Pessoas invisíveis

Logo cedo fui passar por uma porta giratória de um grande condomínio de escritórios e um senhor dos seus sessenta anos estava limpando os vidros. Notou minha distração por eu estar com a cara enfiada no celular feito os vários zumbis do Walking Dead em que se transformou caminhar por SP, percebeu o que eu faria e disse: “Bom dia! O senhor vai por ali por favor?”, apontando para uma outra porta de vidro que estava escancarada, logo atrás da tela do meu telefone. Foi quem primeiro falou comigo hoje na rua. Uniforme puído herdado de alguém, gestual rápido e determinado de trabalhador atarefado e olhos cansados de quem faz aquilo todo dia, o dia todo. Ao entrar no prédio, os mesmos bouncers de sempre: ternos pretos com ombreiras estilo anos 80, walkie-talkies e sua linguagem de QRA´s, QAP´s e QRU´s. Não entendo esses códigos, TKS por não me ensinar. Recepcionistas com uniformes iguais, rostos diferentes e frases prontas, ensaiadas e repetidas o dia todo. Contas para pagar, desrespeitos para tolerar, sapos e mais sapos para engolir. Mais do mesmo.

Subo até o nono andar. Não tenho um crachá para cruzar a porta travada da empresa dos USA, land of the free and home of the brave. Uma faxineira magra e simpática aperta o passo até mim, para que eu não espere muito. “Vou abrir pra você, professor. Quer café?”. Quero, quero muito. Nunca quis tanto, na verdade. A noite mal dormida provoca bocejos, olhos vermelhos e corpo arqueado. Cafeína transforma essa forma decadente em Mun-Rá, o de vida eterna. Salvo pela senhorinha do café, como muitas vezes em muitos lugares.

Tenho o privilégio de ser visto pelos invisíveis. Os pintados de cinza, azul ou preto. Monocromáticos, monossilábicos, monofásicos. Aqueles que em inglês a gente diz que são “taken for granted“. É como se fossem parte da paisagem. O chão está limpo, as luzes todas acesas, os equipamentos funcionando.  Nem parece que sem eles nada acontece. Acendem luzes, consertam defeitos, limpam espaços, destravam portas, fazem café, carregam peso, intermediam encontros, organizam filas, controlam acesso, repõem materiais. Invariavelmente dentro de roupas discretas, foscas, escuras, pra que fiquem mais invisíveis ainda. Aprendem a olhar de baixo pra cima, ou guardam seus olhares para quando não correm o risco de cruzar com os dos outros. Sempre olham e sempre veem, no entanto. Estão em outra frequência.

Cresci em ambientes e situações nos quais eles não estão soterrados sob seus crachás e tergais. Aquele porteiro preto que não recebe de volta metade dos “bons dias” que profere é também o cara que resolve no futebol de várzea no domingo, por exemplo. Pessoas vão até o campo só pra vê-lo. O futebol é uma linguagem. Suas qualificações, origem ou cor servem para nada diante do domínio debochado dos espaços e tempos que um cara desses tem. Você “não acha nem pra bater”, como se diz. Vai levar um chapéu, um rolinho. Vai levar gols e provavelmente perder o jogo. Ali ele exerce sua plenitude, sua vingança. Só restam duas alternativas: bater palma ou ir brincar de outra coisa. Da mesma forma, a pessoa que limpa os banheiros é o esteio de uma associação comunitária ou religiosa. É o pastor daquela igrejinha humilde que, a despeito do uso torto que alguns fazem de religião, conforta almas machucadas e salva vidas de pessoas tão invisíveis quanto ele. Ou a tiazinha da cozinha de uniforme azul e branco e cabelo preso, mãe de santo da Umbanda que atende de graça os que procuram conforto naquela fé, ela mesma tão discriminada e incompreendida pelos mesmos motivos: por ser preta, por ser brasileira, por ser humilde. E o pessoal do samba? E os que levam o sopão e agasalho pros que estão na rua, sem abrigo, comida e dignidade? Acima de tudo, os que suportam as humilhações e más-vontades cotidianas só para conseguir manter suas famílias com o mínimo de proteção e perspectiva (o que já é um feito quase que milagroso para tanta gente).

