Tempos estranhos se avizinham. Baixa!

BAIXA
SANTO SALVADOR
BAIXA
SEJA COMO FOR
ACHA
NOSSA DIREÇÃO
FLECHA
NOSSO CORAÇÃO
PUXA
PELO NOSSO AMOR
RACHA
OS MUROS DA PRISÃO

EXTRA
RESTA UMA ILUSÃO
EXTRA
RESTA UMA ILUSÃO
EXTRA
ABRE-SE CADABRA-SE A PRISÃO

BAIXA
CRISTO OU OXALÁ
BAIXA
SANTO OU ORIXÁ
ROCHA
CHUVA, LASER, GAZ
BICHO
PLANTA, TANTO FAZ
BRECHA
FAÇA-SE ABRIR
DEIXA
NOSSA DOR FUGIR

EXTRA
ENTRA POR FAVOR
EXTRA
ENTRA POR FAVOR
EXTRA ABRA-SE CADABRA-SE O TEMOR

EU, TU E TODOS NO MUNDO
NO FUNDO TEMEMOS POR NOSSO FUTURO
ET E TODOS OS SANTOS VALEI-NOS
LIVRAI-NOS DESSE TEMPO ESCURO, LÁ LÁ LÁ LA…

Meu pai era a Esfinge

Véspera de Natal, aproximadamente oito da noite. Na periferia de São Paulo os fogos estouram pelo céu, as motocicletas circulam em comboio, cheiros se misturam no ar e as pessoas procuram algum conforto e aconchego. Seja junto de suas famílias ou amigos, sozinhos dentro de suas almas incompreendidas, ou se entorpecendo de alguma droga legal ou ilegal que preencha temporariamente o vazio de suas vidas e os façam esquecer um pouco o peso dos anos, das atitudes e falta delas, das palavras nunca ditas que deveriam ter sido e das palavras ditas que machucam tanto que elas mesmas não dão conta de descrever.

Pela primeira vez na vida, dei banho sozinho em meu pai. Há alguns minutos estávamos lá ele e eu no banheiro do quarto da casa da minha mãe, onde cresci e vivemos juntos e onde ele hoje se recupera de uma cirurgia seríssima para a retirada de um câncer que lhe arrancou parte do maxilar, da língua e de sua vontade de viver. Por mais que seja algo normal, apenas uma rotina de higiene, era uma situação para a qual eu não tinha me preparado. Não tinha visto a passagem do tempo nem a inexorável deterioração dos corpos dessa maneira até este dia. O homem que me levava nos ombros contra as ondas do mar, fortaleza de músculos e virilidade que foi meu herói e modelo de comportamento, grande e indestrutível como um titã estava agora sentado em uma cadeira de plástico branco, com duas feridas nas pernas abertas para que tecidos e ossos fossem tirados para servir de enxerto e precisavam ser lavadas para não infeccionar. Com dificuldade e o auxílio de um andador foi até o banheiro, com minha ajuda tirou a roupa e se lavou, esfreguei e enxaguei partes do seu corpo velho, frágil, arqueado e dolorido.

No início houve um certo incômodo nítido no ar da parte dele. Meu pai sempre foi orgulhoso, teimoso e muito independente. Quantas barreiras de orgulho ele teve que derrubar para aceitar estar ali comigo, só ele sabe. Isso me incomodou também por conhecê-lo bem e saber o quão difícil estava sendo. Em alguns minutos, porém, ficou bem mais fácil tanto pra ele quanto pra mim. Sentado, esfregou os ferimentos com o sabão indicado para isso, eu ajudei com os tubos de sonda e traqueostomia, joguei água, ensaboei, mostrei onde faltava limpar. Cinco minutos depois, era apenas mais um banho qualquer, uma necessidade básica sendo atendida respeitando os limites das circunstâncias. Ao final enxugamos seu corpo, ele vestiu-se com minha ajuda e fomos fazer a barba na medida do possível, pra refazer os curativos do seu rosto. Meu velho pai então pegou o andador e voltou pro quarto mancando e fazendo um barulho estranho típico de respiração ofegante por dentro do tubo de traqueostomia. Curativos e lençóis novos, dieta e sedativo correndo na sonda em seguida, visita de um de seus irmãos e mais um dia longo de recuperação se encerrando. O fato de ser véspera de Natal talvez torne seu sono mais difícil, não por qualquer tipo de sentimentalismo ou apego à data em si, mas por causa da barulheira que fazem na rua nesses dias.

