mim, talvez tenha alguma utilidade para quem se permitir aplicar.

É assim: imagine que você esteja em uma fila há uma hora. Há uma ameaça de febre amarela no ar, a TV não para de mostrar postos de saúde apinhados de gente sob o sol sahariano. Nem precisa comentar o stress. Bicho feio. Eis que um bonitão qualquer chega ao local cheio de si, pique “holandês” (Van Sie Phúder) e, ignorando completamente quem chegou antes dele, se infiltra no meio dos que esperam, bem à sua frente. É uma agressão desrespeitosa e rude, uma violência. Dói como uma flechada na sua carne. Ato contínuo seu rosto se enfurece, a adrenalina sobe, as palavras ficam ásperas e emocionadas e é certo: dependendo do seu estado emocional e das circunstâncias, pode haver desde uma discussão leve e troca de desaforos até as vias de fato. Tiro, porrada e bomba. A reação à violência sofrida é o que o Buda chamava de “segunda flecha”. Esta é atirada por nós mesmos, geralmente porque nosso ego foi atingido por algum agente externo e somos condicionados a defendê-lo pela mente, que é quem assume o comando e dita a resposta ao ataque sofrido. Acontece que não somos nossas mentes, lembra? Por isso que muitas decisões, reações e atitudes que parecem perfeitamente razoáveis na hora do conflito, do “choque”, geram arrependimento depois que a coisa esfria. Ao sair da mente condicionada e analisar a situação “de fora”, percebemos muitas vezes o quanto nossa atitude foi inadequada. O problema é que a constatação do erro por si só não é suficiente para que aprendamos para um próximo “teste”, porque o ego entra novamente em cena dizendo “é, eu sou assim mesmo e quem gostou, gostou. Quem não gostou, azar”. Mesmo admitindo a falha para nós mesmos, não nos redimimos dela porque precisamos defender a nossa fama de mau, reputação, gênio ou outro nome que se queira dar para o ego, esse safadinho. É um comportamento basicamente infantil e não precisa nem comentar quantas crianças de meia-idade ou mesmo idosas que existem por aí.

O cara que furou a fila não o fez para te ofender pessoalmente. Entrou porque não se importa com os outros ou porque é um Joselito mesmo, um “moscão”. Tá cheio deles por aí. Inconscientes, no automático. Entrou na fila em que você estava como entraria em qualquer outra, em qualquer outro lugar. O problema é com ele, não com você. Ao levar para o pessoal, nos preocupamos mais com a ofensa em si do que com o que ela representa na prática: alguma discussão sobre ser justo e pontual que levaria à solução do problema rapidamente (e o mosca-de-boi em questão para seu lugar de direito, o final da fila).

O ponto central do ensinamento budista consiste em educar a mente. A alegoria da segunda flecha é uma forma simples de explicar como isso pode ser feito e as situações em que pode ser aplicada são inúmeras, acontecem o tempo todo. Até ao ler este mesmo texto, você pode escolher duas maneiras de reagir. Uma delas é desacreditar do que leu, afinal que autoridade eu tenho pra versar sobre isso? Quem eu penso que sou? Só porque eu acendo uns incensos, medito à minha maneira e uso umas camisetas psicodélicas já estou me achando o guru, o Iluminado, um Bodhisatvva?
Ou então você pode escolher o caminho do observador desprovido de ego, aquele que realmente sente que a existência tem um certo funcionamento e que é baseado nele que as coisas fazem sentido ou não, independentemente de onde vêm. Se um fruto está estragado, as sementes dentro dele ainda podem ser aproveitadas. Mesmo eu sendo insignificante e desprovido de autoridade e conhecimento, ainda assim posso ter alguma coisa de útil para passar. Ao que aprende, é indispensável ter humildade. Assim como ao que ensina. Perdi a conta de quanta sabedoria eu já pude perceber em gente simples, despretensiosa, daqueles de quem se diz que “não se dá nada”. Se for analisar friamente, na maioria das vezes em que senti ter aprendido algo, foi desse tipo de conhecimento que me aproveitei.