Muitas vezes, esperando por alguém atrasado ou por causa de um compromisso cancelado qualquer, fico observando essas pessoas trabalhar. O que me impressiona é o contraste. Não muito mais perceptível que uma porta automática em um contexto, eixo dos acontecimentos em outro. Excluído de um “bom dia” de segunda à sexta, Sol do sábado e domingo. Essas pessoas são as que fazem o mundo andar. São as que criam, nutrem, ensinam, preservam, acreditam, compram, se submetem. Todo e qualquer governo que se arroga o direito de existir deveria ser para elas. E se você acha piegas ou clichê o que estou dizendo, é muito provável que esteja certo. Quando alguém se propõe a escrever textos públicos corre o risco de ficar sem assunto, falar besteira e errar a mão no que escreve. Risco calculado, “ossos do ofício”. Mesmo assim, faça uma experiência: olhe para essas pessoas no rosto, “na bolinha do olho”. Perceba o quanto de você há nelas. Sinta a alma que existe atrás da expressão mecânica, alugada, social. É o que se busca expressar com um cumprimento usado na Ásia e que é normalmente associado ao Yoga, mas que na verdade é apenas uma questão de respeito no convívio: as mãos espalmadas postas à frente do peito com os dedos para cima mostrando o todo, o ligeiro curvar pra frente e a saudação opcionalmente falada que acompanha o gesto: “saúdo-te”. Namaste.

Sua atenção tem o poder de salvar o dia de alguém. Algumas vezes muda o curso de uma vida. Ou de duas, três e muitas mais, se você se permitir.

Bom dia, boa tarde, boa noite!

 

Lobotomia Musical

Não tenho pretensão de passar como intelectualóide pra ninguém aqui. A imensa maioria do que publico, debato e defendo é conhecimento de vivência, de ir buscar. Autodidatismo puro, não acadêmico. Nunca gostei de escola. Alguns dos meus amigos do Facebook estudaram comigo no primário e sabem que eu era líder, mas para cabular aula, desrespeitar regras, arrumar briga e jogar futebol. Levei tanta advertência na época que acabei cometendo meu primeiro crime na vida: aprendi a falsificar a assinatura da minha mãe para colocar no boletim de advertências, pra evitar levar uns “croque” em casa. Deu certo e passei impune, pois faz tempo e meu crime prescreveu (chupa, Maluf!). Minha mãe batia batendo, chapa. Negócio tenso. Mesmo assim, não faça isso. Não falsifique assinaturas, não cabule aulas, não brigue com seus coleguinhas e, acima de tudo, jamais dê atenção aos meus conselhos. Eu tinha notas boas na escola, sempre tive, mas acho que é porque sempre gostei de ler e me informar. Tais notas faziam com que professor@s muitas vezes fizessem vista grossa para meus petty crimes e preferissem exibir minhas provas para os outros alunos, o que para um adulto pode até “massagear o ego” (que expressão lamentável, desculpe!), mas para um pré-adolescente com reputação de bad boy representava a suprema humilhação, o horror absoluto. Ganhei a pecha de “inteligente”, palavra que não gosto muito porque acho vaga, além de não servir para muita coisa na prática.