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Hoje aprendi que, por mais tortuosos que sejam seus caminhos e seu estilo de vida e por mais que sempre há um preço a se pagar por vícios, escolhas e falhas de caráter, a vida é um bem muito precioso e a gente sempre acaba se apegando nela da forma que der. Alma e corpo vão se descolando aos poucos um do outro e nenhum dos dois quer fazê-lo. Aprendi também que há vários níveis de orgulho e auto estima e que eles deixam de ser prioridade muito facilmente, bastando você se ver aprisionado em um corpo que não funciona ou reage da forma como gostaria que ele fizesse. Acima de tudo, tive uma experiência de interagir com meu pai pela primeira vez de um modo em que ele tivesse algum tipo de dependência de mim, como muitas vezes tive dele. Vivenciei o enigma proposto pela Esfinge a Édipo sobre o ser que tem quatro pernas de manhã, duas ao meio dia e três à noite ao decifrá-lo no fundo dos olhos do meu pai quando nossos olhares envergonhados se cruzavam. Foi estranho, muito marcante e, acima de tudo, me mostrou uma nova perspectiva sobre ser útil e relevante de alguma forma. Ser importante não importa.

E meu Natal foi feliz assim, como jamais seria de outra maneira.

Tia Rita

Tia Rita nos deixou ontem, no final da tarde. Estava em estado crítico já havia um tempo, indo e voltando do hospital. Não resistiu a um câncer de cérebro e seu corpo parou de funcionar em um domingo, depois de castigar sua alma por mais de um ano. É inimaginável a extensão do sofrimento pelo qual passou e especialmente frustrante tentar compreender como uma pessoa como ela pode ter sido submetida a tudo isso, pelo menos dentro dos parâmetros humanos de merecimento e/ou causa e efeito. Se existisse alguma lógica passível de ser entendida nesses termos, isso jamais teria acontecido.

Conheci minha tia Rita quando me dei conta do mundo ao meu redor. Sendo ela a irmã mais velha de minha mãe e a primeira de uma prole de oito, sempre esteve lá. Faz parte daquele universo de presenças que nunca chegaram de algum lugar ou precisaram ser apresentadas. Ela era um lugar em si mesma. Um lugar de acolhimento, de presença amorosa, de cuidado zeloso com seus três filhos (Samuel, Ivana e Raphael), seus netos e bisnetos.

Tia Rita era a alquimista daquele cheiro de infância que todo mundo lembra. De pão caseiro quentinho passando por debaixo da porta e por entre as janelas. Tão invisível quanto inconfundível. Era a autoridade feminina, matrona protetora para quem estar feliz era servir aos outros, ouvir o barulho de sua família reunida comendo e brincando, a criançada correndo, brigando, quebrando coisas para levar bronca primeiro e um afago cúmplice depois. Sabia que felicidade é ser, não ter. Foi o ícone máximo da religião pra mim durante muito tempo, com seu cabelão quase sempre preso em um coque e seu modo de se vestir, seu conhecimento bíblico, sua fé comovente e o respeito que naturalmente inspirava nos demais. Tinha o riso alto, rasgado, fácil, daqueles que você ria da risada dela sem precisar nem saber o motivo.

Eu nunca fui de me importar com o que os outros pensam a meu respeito, mas há algumas poucas pessoas cuja opinião eu sempre respeitei, por mais que discordasse. Minha tia definitivamente era uma delas, sei lá eu por quê. Cresci convivendo com uma religiosidade cristã pentecostal, daquelas mais rígidas e ortodoxas. Na igreja as mulheres se sentavam de um lado do corredor e os homens do outro. Tudo o que fugisse aos ensinamentos passados pelos pastores era “do mundo”, “do inimigo”, “pecado”. Frequentei Escola Dominical da Igreja Batista na infância e diversas vezes visitei cultos de outras denominações sem nunca ter participado ativamente de uma congregação. Não me lembro de ter visitado uma igreja em que não me tivesse sido perguntado se “aceitava Jesus”, sem falhar uma. Meio intimidador, artificial. Nunca entendi direito o que isso quer dizer, Jesus também sempre esteve lá. Como aceitar o que já fazia parte da minha vida? Meu próprio nome me foi dado por causa de um de seus discípulos, assim como os dos meus irmãos. Sei Hinos da Harpa Cristã de cor desde criança, conheço muitos personagens bíblicos e suas trajetórias. Já fui de Adão a João Batista, de Moisés a Paulo, de Abraão à Lázaro. E Rute e Raquel e Jezabel e Dalila e Maria e “as virgens loucas que deixaram suas lâmpadas se apagar“. A certa altura percebi que igrejas são comunidades que funcionam muito mais na base da interpretação de dogmas que seus membros compartilham de forma parecida naquele círculo específico e que é com base nisso que se preservam, mais do que no sentido universal da fé cristã e por definição, dos ensinamentos de Jesus. Os sacerdotes emprestam sua personalidade à egrégora que alimentam e a cultura daquele templo gira em torno disso. Respeito e acho que muita gente é ajudada espiritualmente por essas igrejas, mas geralmente me sinto mais coagido que acolhido nesses lugares. Aceito Jesus como meu mestre, guia e referência de comportamento e valores, mas não sou ovelha de pastor algum, nem pretendo. Quem se sente bem assim, que o faça e espero que se realize plenamente.

