Sartre, fascismo e as Eleições 2018

“O inferno são os outros”, disse Jean-Paul Sartre.

Na mentalidade fascista, dualista, é preciso que haja um “inimigo” a ser combatido. O mais clássico é o diabo, logicamente.

Na História já foram os judeus, os comunistas, os ciganos, etc.
Hoje é a “esquerda”, essa entidade imaginária que serve basicamente pras pessoas elegerem um “mal comum”, um satanás qualquer, e não assumirem a responsabilidade por sua própria sombra, seus próprios ódios, limitações, medo e mesquinhez. Fascismo tupiniquim tacanho e escroto que põe vidas em perigo e julga o caráter alheio sem empatia ou misericórdia, muitas vezes escondido atrás da religião que é supostamente misericordiosa por natureza, a de Yeshua Ben Yosef, Jesus Cristo. Aquele mesmo que perdoou um ladrão na cruz e ensinou a “amar seus inimigos e orar pelos que lhe caluniam”.

Dois mil e dezoito anos depois, muitos dos que dizem segui-lo fazem campanha para um candidato que declarou ser seu livro de cabeceira “A Verdade Sufocada”, de Brilhante Ulstra, torturador que prendia canos de PVC com ratos dentro ao corpo de suas vítimas e um lado fechado, pra que eles tentassem sair pelo outro lado roendo a vagina de mulheres “comunistas”, “subversivas” ou qualquer outro rótulo que tirasse sua humanidade e as transformassem no “inimigo”, o “diabo”. Seja lá qual for o deus que estimula, aceita ou corrobora com isso, dele eu quero apenas distância. Amém.

Natal, coisa e Tao

Mais um Natal vem aí. Por mais que às vezes eu me sinta meio party pooper por ter o costume de ficar procurando a origem das coisas (o “pé da fita” como se diz na quebrada), também é uma coisa que eu gosto muito de fazer, um hobby mesmo. Uma pegada meio historiador amador ocultista questionador subversivo chatolino TDAH hippie punk Rajneesh. Nessa, se tenho um blog pra escrever coisas, não seria o Natal a ficar de fora. Logo ele, provavelmente o evento mais importante da chamada Civilização Ocidental.

Jingle Bells. Sistema Natal in full swing. É um negócio tão enraizado no inconsciente coletivo que muito pouca gente se dá conta do fato de que tem feito em média 37° C em São Paulo por esses dias enquanto dá-lhe decoração de neve e snowman e Papai Noel e rena e o escambau. Todo mundo no rush automático de final de ano, metade reclamando que “passou rápido” e outra metade de 2018 “que não chega logo”, enquanto as luzes piscam, coloridas. Em ambos os casos a mente querendo o passado e o futuro e não o presente, único tempo em que as coisas acontecem. Ansiedade é o mal do milênio.

É relativamente conhecida a ideia de que a História é escrita pelo vencedor, o que significa que as versões dela adotadas oficialmente por países, povos e culturas têm bem mais a ver com os interesses de quem dita as regras naquele contexto do que com a realidade dos fatos propriamente dita. É muito mais difícil emprestar glamour e nobreza (conceitos tão abstratos quanto vazios) às rotinas entediantes da vida, à burocracia, afinal. Bem melhor colocar uma trilha sonora e um cenário, heróis e vilões, bem e mal, Superman versus Lex Luthor.

Legal, mas onde essa filosofia de boteco se aplica ao Natal, meu querido? Menos beating about the bush e mais Merry Christmas.

Então tá. Você tem uma árvore de Natal em casa? Eu não tenho, minha gata Gilda não gosta. Ou gosta demais para deixar uma delas inteira. Mesmo a árvore pequena que tínhamos na sala foi atacada furiosamente. Vira e mexe estava caída no chão ou havia várias bolinhas e enfeites mastigados e espalhados pela casa que acabavam pisoteados, chutados e jogados no lixo. Desistimos. Se você consegue ter uma, parabéns. Faça bom proveito.