É preciso ressaltar que não estou aqui fazendo apologia da ignorância ou dizendo que estudar é errado. Muito pelo contrário, aliás. Estudar sempre, estudar muito, estar sempre preparado, especializado e atualizado é cada vez mais imprescindível em um mundo onde as pessoas são números, a oferta de trabalho é condicionada ao preparo teórico e quem manda é o “mercado”, a suprema força do capital. Para ele seu caráter, valores, fé, integridade, firmeza de propósitos e outros atributos aparentemente desejáveis só servem pra alguma coisa se puderem ser usados na relação custo-benefício. Senão você é “descontinuado” e outro assume seu lugar, tchau e bênção. Sem amor, preliminares, jantares, ligação no dia seguinte ou beijo na boca. Então estude, prepare-se. Principalmente Língua Inglesa (aqui não vai interesse próprio de forma alguma, if you know what I mean – by the way, in case you need effective lessons for affordable fees, please get in touch via this blog or text me on Facebook, okay? Thank you for nothing).

Estudar por conta própria e o que se gosta é um privilégio. Hoje em dia tudo está a um clique de distância, a Internet é uma coisa linda (pausa para enxugar as lágrimas). Ultimamente tenho lido muito sobre Budismo, física quântica e magia. Riponga total, abraçador de árvores. Comprei um livro do Eliphas Levi, mas não vou colocar a capa aqui porque a imagem de Baphomet tem o mesmo poder que uma foto do Lula para muitas pessoas: seus circuitos neurais são bloqueados e o raciocínio deixa de existir imediatamente. Daí eu passo de “inteligente” a “endemoniado” em instantes. Deixa o primeiro adjetivo mesmo, que é mais fácil de frustrar.

Todo esse preâmbulo aka enrolação para chegar onde eu queria: na música. Taí um troço que eu gosto de estudar, sem fins lucrativos ou sem fins de qualquer natureza. Sem fins, tá afins? E aí eu mergulho na parte teórica da coisa de cabeça. Conheço razoavelmente História da Música como um todo, sei identificar estilos, influências e nuances, mas tocar mesmo nada. Espanco o violão de um modo que só dá pra ouvir bêbado, é uma tristeza. Meu talento musical se resume ao berimbau. Ótimo, na verdade todo mundo atravessa a semana se esfolando de trabalhar apenas para poder chegar na sexta-feira e ouvir alguém tocar berimbau, non è vero? Não, não é. Não sou nem músico frustrado, sou um não-músico. Depois eu vejo isso, Claúdia. Senta lá.

Tenho notado que as pessoas associam o fato de se gostar de alguma canção a gostar da pessoa que a fez, o que me parece natural e lógico. Sua arte em tese reflete você mesmo. Aí eu entro no twilight zone do meu cérebro de vez. Há muitos artistas que são pessoas bastante complicadas, algumas delas escrotas mesmo, mas que produziram e produzem coisas lindíssimas, emocionantes. Outro dia estava falando sobre o Lobão. Sua capacidade cognitiva, seu preparo intelectual e mesmo as diversas experiências de expansão de consciência que teve na vida não impediram que ele se tornasse um sujeito abjeto, racista e intolerante. Na verdade são agravantes, porque se o cara é ignorante ainda tem uma desculpa. Lobão é xenófobo, atribui traços de caráter das pessoas às suas origens. Qualquer coisa que seja dita em inglês para ele tem mais valor apenas por ser em inglês. Cita livros que nunca leu, tem a necessidade de diminuir os outros para ressaltar suas qualidades, é extremamente mimado e ególatra. Ninguém presta na música brasileira, apenas Ultraje a Rigor, Lulu Santos e outros que se alinham com ele politicamente ou  lhe dizem amém. Se bem que nem vou entrar no aspecto político da coisa porque seria uma simplificação e um erro. Já me declarei “de esquerda” algumas vezes, mas na verdade é porque muito do que eu acredito é defendido dentro daquele espectro. Pra mim esquerda é contestar, é o não-establishment. Não é a visão convencional que passa necessariamente por socialismo, comunismo e outros ismos. Quando você se define de esquerda ou direita ou centro, passa a pensar de forma monocromática. A coisa precisa primeiro se encaixar na sua ideologia (que aliás é diferente dependendo do lugar) para depois você atribuir valor a ela, quando na prática o que acontece é o contrário: certo é certo, errado é errado e mais ou menos é mais ou menos, não importa de onde venha. Depois que se vê onde cabe. Tendo à esquerda, mas prefiro acreditar que ainda estou pensando. Não vejo política como religião, não vejo religião como solução, não vejo solução para política. Lobão é de direita, da parte mais ignóbil que ela representa: a do racismo, separatismo, eugenia e preconceito. Sieg Heil.