De todo modo, muitas vezes tive receio do que minha tia Rita pensaria sobre mim. Sinceramente, não sei de onde vem. O mais curioso é que ao mesmo tempo em que é uma limitação meio que auto imposta, tal fato nunca me incomodou. Lembro de uma vez, já há quase vinte anos, que apareci na casa da minha mãe para um churrasco com meu filho pequeno no colo e uma camiseta cor de rosa com três crânios pretos na frente e ossos cruzados formando um “x”, como a clássica bandeira dos piratas dos filmes. Tia Rita estava lá, e ao ver minha roupa, cravou: “Esse símbolo é do Exu Caveira, sabia?”. Gelei dos pés à cabeça na hora, quase derrubei o bebê. Não poderia haver no mundo um nome mais aterrorizante que esse. Como eu ia saber? Apenas tinha visto a camiseta em uma loja e achado bonita, comprado e a estava usando inocentemente. Tirei do corpo na hora, joguei no lixo. Peguei outra emprestada com alguém e passei a morrer de medo do Exu Caveira e de todos os outros Exus, mudava de calçada se avistasse uma Casa de Umbanda no meu caminho. Anos mais tarde descobri não apenas que aquele símbolo não era bem o que ela tinha dito, mas também que Deus não erra. Sendo assim, se existe Exu é porque ele tem que existir. Mais recentemente, ao precisar ir até seu apartamento ainda antes de saber do tumor que acabou por vencê-la, passei em minha casa pra trocar de roupa por causa de uma camiseta de caveira que estava usando. Achei que seria desrespeitoso ir vestido daquela forma. Sem ressentimentos, no hard feelings. Mesmo que ela não dissesse uma palavra sobre isso, não era direito meu. Ponto.

A última vez que conversei com ela foi no dia em que se mudou com o Fábio, seu marido, para o Espírito Santo, já faz uns dois anos ou mais. Disse a ela que a amava, desejei boa viagem e que tudo desse certo. Ela vinha tendo uns desmaios estranhos e umas crises de dor de cabeça, além de convulsões. A mudança era pra ficar perto da Ivana e para deixar a agitação de São Paulo pra trás, buscando qualidade de vida e melhor saúde. Fábio tinha conseguido um emprego por lá, tudo ficaria melhor. Tia Rita viveu feliz perto de sua filha e genro os últimos anos de sua vida, antes da doença se espalhar e tomar seu corpo, fazendo com que ele a deixasse depois de sofrer como foi, já de volta a São Paulo.

O que ficou pra mim foi saber que ela foi muito amada, o que era apenas a retribuição natural de todo o amor que ela sempre ofereceu aos seus de forma generosa e altruísta, apenas por ser assim o modo como sabia fazer. Mesmo sua intolerância com o que as vezes parecia não caber em sua religiosidade era uma forma de amar, porque ela tinha convicção de que somente ao seguir aquele dogma as pessoas poderiam encontrar refúgio em Deus e ser salvas e libertas, e era isso o que ela queria para todo mundo.

Hoje, no cemitério junto de parentes e amigos dela, tive a certeza de que minha tia Rita entrou no Céu em que sempre acreditou e foi acolhida por seu Jesus como sempre soube que seria, porque se o Céu não é para pessoas como ela, então para que serve o Céu?

Adeus, tia Rita amada. Se eu conseguir aprender a amar as pessoas nem que seja por uma fração ínfima do que você fez, certamente farei por merecer estar contigo aí quando chegar a minha vez. Descanse em paz e em amor.