Que mané “árvore”, porra nenhuma…

As origens da árvore como símbolo do Natal provavelmente têm a ver com o rigor do inverno em algumas regiões do Hemisfério Norte. Folhas verdes que duravam bastante tempo eram uma espécie de amuleto para alguns povos antigos, uma lembrança do poder do primeiro elemento da natureza a ser tido como um deus: o Sol ( leia em negrito abaixo na parte “digressão”).

As árvores dentro de casa durante o período mais frio do ano espantavam os maus espíritos pois eram um resquício da existência dessa divindade que as fazia existir e erguer-se do chão em direção aos céus. Outros povos consideravam as próprias árvores seres divinos. Uma cultura foi influenciando e incorporando elementos de outra até chegar na cristandade, quando tal crença foi de início combatida e por fim absorvida no melhor estilo “se não pode vencê-los junte-se a eles” que a Igreja Católica costuma adotar caso não consiga impor sua vontade integralmente. No caso, tipo “fala que o formato tem a ver com a ‘Santíssima Trindade’ que cola”. Política é a arte do possível e lá está seu pinheirinho de “prástico” piscando na sala até hoje, com algumas lâmpadas queimadas e uns enfeites meio tortos, capengas. Ficou uma bosta, aliás. Você também tem gato?

E o nosso querido Papai Noel, velho batuta? Originalmente uma mistura de São Nicolau (o termo foi sendo corrompido de Saint Nicholas até chegar em Santa Claus) e o deus germânico Odin, é o capitalismo de roupa vermelha e barba branca. Sua existência baseia-se em uma troca: bom comportamento por um presente, um regalito para ti. Criança pobre não adianta se comportar porque nem assim tem axé, criança rica recebe sua parte no trato de qualquer maneira. Nem precisa entrar no mérito da coisa.
Ainda assim o Papai Noel já fez parte do meu imaginário infantil e gosto do personagem. Particularmente do cara que se caracteriza como tal para ir a eventos com crianças pela brincadeira em si, pelo prazer de ser aquele ícone, aquele avatar. Acho bonito de verdade, principalmente se for um Noel daqueles bem toscos, vestido nuns TNT vermelhos e barba de algodão meio que descolando, suando em bicas no meio da criançada histérica (e em êxtase!). Um sujeito desses vai pro céu direto, sem escalas. Meu heroi. Já o da Coca-Cola eu não gosto. Nem de Coca-Cola eu gosto. Beba Coca-Cola.

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“-Ah, mas Papai Noel preto não existe!”

E tem ainda Jesus no Natal. A dimensão mística, espiritual do evento. Yeshua Ben Yossef e depois Yeshua Hamashia, o Cristo. Senhor e salvador dos cristãos de todas as confissões, origens e denominações. O Verbo Encarnado. O Filho do Homem. Leão Conquistador da Tribo de Judá. Cordeiro de Deus. No Ocidente estamos no final do ano 2017, contados a partir do seu nascimento. Não acho que precise de mais apresentações para você saber de quem estou falando. Não há nenhum registro histórico que ligue o Natal ao nascimento de Jesus, como há muito pouco registro histórico da própria existência de Jesus em si. Além disso as passagens da bíblia muitas vezes são metáforas, alegorias. Outras são inspiradas em textos antigos como a Epopeia de Gilgamesh. Está tudo aí. Quem busca, acha. Ao que bate, abrir-se-lhe-á.

Também se confunde tradição e cultura de um lugar onde a crença evoluiu com cânone religioso, dogma. Você não encontra bíblia alguma que mencione Melchior, Balthazar e Gaspar ou que diga quantos eram os “magos do Oriente” que foram estar com Jesus. No entanto, todos sabem sobre os Três Reis Magos e eles têm um dia no calendário católico, seis de janeiro. O fato é que afirmar que Yeshua Jesus nasceu naquele dia tem 1/365 chances de estar certo e foi inserido artificialmente em um contexto que já existia, o do Sol Invictus (depois copiado pelos césares), que tinha a ver com o solstício de inverno e os três dias em que o sol ficava “parado” ou “morto” no céu até começar a “voltar”, ou “ressuscitar”. Havia um culto ao deus persa Mitra associado a isso. Os romanos passaram a atrelar a tradição existente a Jesus no ano 354 da Era Cristã. Incorporaram a celebração e deram a ela novo contexto e sentido.