Mesmo não gostando nem um pouco dele como pessoa, há várias de suas músicas que são importantes pra mim, sempre as escuto. Notadamente Noite e Dia, Corações Psicodélicos, Essa Noite Não, Me Chama, Chorando No Campo, Rádio Blá e Vida Bandida. Contraditório? Totalmente. É o meu jeitinho. Tanto assim que recomendo: ouça Lobão, mas só as músicas. Quando ele estiver falando alguma coisa, troque sua voz pelo chiado da TV sem sintonia ou pelo barulho de um liquidificador em funcionamento, que é mais agradável. E acima de tudo, novamente, jamais siga meus conselhos. Estou tão ou mais perdido que você.

Há muitos outros exemplos de músicos que eram ou são pessoas de caráter Total Flex, por assim dizer: Tim Maia pegava dinheiro antecipado de shows e não aparecia, ficava em casa se entupindo de sorvete e fazendo seu Triatlo. Chuck Berry esteve envolvido em corrupção de menores e escândalos sexuais, Bon Jovi traficou drogas; Peter Tosh certa vez marcou dois shows em SP, no extinto Olympia. Pegou o dinheiro adiantado, fez um dos shows apenas, apareceu em uma novela da Globo cantando Bush Doctor e seus versos educativos “legalize marijuana / down here in Jamaica“, fumou metade da maconha disponível no Brasil e se mandou pra casa, deixando o outro show por fazer. O homem era tão enrolado que morreu na bala, dentro de casa, devendo pra Jah e o mundo. Bob Marley era contra a Babylon, mas certa vez comprou um BMW e justificou dizendo que era por causa da sigla, que lembrava “Bob Marley & The Wailers”. Ok, Bob. Já deu de kaya por hoje, nêgo. John Lennon tratava  o primeiro filho, Julian, igual a um cachorro sarnento. Não era filho de Yoko Ono, a única coisa que importava para ele a certa altura da vida. Paul McCartney escreveu Hey Jude em homenagem ao menino, de dó. Vários outros casos mostram que as rameladas são a regra, não a exceção.

Enfim, ser humano é um bicho estranho. Seja quem for, em qual atividade esteja envolvido, conhecido ou anônimo. Portanto, se eu tivesse autoridade para recomendar algo, diria para evitar ídolos infalíveis, lembrar que seu Rock Star favorito é uma pessoa cheia de medos e dúvidas e preconceitos igualzinho a você é o principal: ouça o que eu digo, não ouça ninguém (essa eu acabei de inventar)!

Pra fechar ilustrando a coisa toda, um pouco de Madonna. Essa também é uma coisinha bem contraditória mas, Deus do céu, como é diva!

 

Desiderata

O termo desiderata é originalmente latim, algo como “coisas desejadas”. Renato Russo usa um verso do poema homônimo (tema desta postagem) na canção Há Tempos, a primeira do álbum As Quatro Estações. Ouvi a música na adolescência muitas vezes, como venho ouvindo seus versos desde criança. A Legião Urbana contribuiu para a formação do meu caráter, na verdade. Só o último disco, A Tempestade, ainda me soa sombrio e pessimista demais. Renato estava morrendo, sabia disso e cantou morte de ponta a ponta na ocasião. Não gosto muito desse álbum em particular, mas sempre fui fã. Meu disco favorito deles é Dois, de 1986.