Brasil contra o Fascismo

O que temos posto é uma repetição da eleição de 1989. De um lado, um candidato fabricado, vazio e midiático, produto do medo e ódio. O trabalho que a Globo fez com Collor naquela oportunidade está sendo feito pelos fake news de hoje, principalmente no WhatsApp. Existe ainda, como na ocasião, o tal medo do “comunismo”, que nunca foi uma ameaça, mais da metade das pessoas sequer sabe o que é e nenhum dos partidos em disputa professa ou pratica, mas como somos um país que se informa pela televisão onde ninguém pega uma porra de um livro pra ler, é fácil de empurrar nos mais incautos (que são muitos). Do outro a temida “esquerda”, cada vez menos esquerda, cada vez mais odiada. Aliás, colocar o PT nesse campo ideológico já pode ser considerado licença poética, por assim dizer. Na disputa presidencial, o que é realmente socialista está longe de ter chances: Vera Lúcia e Boulos, e mesmo esse está mais para social-democrata que pra “comunista do djabo“. Negócio de “virar Venezuela” é bom pra amedrontar sua tia crente lá no grupo da família, comigo nem precisa se dar ao trabalho. Tenho preguiça.

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“Vou confiscar os meios de produçãããããooooo…”

O sistema não queria o fascio e desacreditou dele. Era melhor alguém mais “civilizado”, algum tucano de plumagem curtida com o tempo e cara de santo. Só que deu ruim, o plano fez água. Com isso ajudou a criar o monstro que agora se vê obrigado a abraçar, porque o tal “mercado” gosta dele. As bolsas sobem, “Wall Street aceita”. Como se isso fosse bom pra alguém além de grandes corporações internacionais que só estão interessadas no bottomline e foda-se os escrúpulos, os pobres, o meio ambiente, os povos, culturas e quem mais atravessar o caminho. It’s the economy, stupid!

Pra além do fascismo latente, Jair Bolsonaro é uma fraude, um embuste. Basta constatar o que fez até hoje: procure uma galinha que ele tenha ajudado a engordar, que você não acha. É uma farsa total, assim como era Collor, o playboy cocainômano que foi vendido como “caçador de marajás”. O apoio de hoje ao candidato fascista pode ser entendido como parte protesto, parte ignorância e alta dose de perversidade pura e simples, porque quem está falando sério sobre os rumos da política sabe que há gente muito melhor preparada em outros partidos, com currículo, lisura e competência suficientes para exercer o cargo. Muitos dos seus eleitores são apenas gente ruim mesmo, do tipo que entregava os vizinhos pro DOPS como “subversivos” na época do regime militar. Às vezes por ódio, por medo ou pura maldade, elemento facilmente encontrável nas manifestações de apoio à besta-fera (basta ver o episódio da placa da Marielle, acontecido ontem e perpetrado por candidatos da legenda do fascio). É muito fácil de se perceber que existe no Brasil uma maldade indisfarçável no ar. As pessoas te cumprimentam pela frente olhando dentro dos seus olhos, sorriem e elogiam com a mesma facilidade com que fazem fofoca a seu respeito, inventam mentiras e destroem quem quer que seja visto como ameaça. Há a onipresente inveja a guiar as ações (e as óbvias exceções de praxe que confirmam a regra). Inveja da competência, do sucesso profissional e/ou financeiro, da capacidade de ser amado, da inteligência ou o que for. Mendigos na rua invejam o papelão de dormir em cima uns dos outros. É um sentimento que diz mais sobre quem o tem do que sobre quem sofre. E fomenta as relações amistosas do brasileiro cordial #sqn. Aquele seu amigão do Facebook tem grandes chances de querer mais é te ver pelas costas. Talvez esteja trabalhando nisso nesse exato momento. Seja espalhando notícias falsas a seu respeito, seja denunciando seus atos para pessoas em posição de autoridade, seja lendo textos no seu blog e odiando sua capacidade argumentativa, seu uso do vernáculo ou simplesmente sua iniciativa de se posicionar a respeito de um tema qualquer. Conhece alguém assim? Não, né?