Então eu vou usar o fato de que você já veio até aqui para te dizer: preste atenção no mecanismo de “segunda flecha”. Aquele sujeito que sabe quais cordas tocar para te fazer sair do sério usa sempre as mesmas armas porque sabe que não falha, apertando os botões certos o resultado é sempre o mesmo. Arrasta você para o tipo de emoção que sabe manejar melhor, entra na sua mente e vence o conflito psicológico, mesmo que sua vitória seja ser ofendido ou agredido para depois poder posar de vítima e começar novamente o ciclo insano de jogos mentais. Samsara. Você já deve ter convivido com gente que “tem um problema para cada solução“. Pois é, eu também.
Quando se condiciona a não reagir impulsivamente e se aprende aos poucos a relativizar os “ataques” que sofremos, gradativamente vamos aprendendo a escolher em quais discussões vale a pena entrar, quais vão dar sempre no mesmo lugar e quais são tão sem sentido que não deveriam sequer existir. Diminui-se bastante o fardo a carregar, a existência se torna mais leve. Pelo menos é assim que tem funcionado para mim. Há no Zen (corrente espiritual que consiste basicamente em meditação, muito ligada ao Budismo) a máxima “se encontrar o Buda pelo caminho, mate-o”. Significa que nenhum ensinamento deve ser levado em consideração se não passar pelo crivo da experiência pessoal, ou seja: por mais que se use palavras bonitas, metáforas precisas e linguagem agradável, se o conceito não puder ser aplicado nas situações reais da vida, não tem utilidade alguma. São só palavras, barulho, desperdício. Não valem nem de longe um bom silêncio.

A segunda flecha está no acordar atrasado, por exemplo. Perdeu a hora, vai chegar depois dos demais ou não vai chegar de forma alguma. Então começa a angústia, ansiedade e correria. “Vou perder o emprego”. “Vou levar bronca”. “Vai ficar chato”. Mesmo que as três coisas venham a acontecer, naquele momento você apenas está atrasado e nenhum pensamento que tenha vai fazer o relógio voltar. A única coisa que pode ser feita é diminuir o atraso no que puder ou reprogramar a ação. Sofrer é segunda flecha, só aumenta a dor. Eu chamo isso de “agir igual ao Waze”. Quando uma rota é traçada e você não obedece, o aplicativo simplesmente recalcula o que deve ser feito. Ele não vira pra você e fala “Puta que o pariu, e agora? Você pegou o caminho errado! Fodeu! Vai dar merda! Por que fez isso?”. O objetivo é alcançar uma “mente Waze”, digamos.
Outro exemplo: você se dirige educadamente ao policial que trabalhava na segregação de uma rua para um evento e pergunta a ele do que se trata. O homem nem olha na sua cara e te responde com casca e tudo: “Manifestação. E você circulando, circulando, vai!”. Precisa falar assim? Não, mas agora é tarde. É nas ações e palavras dele que está o erro, não no fato de ter sido com você. E ainda que tenha sido pessoal, o juízo que ele fez continua a ser dele e tem zero relação com a realidade dos fatos.

Para concluir, cito os quatro estágios em que se aprende a lidar com a segunda flecha:
– Inconsciência inconsciente: o cara no trânsito comete uma barbeiragem e te fecha com o carro em alta velocidade. Automaticamente você xinga, buzina, mostra o dedo do meio e quase rasga a roupa de raiva. Fica uns dez minutos remoendo a situação e amaldiçoando até a quinta geração de descendentes do infeliz.
– Inconsciência consciente: a mesma situação no trânsito e a mesma reação de raiva e palavrões em alto e bom som, só que dessa vez sabendo que é uma reação nociva e parte do problema. Dá vergonha depois que passa a fase de inconsciência, de fúria.
– Consciência consciente: fechada e barbeiragem do mesmo jeito. Reação de controle da raiva e do ímpeto de jogar o extintor de incêndio no carro do vivente que fez a merda, porque eu sei que essa reação é a mais sensata. Meu corpo não foi arrastado pela minha mente porque eu não permiti. Estou sereno e escolho os pensamentos que quero preservar e os que quero descartar.
– Consciência consciente: a resposta de não agressão (que é não disparar a segunda flecha) acontece automaticamente, assim como acontecia a inconsciência e acesso de raiva da primeira fase. Aí já é estágio avançado, requer treino e repetição. Há recaídas, retomadas e níveis de consciência. Mas vale muito a pena. No mínimo se evita muito coração amargurado, atitudes impensadas, perda de saúde mental e física e conflitos vazios e sem sentido. Barulho apenas. O barulho tem inveja do silêncio porque não consegue os mesmos resultados que ele, não caminha na mesma direção, não tem a mesma importância. As respostas estão no que não é dito. Todo o barulho se rende a ele no final, sempre. Trazendo o silêncio para o cotidiano, ele se impõe pela própria força.