Ele era um poeta triste, de uma inteligência sofisticada e que sofria com drogas, álcool e amores complicados. Uma das canções de amor mais bonitas que conheço foi escrita por ele, para um homem: Maurício. Renato era homossexual. Amor é de sentir, não de escolher. Morreu jovem, aos trinta e seis anos de idade (assim como Elis Regina e Bob Marley) e deixou uma obra sem paralelo na música brasileira. Por muitas vezes a Legião Urbana soa como Gang of Four, Morrissey & The Smiths ou uma ou outra banda do pós-punk inglês e dos EUA, mas isso é homenagem. Não plágio, cópia. Todos nos inspiramos em alguém, não é verdade? Ele deu sua cara, sua voz e sua alma. Tudo se transforma, nada se cria.

Voltando à Desiderata, do escritor estadunidense Max Ehrmann: o poema foi escrito em 1927 e encontrado dentro de um livro em uma igreja em 1962. Dispensa maiores apresentações. No inglês original fica mais belo ainda. Trata-se de um “manual de instruções” sobre como viver. É todo seu:

   “Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. Tanto que possível, sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam.

   Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes – eles também tem sua própria história.

Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito. Se você se comparar com os outros você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você. Viva intensamente o que já pode realizar.

Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde, ele é o que de real existe ao longo de todo tempo. Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença, a virtude existirá sempre.

Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui e mesmo que você não possa perceber a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.

Muita gente luta por altos ideais e em toda parte a vida está cheia de heroísmos.

Seja você mesmo, principalmente, não simule afeição nem seja descrente do amor; porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva.

Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensível aos impulsos inovadores da juventude.

Alimente a força do Espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários, muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

E a despeito de uma disciplina rigorosa, seja gentil para consigo mesmo. Portanto esteja em paz com Deus, como quer que você O conceba, e quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações, na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma.

Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito, seja prudente.
FAÇA TUDO PARA SER FELIZ”

Boa noite pra quem é de boa noite, bom dia pra quem é de bom dia!

O errado é o novo certo

“Ia pro trabalho, cansado / às seis da manhã / ouvia no seu rádio calcinhas / e sutiã”

Circular por São Paulo é um negócio louco: pode ser animador, deprimente ou automático, dependendo do gosto do freguês. Veja os workaholics corporativos, por exemplo. Sempre imersos em seus deadlines, feedbacks, workshops, BU’s, BI’s, bottom lines e haja termos em inglês para dar uma roupagem mais business-friendly para o fato de trabalharem feito abelhas, run-of-the-mill. SP tende a ser ferramenta. O dinheiro está aqui, os contatos, as pessoas. A máquina azeitada e sempre em funcionamento do capitalismo selvagem. Food trucks gourmetizam um prosaico pão com salsicha a ponto de ele virar um Royal Zig Zig Sputnik Master Blaster Hot Dog Power Sandwich. Assim você paga cinco vezes mais por ele e esquece um pouco que está se alimentando mal do mesmo jeito. É mais chique chamar alguma quase-comida de junk food do que de “mas que porra é essa que você tá comendo?”. English, dude. Deal with it.

Hoje de manhã, madrugador que sou, estava circulando pelo Morumbi já pelas sete horas perto do Shopping. Começo às oito por ali, mas experimente tentar cruzar a ponte do Morumbi nesse horário e deixe de ter dúvidas sobre a existência do inferno. Tudo bem, jogado aos seus pés eu sou mesmo exagerado e adoro um amor inventado. Ainda assim, vai indo que eu não vou. Prefiro chegar mais cedo mesmo e ler algo na internet, tomar um café ou adiantar algum trabalho a ficar dentro de um carro preso no engarrafamento.

Dei de cara naquela hora com uma cena daquelas que acorda o sujeito melhor que qualquer café melado da tia da Kombi na rua, vendido por um dinheiro e meio e ameaçado de confisco pelo bar da frente que reivindica seu direito de vender café colombiano com espuminha cor-de-rosa e que é “amigo” do fiscal que por sua vez é amigo dos amigos e tem-um-qualquer-aí-pra-mim-senão-vai-ficar-difícil-de-você-trabalhar-porque-essa-área-é-minha-e-todo-mundo-paga-não-é-permitido-mas-a-lei-sou-eu-e-já-era-senhora. Outra história, no entanto.