Caso essa aberração chamada Bolsonaro seja eleito, o país vai ser entregue à uma turba de incompetentes combinados com agentes diretamente interessados em uma agenda neoliberal, para quem a base da pirâmide social é apenas mão de obra batata, abundante e descartável. Receita repetida, resultado idem. Definição de insanidade de Einstein, conhece? Além disso, a violência já presente no discurso será legitimada pelo voto e os ataques às minorias, que já são constantes, se tornarão o padrão. No outro lado da equação, haverá mais resistência ainda, porque ideias não podem ser mortas ou presas. Pessoas não serão pisoteadas pelo sistema e voltarão pedindo bis. Violência se combate com violência? Lex Talionis vale para os dois lados, ou não? Isso não tem fim, sabemos. E outra: em um país onde basicamente qualquer tipo de burocracia tem duas formas de contornar (a oficial e a “por debaixo do pano”), quão desonesto alguém precisa ser pra acreditar que posse de arma será concedida aos “cidadãos de bem”, obedecendo critérios sensatos de equilíbrio emocional, necessidade de defesa pessoal e perfil psicológico ao invés de na base da propina pra “quebrar” a lei, como se faz abertamente com carteira nacional de habilitação? Alguém realmente espera que pessoas com o mínimo de noção da realidade acreditem nesse tipo de argumentação? É sério isso mesmo? Aliás, o que exatamente é um “cidadão de bem“? Na mesma linha, em um lugar onde meia tonelada de cocaína é encontrada e não se sabe o dono, uma tonelada de maconha desaparece de dentro de uma delegacia “como se nada”, mais de 90% dos assassinatos ficam sem solução, uma vereadora que luta pelos direitos humanos é executada junto com seu motorista em praça pública e o crime não é esclarecido, quem é quem? Quem é o crime? A quem entregar a responsabilidade pela segurança? A um ex-militar de meia-pataca que foi expulso do exército? Um bunda-mole que foi assaltado e teve sua arma roubada? Pergunta lá no posto Ipiranga? Que porra de Brasil melhor é esse que vocês querem?

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Pensar não dói, experimente!

A situação que vivemos é tão surreal que há cristãos que vão a igreja aos domingos prestar culto a um Messias que foi inimigo do sistema e por isso torturado e morto pelo Estado, para depois fazer campanha para um candidato que exaltou um torturador e que diz abertamente ser favorável à prática. Vemos mulheres, de quem o mesmo candidato disse que “não empregaria com o mesmo salário“, que sua única filha foi uma “fraquejada”, que “até existem mulheres competentes” e outras sandices, também fazendo campanha pra ele. Pretos e gays defendendo sua candidatura. Donos de prostíbulo e atores pornô defendendo a “família tradicional”. Um parlamentar que passou quase trinta anos no Congresso Nacional e guindou os filhos à mesma condição pregando “diminuição do Estado” enquanto diz que “não abre mão das verbas de parlamentar a que tem direito“. Se recusa a ir a debates e nos poucos aos quais compareceu falava devagar para que acabasse o tempo e conseguisse escapar de responder. Passou mais de uma hora de uma sabatina sem dar uma resposta objetiva para uma pergunta que fosse. Muitas vezes devolveu a pergunta para quem a fez. É um desqualificado completo. Sem cultura, educação formal, preparo administrativo ou político, capacidade de relacionamento interpessoal ou diplomacia. O sujeito mal fala português direito, é tosco e limitado intelectualmente. Parece um personagem de filme B, a gente se pergunta como pode alguém racionalmente declarar voto num paspalho desses. Não tem explicação plausível que não seja ignorância ou maldade. Por ódio ao PT? Conta outra. Por mais besteiras ou desvios que um partido político tenha feito, não justifica entregar um país na mão de um pazzo desses, vai me desculpar. Há mecanismos de punição (muitos deles criados pelo próprio partido em questão e que acabaram usados contra ele mesmo – seu grande ícone está preso nesse momento). De quais princípios as pessoas estão dispostas a abrir mão por ódio a um partido? Conseguem ser condescendentes com racismo, misoginia, tortura e homofobia por causa disso? Deixam de perceber a nítida falta de capacidade do cara para ser presidente? Que porcaria de argumento é esse? Uma postura dessa chega a ser irresponsável.