Sol Invictus
Sol Invictus, pique Coringão

Eu posso dizer de mim que sou cristão, no sentido de procurar absorver e praticar os ensinamentos de Jesus, de imitá-lo. Faço orações conforme Ele me ensinou com frequência. Acalma minha alma em muitas situações, me ampara, me direciona e me conforta. Mas não sou cristão de dogma, de irreflexão, de parcialidade. Sou buscador, não ovelha. Jesus não é meu nem de ninguém. Nem padre, pastor, sacerdote ou membro de qualquer código ou tradição. Pelo que eu consegui entender até agora seu ensinamento mais fundamental, aquele que faz com que todos os outros sejam possíveis, é “amar ao teu próximo como a ti mesmo”. Poucas palavras. Um universo inteiro de espiritualidade contido nelas. Quando você se percebe no outro, todo o seu comportamento reflete isso. Um círculo virtuoso se inicia.

Religião

Religião por si é uma estrutura essencialmente política. Ateus ou praticantes de cultos não-cristãos não são mais ou menos éticos e sociáveis que ninguém por questões metafísicas, mas por empatia e amor ou falta destes. Jesus (que a propósito era judeu) não disse “ame a outro cristão como a ti mesmo”. Disse para amar o próximo. Ponto final. Qualquer sinônimo de “próximo” se encaixa nessa versão, nessa língua. Conseguir fazer isso já te faz um ser iluminado, chapa, um Buda praticamente. Basta você se imaginar praticando o ensinamento no dia a dia. Não precisa fazer mais nada, só isso já alimenta o ciclo de encontros, afetos, respeitos, cuidados. E aí você vive, evolui, ascende, se eleva.

A fé sem obras é morta, você tem que exercê-la, praticá-la. O resto é querer pegar Jesus pra si. Fundamentalismo irracional e fascistóide, farisaísmo. Só serve pra fomentar ódios, divisões, rancores e incompreensão. Não gosto, não aprovo e não colaboro. Sou a favor da vida: cada um cuidando da sua. Primeiro tirar a trave do meu olho pra conseguir enxergar o cisco no olho do meu irmão. De sangue, de fé ou de existência. Sem rótulos nem código de barras espiritual. Quem sou eu para ter alguma autoridade sobre a espiritualidade alheia? Quanta arrogância ignorante há em quem acha que tem? Cego levando outro cego, caem os dois no buraco.

Gosto da data em si, do que o Natal representa para mim. Estar em paz consigo e com os demais, reunido em harmonia com pessoas importantes ou mesmo sozinho, em reflexão e prática desse ensinamento do Cristo, o amor incondicional. O amor que você dá volta pra você. O que você não dá também. Se te pedirem a capa, nem a túnica recuses. Se te faz andar uma milha, vai com ele duas.

Espero que este texto tenha te alcançado em um momento de paz interior e tranquilidade ou contribuído para que eles se instalem. Seja lá qual for o significado que você atribui ao Natal, que essas palavras possam lhe ter alguma utilidade, nem que seja voltar ao momento da sensação antes da interpretação que a mente dá a ela, transformando o que é positivo em estímulo, negativo em repulsa e neutro em ignorância. Antes que qualquer um desses três aspectos se forme, vedana.

Feliz Natal!

DIGRESSÃO: a afirmação de que “a humanidade inventou deuses para si” não é desrespeitosa com a religião de quem quer que seja, tampouco exclui a ideia da existência de Deus. Não tenho interesse algum, autoridade ou conhecimento para dar palpite, orientação ou parecer de qualquer natureza nesse campo. Estou apenas constatando um fato. Os povos primitivos atribuíam o calor, a luz, o alimento e todo o conforto e perspectivas que o Sol oferecia ao poder de um deus (o que não deixa de ser verdadeiro em um certo sentido).