Detalhe importante: você não precisa abrir mão de nenhuma crença, religião ou dogma pra adotar esse tipo de raciocínio. É um treinamento mental apenas. Pode continuar praticando sua fé tranquilamente que ninguém vai te mandar para o inferno. Aliás, ele também é escolha e atende pelo nome de ignorância. De mais a mais, se estivesse tão seguro de sua espiritualidade, será que alguém ficaria patrulhando a dos outros? Não sei, acho que não. Se você está bem resolvido, não precisa ficar procurando incoerência na crença alheia. Fé não é de convencer ou impor, é de sentir. E é preciso agir a partir disso.

Que as flechadas venham de fora, não de nós mesmos. Cada um dá o que tem.

Ode ao madrugador

Não posso dizer que escolhi a madrugada como habitat. Fui escolhido por ela, na verdade. Sou daqueles que não precisa de muitas horas de sono pra estar inteiro no dia seguinte. Se conseguir seis horas bem dormidas já fico bem. Reflexos, raciocínios e metabolismo em perfeitas condições. Entendo que sou um espírito habitando uma carapaça temporariamente e que é meu trabalho garantir a preservação e o bom funcionamento dela, pra que minha mente (ponte entre espírito e corpo) possa estar em boas condições e trabalhe a meu favor, não contra mim. Quisera eu ter essa noção antes, mas não tinha. Já era, estraguei meu organismo durante anos com química e pensamentos tóxicos. Algumas coisas dá pra recuperar, outras reverter e outras melhorar. Mas há também aquilo que é preciso aceitar e se render, dá pra aprender muita coisa fazendo isso. Recomendo.

Gilda, rainha da madrugada

Acontece que qualidade de sono é artigo raro, aparentemente. Tenho a impressão que depois da adolescência (quando eu mesmo dormia até meio dia facilmente) as pessoas dormem cada vez menos e pior. Cigarro, álcool e medicamentos influenciam também, agridem e desequilibram. Outro dia estava lendo sobre os short sleepers, pessoas que dormem quatro, cinco horas por noite e conseguem estar inteiros, fully functional pela manhã. Cada vez mais me vejo e aceito ser um deles. Talvez por herança dos genes do meu pai, que é sempre o último a ir dormir e o primeiro a estar acordado. A diferença é que ele bebe quantidades carnavalescas de cerveja e fuma bagaraio, e eu abandonei o uso de substâncias “estupefaciantes” (como diria o Luiz Thunderbird) há tempos. Cigarro há dez anos, bebida alcoólica há três. O corpo se acostuma tanto com agressões quanto com a falta delas.

Me lembro bem do que chamo de “sono de bêbado”. Não é um sono propriamente, é uma espécie de desmaio, de desligamento. O ritual é sempre o mesmo: seu corpo parece estar obedecendo e seu raciocínio parece que presta para alguma coisa, mas na verdade você está a beira de um colapso total. Continua agindo quando já parou de pensar, fala cada vez mais mole e cada vez mais merda. Sua “conversa” consiste em um monte de trocas dos sons das palavras e cuspes na cara do seu interlocutor. Na sua cabeça você é bonito, sábio, rico e interessante. Na realidade já passou de “mala” pra “container” faz tempo. Vai deteriorando até que acaba a cerveja, a paciência de alguém, o evento ou a noite e é inevitável: sua fuga da realidade acabou e você precisa dormir. Com sorte não cometeu crime algum e sua liberdade não será tolhida, não dessa vez. Quando a cama que está rodando pelo quarto passa pela sua frente, você cai nela. De jeans, de chapéu, fumando, seja lá como for. Um trapo sujo no chão do banheiro do boteco tem mais dignidade que você. Ronca e baba por umas duas horas, deixando o recinto com aquele cheiro azedo dos gases gerados por essa bomba química em que se tornou. Daí acorda de repente. Olhos arregalados, sono impossível. Não estava dormindo, na verdade. Seu cérebro apenas desligou seu sistema por um tempo pra evitar que você morresse, não é lindo? Ele mesmo não parou, continuou funcionando a um milhão por hora. Por isso o sono de bêbado não é reparador, não descansa. Você acorda de ressaca, prometendo nunca mais beber, tentando sobreviver àquela segunda-feira dia de Exu e fingindo que não está esperando a próxima oportunidade de chapar o glóbulo novamente, fugir de si mesmo novamente, ficar lindo e rico e sábio novamente. Pois é, já estive lá, como se diz em inglês. Been there, done that.