Um grito: “PEGA!”. Um cara de seus vinte e cinco anos correndo feito o Usain Bolt passa a mil e setecentos de jeans e jaqueta vermelha, seguido de outros dois. Outro grito, dessa vez de dentro do ônibus que passava: “QUEBRA ELE!” A atmosfera do lugar mudou em milisegundos, a tensão substituiu o marasmo daquela quinta-feira repetida, estilo Groundhog Day.

“Ladrão”, meu instinto me avisou. “Foi roubar e se deu mal. É o preço.” Havia uma fila de carros naquele trânsito cagado do lugar, e foi quando os motoristas de dois deles meteram a cabeça pra fora e se juntaram ao coro de “ESFOLA! MUTILA! EMPALA!” e outras “solicitações” que eu percebi que todo mundo meio que pensou a mesma coisa. A diferença foi que eu e uns poucos outros apenas queríamos sair dali. Eu não tinha certeza se o cara era ladrão, se os que tentavam alcançá-lo é que eram ou nenhuma das duas coisas. Se fosse, concordo que segurassem o cara pra polícia chegar e fazer seu trabalho e entendo perfeitamente que, no calor do momento, acaba sobrando o chamado “salve”. Não se toma as posses alheias e se espera flores amarelas em retribuição. Vai apanhar mesmo. Mas não ser mais errado que o errado pra querer ser o certo, que foi o que aconteceu.

Aqueles homens bem vestidos em seus carros não tinham a menor ideia do que estava acontecendo ali. Ainda assim seu veredito foi instantâneo: morte e forca e linchamento e fogueira e cheque-mate e “vamo que vamo”. Os homens continuaram correndo por entre os carros, até que um dos perseguidores acertou um chute nas pernas do cara que fugia, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse no asfalto, a uns trinta metros de mim. Perdeu. Foi alcançado e impiedosamente espancado, de tal modo que eu virei a cabeça para não ver e caminhei pra longe dali. O infeliz deve estar apanhando até agora.

Daí que vem minha inquietação: estava tudo transcorrendo pacificamente, os códigos tácitos de convivência sendo cumpridos com seus bons dias e com licenças e pode passar e por favor e nossa que tempo louco até que um corre-corre aflorou a barbárie e os distintos cavalheiros se transformaram em bestas-feras agentes da vingança, que poderia até mesmo ser contra coisa nenhuma. Não é a opinião ou o sentimento em si, mas a presunção automática do que está acontecendo e a reação que se tem a partir disso: com os olhos cheios de ódio, babando em suas gravatas caras, encolerizados pela atuação de um ladrão que eles sequer sabiam se de fato o era e se tinha feito algo. Os envolvidos na correria tinham condições de fazer julgamentos e acertar ou errar a partir disso. Os outros só tinham ódio. Quem se importa?

É um padrão. Se um motoboy cai na pista, um enxame deles se aglomera em volta da cena em segundos. Qualquer pessoa que esteja envolvida na queda ou mesmo que tenha parado para ajudar provavelmente será hostilizada, possivelmente agredida. Estando certa, errada ou tendo sido envolvida na situação. Vira motoboy x não-motoboy. Por outro lado esses profissionais sofrem o desprezo de muitos motoristas, que não apenas não colaboram com eles mas chegam a jogar os carros pra cima, fechar e impedir a passagem de propósito. O mesmo quando uma pessoa faz alguma barbeiragem no trânsito. Passa a ser inimigo mortal de alguém imediatamente. A atitude desrespeitosa precisa ser “punida” de preferência com um desrespeito maior ainda.