Existe uma verdade que independe do nome ou forma que as pessoas dão aos seus deuses e ela sempre se manifesta da mesma maneira em todos os lugares e para todos os seres. Queira você (ou tenha sido condicionado a) chamar seu deus de D’us, Jeová, Jah, JHVH (Tetragammaton), Adonai, A Deusa, Allah, Javé, Olorum, Zambi, Brahman, Consciência Cósmica, El, Odin, A Lei, Zeus ou Maradona, a água continua molhada, as coisas sempre caem pra baixo, a noite é escura, o fogo é quente, o arco-íris tem sete cores e a terra gira em torno do Sol. O funcionamento inexorável dos processos do universo, o todo, é também conhecido como Tao, ele mesmo uma forma de se tentar entender Deus, um mistério tão colossalmente grandioso, além do tempo e do espaço, que eu tenho a impressão que qualquer pessoa que tente esquadrinhá-lo usando uma ferramenta tão limitada quanto a mente humana inevitavelmente estará “chutando” e diminuindo o conceito pela simples tentativa de atribuí-lo um nome e uma forma. Mesmo ateus e agnosticos muitas vezes não rejeitam a ideia de uma força causal, criadora em si, mas a atribuição de uma personalidade a ela.

Convenhamos (como diz o místico yogi indiano Sadhguru): se você fosse um búfalo, como seria o seu deus? Certamente um búfalo gigante, talvez com quatro chifres. Também vejo sentido na afirmação que “se os animais tivessem uma religião, o ser humano seria o diabo”. Ou não? 

Toda imagem que qualquer cultura consegue fazer de Deus é uma versão exagerada dela mesma, porque é assim que se imagina conseguir chegar mais próximo de compreendê-lo. O fato é que nos achamos muito especiais e inteligentes, mas sabemos muito pouca coisa sobre quase nada. De todo modo, “a religião certa é aquela que te faz uma pessoa melhor“, mesmo que ela seja nenhuma ou um pouco de cada.

 

 

Ode ao madrugador

Não posso dizer que escolhi a madrugada como habitat. Fui escolhido por ela, na verdade. Sou daqueles que não precisa de muitas horas de sono pra estar inteiro no dia seguinte. Se conseguir seis horas bem dormidas já fico bem. Reflexos, raciocínios e metabolismo em perfeitas condições. Entendo que sou um espírito habitando uma carapaça temporariamente e que é meu trabalho garantir a preservação e o bom funcionamento dela, pra que minha mente (ponte entre espírito e corpo) possa estar em boas condições e trabalhe a meu favor, não contra mim. Quisera eu ter essa noção antes, mas não tinha. Já era, estraguei meu organismo durante anos com química e pensamentos tóxicos. Algumas coisas dá pra recuperar, outras reverter e outras melhorar. Mas há também aquilo que é preciso aceitar e se render, dá pra aprender muita coisa fazendo isso. Recomendo.

Gilda, rainha da madrugada

Acontece que qualidade de sono é artigo raro, aparentemente. Tenho a impressão que depois da adolescência (quando eu mesmo dormia até meio dia facilmente) as pessoas dormem cada vez menos e pior. Cigarro, álcool e medicamentos influenciam também, agridem e desequilibram. Outro dia estava lendo sobre os short sleepers, pessoas que dormem quatro, cinco horas por noite e conseguem estar inteiros, fully functional pela manhã. Cada vez mais me vejo e aceito ser um deles. Talvez por herança dos genes do meu pai, que é sempre o último a ir dormir e o primeiro a estar acordado. A diferença é que ele bebe quantidades carnavalescas de cerveja e fuma bagaraio, e eu abandonei o uso de substâncias “estupefaciantes” (como diria o Luiz Thunderbird) há tempos. Cigarro há dez anos, bebida alcoólica há três. O corpo se acostuma tanto com agressões quanto com a falta delas.