Já foi dito que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“. Conheço bastante gente que tem uma relação saudável com bebida e consegue conciliar seus afazeres com ela, mas quanto mais penso nessa coisa de dependência química mais tenho a impressão que é uma questão de se conhecer, de saber quais limites você consegue esticar e quais decisões precisa tomar. O limite muda, o prazer ilude, o corpo tenta se impor e tomar a mente pra si. Esta já é preguiçosa e influenciável, se deixa levar facilmente. E a espiral descendente começa, arrastando consistentemente, às gargalhadas. Álcool é uma droga socialmente aceita e comercialmente estimulada, o que a torna especialmente perigosa. Todo mundo tem medo das “drogas”, mas quando conta histórias de dependência geralmente é sobre aquele parente alcoólatra que estraga a própria vida e a dos outros. Há um documentário interessante no YouTube sobre o assunto, chama-se Terapia Psicodélica. Recomendo também. Eye-opener.

Ao parar de beber, de cara perdi peso, deixei de roncar e passei a dormir bem melhor. Após três anos o peso se manteve (dez quilos a menos) e o ronco apneico sumiu definitivamente, mas o sono voltou a ficar esquisito. Idealmente durmo das onze às cinco. Seis horas. Se fosse simples assim, estaria ótimo. Só que pouco depois das três da manhã acordo, muitas vezes no mesmo horário exato. Daí que vem: é incrível como meus pensamentos são diferentes dos que costumo ter durante o dia. Imagino que isso tenha a ver com processos químicos do organismo mesmo, afinal o sono tem uma função importante de reparação e organização. Quando o processo é interrompido, é inevitável que haja espaços vazios, pontas soltas, fendas abertas.

Nessas fendas que eu caio. Por vezes presto atenção na cara que a madrugada tem em SP: algumas luzes coloridas, pálidas e tristes. O barulho de uma moto ao longe, sirenes de vez em quando, cachorros latindo, a noite onde as sombras prevalecem, os instintos e os apetites são outros, bem outros. A polaridade se inverte: as plantas sujam o ar ao invés de limpar, o dinheiro cuidado com zelo durante o dia passa a correr atrás do prazer, os corpos se procuram, a beleza e a virtude assumem outros nomes, formas e lógicas. É o negativo da foto, a luz tem outra função. Yin, não Yang.

Fora assim como dentro, em cima como embaixo. Os processos mentais também são bem diferentes no meio da noite. Medos mais profundos, reações mais dramáticas, minutos mais longos. Muitas vezes vem à tona aqueles pensamentos que não temos coragem de confessar para nossa própria alma. Somos monstros, poetas e santos nessa hora. Somos todos aqueles pensamentos e nenhum deles também. Quando a manhã chega e a luz retoma o controle, o que parecia tão intenso e definitivo se esvai, mingua até cair no território dos sonhos e fantasias, aquele mundo onde não sabemos distinguir o que foi vivido do que foi apenas imaginado. E a gente volta a assumir aquela persona que parece mais aceitável: a de gente normal, funcional e respeitável, produzindo para o bem da sociedade. O típico cidadão de bem, seja lá o que for isso. Até vir a próxima madrugada e seus fantasmas a assombrar novamente, mostrando que toda solidão é relativa, todo medo é uma forma de esperança e que quanto mais intensa a luz, mais nítida a sombra que ela projeta.

A madrugada é dona de uma das coisas mais importantes que existem em todos os mundos, em todos os tempos e para além das palavras, gestos e formas. Tudo o que é criado começa nele e só existe porque nossa mente precária precisa de sons e formas para tentar entender o que experimenta. Tudo o que vem dele é redução, simplificação, diminuição e representa apenas debilmente o que é de fato: o silêncio. Todo o barulho que existe é apenas uma imitação dele, uma tentativa irremediavelmente frustrada de reproduzi-lo.

Há um conto Zen de um simples diálogo entre um discípulo e seu professor que ilustra bem isso:

“-Mestre, qual é o primeiro princípio do Zen?”
“-Se eu te disser, ele passa a ser o segundo princípio.”

Tenho a impressão que é no silêncio da madrugada que está toda a sua força. Sou seu aprendiz, já não luto mais. Se passar o dia seguinte bocejando e à base de café, é o preço. Está muito bem pago.