As pessoas andam intolerantes, as relações são apenas utilitárias, as interações obrigatórias, impessoais e protocolares. Há uma mistura perigosa entre o que é justiça e o que é vingança, a Lex Talionis parece ser cada vez mais a norma e respeito e empatia genuínos estão bastante escassos. Tudo isso impulsionado por stress galopante, competição desleal, drogas legais e ilegais, álcool, solidão, frustrações em contraste com expectativas e maus exemplos das chamadas autoridades constituídas na política institucional.

O errado, chapa, é o novo certo. Como já li em algum lugar, “em tempos de ódio é bom andar amado”. Consegue?

Eis aí meu blog

“Boa noite pra quem é de boa noite / bom dia pra quem é de bom dia / a bênção, meu papai, a bênção / Maculelê é o rei da valentia”.

Eu costumava cantar esses versos a plenos pulmões na minha época de Capoeira, nas cerimônias de troca de graduação, os “batizados”. Já faz um bom tempo. Sempre gostei da entonação do canto, da força da dança ancestral com seus facões, suas vestes e os atabaques inspirados na Mãe África. Pessoas, geralmente da pele preta, levando adiante a mistura das tradições de vários povos que se fundiram nas senzalas daqui. Não tinha experiência ou “leitura” (como dizem no Norte/Nordeste) para processar aquilo tudo racionalmente, mas sentia o que depois descobri ter nome: egrégora.

É um conceito interessante. Basicamente ensina que uma força ou energia emerge da união de pessoas com o mesmo propósito. É algo como uma “alma coletiva”, que impulsiona e canaliza uma certa intenção na busca de um objetivo, que pode ser vencer uma batalha ou demanda, um jogo, um desafio qualquer ou apenas dar sentido à uma celebração. As galeras romanas com seus remadores ao som de tambores formavam egrégoras. As torcidas de futebol nos estádios também se utilizam delas, assim como  cultos e rituais em igrejas e templos de várias religiões mas da mesma fé empírica. O público de shows musicais, as pessoas que se reúnem para uma festa ou um funeral. É uma coisa muito humana, muito antiga e todo mundo já ajudou a construir uma, deliberadamente ou não.

Este blog pretende ser uma egrégora que tenha surgido dos meus costumeiros “textões” no Facebook, que bastante gente gosta, comenta comigo a respeito e me estimula a escrever mais. Aquela plataforma, embora possa ser muito útil, não dá conta de marcar links com referências, usar recursos de multimídia e produzir textos maiores, entre vários outros recursos que atendem melhor o tipo de conteúdo que pretendo usar. Por isso aqui estamos.

A palavra blog é uma corruptela do termo em inglês web log, algo como diário na rede. Diários são pessoais. Este aqui não aborda um tema específico, sua linguagem e seus temas mudarão conforme a liberdade que pretendo ter (toda a possível, logicamente). Pode palavrão, pode religião, pode política. Pode esquerda, direita, mureta e corneta. Pode sexo, drogas e rock’n’roll. Pode sagrado, pode profano e pode cético. Pode coxinha, mortadela, ketchup e mostarda. Pode preto, branco, amarelo e cor de burro quando foge. Gay, hétero, bi, tri ou pentasexual. Pode Português, English and whatever else we can think of. Barba, cabelo e bigode. Sobrancelha, unhas e progressiva. Não haverá muita edição, muita firula ou revisão. Sem gourmet, rigor estético ou frescuras em geral. Escrever do celular na padaria enquanto toma café também vale. E às vezes vale mais que qualquer outro jeito, aliás. Só não haverá por aqui desrespeito, truculência e cagação de regra. As perguntas sempre são melhores que as respostas.

Espero que gostem, porque acredito sinceramente que ler é uma atividade libertadora, fundamental. Se tudo o que eu conseguir expressar aqui servir para inspirar qualquer pessoa que seja a ler mais e melhor, o blog já terá atingido seu objetivo. Estejam à vontade, mi casa, su casa!

Obrigado pela inspiração e por sua visita. Volte sempre que quiser.