Me lembro bem do que chamo de “sono de bêbado”. Não é um sono propriamente, é uma espécie de desmaio, de desligamento. O ritual é sempre o mesmo: seu corpo parece estar obedecendo e seu raciocínio parece que presta para alguma coisa, mas na verdade você está a beira de um colapso total. Continua agindo quando já parou de pensar, fala cada vez mais mole e cada vez mais merda. Sua “conversa” consiste em um monte de trocas dos sons das palavras e cuspes na cara do seu interlocutor. Na sua cabeça você é bonito, sábio, rico e interessante. Na realidade já passou de “mala” pra “container” faz tempo. Vai deteriorando até que acaba a cerveja, a paciência de alguém, o evento ou a noite e é inevitável: sua fuga da realidade acabou e você precisa dormir. Com sorte não cometeu crime algum e sua liberdade não será tolhida, não dessa vez. Quando a cama que está rodando pelo quarto passa pela sua frente, você cai nela. De jeans, de chapéu, fumando, seja lá como for. Um trapo sujo no chão do banheiro do boteco tem mais dignidade que você. Ronca e baba por umas duas horas, deixando o recinto com aquele cheiro azedo dos gases gerados por essa bomba química em que se tornou. Daí acorda de repente. Olhos arregalados, sono impossível. Não estava dormindo, na verdade. Seu cérebro apenas desligou seu sistema por um tempo pra evitar que você morresse, não é lindo? Ele mesmo não parou, continuou funcionando a um milhão por hora. Por isso o sono de bêbado não é reparador, não descansa. Você acorda de ressaca, prometendo nunca mais beber, tentando sobreviver àquela segunda-feira dia de Exu e fingindo que não está esperando a próxima oportunidade de chapar o glóbulo novamente, fugir de si mesmo novamente, ficar lindo e rico e sábio novamente. Pois é, já estive lá, como se diz em inglês. Been there, done that.

Já foi dito que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“. Conheço bastante gente que tem uma relação saudável com bebida e consegue conciliar seus afazeres com ela, mas quanto mais penso nessa coisa de dependência química mais tenho a impressão que é uma questão de se conhecer, de saber quais limites você consegue esticar e quais decisões precisa tomar. O limite muda, o prazer ilude, o corpo tenta se impor e tomar a mente pra si. Esta já é preguiçosa e influenciável, se deixa levar facilmente. E a espiral descendente começa, arrastando consistentemente, às gargalhadas. Álcool é uma droga socialmente aceita e comercialmente estimulada, o que a torna especialmente perigosa. Todo mundo tem medo das “drogas”, mas quando conta histórias de dependência geralmente é sobre aquele parente alcoólatra que estraga a própria vida e a dos outros. Há um documentário interessante no YouTube sobre o assunto, chama-se Terapia Psicodélica. Recomendo também. Eye-opener.

Ao parar de beber, de cara perdi peso, deixei de roncar e passei a dormir bem melhor. Após três anos o peso se manteve (dez quilos a menos) e o ronco apneico sumiu definitivamente, mas o sono voltou a ficar esquisito. Idealmente durmo das onze às cinco. Seis horas. Se fosse simples assim, estaria ótimo. Só que pouco depois das três da manhã acordo, muitas vezes no mesmo horário exato. Daí que vem: é incrível como meus pensamentos são diferentes dos que costumo ter durante o dia. Imagino que isso tenha a ver com processos químicos do organismo mesmo, afinal o sono tem uma função importante de reparação e organização. Quando o processo é interrompido, é inevitável que haja espaços vazios, pontas soltas, fendas abertas.

Nessas fendas que eu caio. Por vezes presto atenção na cara que a madrugada tem em SP: algumas luzes coloridas, pálidas e tristes. O barulho de uma moto ao longe, sirenes de vez em quando, cachorros latindo, a noite onde as sombras prevalecem, os instintos e os apetites são outros, bem outros. A polaridade se inverte: as plantas sujam o ar ao invés de limpar, o dinheiro cuidado com zelo durante o dia passa a correr atrás do prazer, os corpos se procuram, a beleza e a virtude assumem outros nomes, formas e lógicas. É o negativo da foto, a luz tem outra função. Yin, não Yang.

Fora assim como dentro, em cima como embaixo. Os processos mentais também são bem diferentes no meio da noite. Medos mais profundos, reações mais dramáticas, minutos mais longos. Muitas vezes vem à tona aqueles pensamentos que não temos coragem de confessar para nossa própria alma. Somos monstros, poetas e santos nessa hora. Somos todos aqueles pensamentos e nenhum deles também. Quando a manhã chega e a luz retoma o controle, o que parecia tão intenso e definitivo se esvai, mingua até cair no território dos sonhos e fantasias, aquele mundo onde não sabemos distinguir o que foi vivido do que foi apenas imaginado. E a gente volta a assumir aquela persona que parece mais aceitável: a de gente normal, funcional e respeitável, produzindo para o bem da sociedade. O típico cidadão de bem, seja lá o que for isso. Até vir a próxima madrugada e seus fantasmas a assombrar novamente, mostrando que toda solidão é relativa, todo medo é uma forma de esperança e que quanto mais intensa a luz, mais nítida a sombra que ela projeta.

A madrugada é dona de uma das coisas mais importantes que existem em todos os mundos, em todos os tempos e para além das palavras, gestos e formas. Tudo o que é criado começa nele e só existe porque nossa mente precária precisa de sons e formas para tentar entender o que experimenta. Tudo o que vem dele é redução, simplificação, diminuição e representa apenas debilmente o que é de fato: o silêncio. Todo o barulho que existe é apenas uma imitação dele, uma tentativa irremediavelmente frustrada de reproduzi-lo.

Há um conto Zen de um simples diálogo entre um discípulo e seu professor que ilustra bem isso:

“-Mestre, qual é o primeiro princípio do Zen?”
“-Se eu te disser, ele passa a ser o segundo princípio.”

Tenho a impressão que é no silêncio da madrugada que está toda a sua força. Sou seu aprendiz, já não luto mais. Se passar o dia seguinte bocejando e à base de café, é o preço. Está muito bem pago.

Pessoas invisíveis

Logo cedo fui passar por uma porta giratória de um grande condomínio de escritórios e um senhor dos seus sessenta anos estava limpando os vidros. Notou minha distração por eu estar com a cara enfiada no celular feito os vários zumbis do Walking Dead em que se transformou caminhar por SP, percebeu o que eu faria e disse: “Bom dia! O senhor vai por ali por favor?”, apontando para uma outra porta de vidro que estava escancarada, logo atrás da tela do meu telefone. Foi quem primeiro falou comigo hoje na rua. Uniforme puído herdado de alguém, gestual rápido e determinado de trabalhador atarefado e olhos cansados de quem faz aquilo todo dia, o dia todo. Ao entrar no prédio, os mesmos bouncers de sempre: ternos pretos com ombreiras estilo anos 80, walkie-talkies e sua linguagem de QRA´s, QAP´s e QRU´s. Não entendo esses códigos, TKS por não me ensinar. Recepcionistas com uniformes iguais, rostos diferentes e frases prontas, ensaiadas e repetidas o dia todo. Contas para pagar, desrespeitos para tolerar, sapos e mais sapos para engolir. Mais do mesmo.

Subo até o nono andar. Não tenho um crachá para cruzar a porta travada da empresa dos USA, land of the free and home of the brave. Uma faxineira magra e simpática aperta o passo até mim, para que eu não espere muito. “Vou abrir pra você, professor. Quer café?”. Quero, quero muito. Nunca quis tanto, na verdade. A noite mal dormida provoca bocejos, olhos vermelhos e corpo arqueado. Cafeína transforma essa forma decadente em Mun-Rá, o de vida eterna. Salvo pela senhorinha do café, como muitas vezes em muitos lugares.

Tenho o privilégio de ser visto pelos invisíveis. Os pintados de cinza, azul ou preto. Monocromáticos, monossilábicos, monofásicos. Aqueles que em inglês a gente diz que são “taken for granted“. É como se fossem parte da paisagem. O chão está limpo, as luzes todas acesas, os equipamentos funcionando.  Nem parece que sem eles nada acontece. Acendem luzes, consertam defeitos, limpam espaços, destravam portas, fazem café, carregam peso, intermediam encontros, organizam filas, controlam acesso, repõem materiais. Invariavelmente dentro de roupas discretas, foscas, escuras, pra que fiquem mais invisíveis ainda. Aprendem a olhar de baixo pra cima, ou guardam seus olhares para quando não correm o risco de cruzar com os dos outros. Sempre olham e sempre veem, no entanto. Estão em outra frequência.

Cresci em ambientes e situações nos quais eles não estão soterrados sob seus crachás e tergais. Aquele porteiro preto que não recebe de volta metade dos “bons dias” que profere é também o cara que resolve no futebol de várzea no domingo, por exemplo. Pessoas vão até o campo só pra vê-lo. O futebol é uma linguagem. Suas qualificações, origem ou cor servem para nada diante do domínio debochado dos espaços e tempos que um cara desses tem. Você “não acha nem pra bater”, como se diz. Vai levar um chapéu, um rolinho. Vai levar gols e provavelmente perder o jogo. Ali ele exerce sua plenitude, sua vingança. Só restam duas alternativas: bater palma ou ir brincar de outra coisa. Da mesma forma, a pessoa que limpa os banheiros é o esteio de uma associação comunitária ou religiosa. É o pastor daquela igrejinha humilde que, a despeito do uso torto que alguns fazem de religião, conforta almas machucadas e salva vidas de pessoas tão invisíveis quanto ele. Ou a tiazinha da cozinha de uniforme azul e branco e cabelo preso, mãe de santo da Umbanda que atende de graça os que procuram conforto naquela fé, ela mesma tão discriminada e incompreendida pelos mesmos motivos: por ser preta, por ser brasileira, por ser humilde. E o pessoal do samba? E os que levam o sopão e agasalho pros que estão na rua, sem abrigo, comida e dignidade? Acima de tudo, os que suportam as humilhações e más-vontades cotidianas só para conseguir manter suas famílias com o mínimo de proteção e perspectiva (o que já é um feito quase que milagroso para tanta gente).

Muitas vezes, esperando por alguém atrasado ou por causa de um compromisso cancelado qualquer, fico observando essas pessoas trabalhar. O que me impressiona é o contraste. Não muito mais perceptível que uma porta automática em um contexto, eixo dos acontecimentos em outro. Excluído de um “bom dia” de segunda à sexta, Sol do sábado e domingo. Essas pessoas são as que fazem o mundo andar. São as que criam, nutrem, ensinam, preservam, acreditam, compram, se submetem. Todo e qualquer governo que se arroga o direito de existir deveria ser para elas. E se você acha piegas ou clichê o que estou dizendo, é muito provável que esteja certo. Quando alguém se propõe a escrever textos públicos corre o risco de ficar sem assunto, falar besteira e errar a mão no que escreve. Risco calculado, “ossos do ofício”. Mesmo assim, faça uma experiência: olhe para essas pessoas no rosto, “na bolinha do olho”. Perceba o quanto de você há nelas. Sinta a alma que existe atrás da expressão mecânica, alugada, social. É o que se busca expressar com um cumprimento usado na Ásia e que é normalmente associado ao Yoga, mas que na verdade é apenas uma questão de respeito no convívio: as mãos espalmadas postas à frente do peito com os dedos para cima mostrando o todo, o ligeiro curvar pra frente e a saudação opcionalmente falada que acompanha o gesto: “saúdo-te”. Namaste.

Sua atenção tem o poder de salvar o dia de alguém. Algumas vezes muda o curso de uma vida. Ou de duas, três e muitas mais, se você se permitir.

Bom dia, boa tarde, boa noite!