Este texto era pra ser um post no Facebook, mas ficou muito longo e coloquei aqui. Sei que, ao mesmo tempo que pode servir como reflexão ou entretenimento para uns, pode despertar raiva em outros, além de me expor à geral fascistóide cujo objetivo é intimidar e querer destruir tudo o que seja diferente deles, inclusive quem estiver alinhado com sua mentalidade e por algum motivo deixe de estar. Fascismo sempre foi assim, autofágico, truculento e pronto para colocar a cabeça pra fora do lixo humanitário em que habita, para o qual se destina e de que se alimenta. Pra mim não tem problema. Sem nenhum medo de estar fazendo demagogia, afirmo com convicção: estou do lado dos pretos, dos pobres, das mulheres, de pessoas de qualquer orientação sexual ou corrente espiritual. Mesmo que el@s mesm@s às vezes não estejam. Há diferentes níveis de consciência, empatia e compaixão. Estes são os que eu consigo sentir e nos quais meus princípios e ações estão alicerçados. Não abro mão de me manifestar, já que ainda estamos numa democracia (estamos?). Respeito até o limite qualquer formulação política em que se acredite. Se você é liberal, anarquista, conservador, socialista, comunista, social-democrata, marxista, ambientalista, a little bit of this, a little bit of that, a little bit of the other. Na verdade o verdadeiro “cidadão de bem” quer apenas trabalhar em paz, ter acesso ao mínimo de dignidade, saúde e respeito, que não lhe encham o saco e que o fardo da existência seja aliviado por doses de amor e alegria sempre que possível, independentemente da fé que tenha ou deixe de ter, dos partidos, do Political Compass, dos países e de toda mesquinhez humana. Fascismo não. É a exceção da regra. Ele quer que o diferente não exista. Ele intimida, exclui, ameaça, segrega, violenta, destrói, separa, quebra, queima, faz desaparecer, entristece, suja, turva, desvirtua, apodrece, contamina, infecta, sabota, retrocede, atrasa, polui, mata. Respeito opiniões, não ideologias de morte.

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Mein Fuhrer my ass!

Bolsonaro não será eleito, mas parte do estrago já está feito. O fascismo despertou, a reação a ele não pode deixar de existir. Sem tergiversar, sem negociar, sem dar chance de ele ter chance. Por outro lado, sabemos mais claramente quem é quem, que princípios as pessoas têm e do que são capazes. Várias máscaras estão caindo, o que é ótimo. Melhor olhar o inimigo na bolinha do olho, creio eu. Every cloud has a silver lining, como se diz em inglês.

Venceremos. O amor sempre vence o ódio. É uma questão de energia, não adianta espernear. É o Dharma, o TAO, o funcionamento. A Lei.

P.S.: Recomendo o voto em Ciro Gomes, número 12 na urna. Preparado, experiente, quase quarenta anos de ficha limpa, honesto, tem amor pelo Brasil e um projeto completo de governo que protege o trabalhador ao mesmo tempo que estimula o crescimento, o empreendedorismo, saúde, segurança e educação. Barba, cabelo e bigode. Dará um grande presidente. Sou brasileiro como você e também quero o melhor para o meu país. Isso inclui mandar um ou outro ir tomar no cu de vez em quando, que é mais um aspecto do meu candidadto com o qual me identifico.

As mulheres vão nos salvar (de novo)!

Geral machista da nossa pátria amada salve salve até tolera o que eles chamam de “esquerda”, umas esmolas pros mais pobres aqui e ali e tals, uma Parada Gay acolá até que passa.

Agora, mulheres se posicionando politicamente, empoderadas e lutando por seus direitos, aí não: os caras simplesmente não sabem lidar, perdem a linha totalmente. Já tem “celebridade”, sub-celebridade, wannabes em geral e um monte de Zé por aí cagando regra pra dizer que “se as mulheres estivessem falando sério, não criariam um grupo contra o Bostanágua, mas fariam campanha pra Marina”, como se a escolha de um(a) presidente tivesse que passar por gênero e como se feminismo fosse o oposto de machismo (e como se Marina Silva não fosse perfeitamente capaz de apoiar o Bozonaro no segundo turno).

Surgiu um grupo “Mulheres por Bolsonaro” que só tem homem e há várias fake news circulando para desacreditar o outro, que elas criaram e que já conta com mais de um milhão de adesões em uma semana.
Pensam que assim vão evitar que elas salvem as eleições desse ano. Mal sabem eles que elas já salvaram.

Quando você ia com a farinha, elas já tinham comido o pão, chapa. Fica moscando aí de boca aberta, posando de Macho Alfa pra ver o que sobra de você, bonitão!

Sartre, fascismo e as Eleições 2018

“O inferno são os outros”, disse Jean-Paul Sartre.

Na mentalidade fascista, dualista, é preciso que haja um “inimigo” a ser combatido. O mais clássico é o diabo, logicamente.

Na História já foram os judeus, os comunistas, os ciganos, etc.
Hoje é a “esquerda”, essa entidade imaginária que serve basicamente pras pessoas elegerem um “mal comum”, um satanás qualquer, e não assumirem a responsabilidade por sua própria sombra, seus próprios ódios, limitações, medo e mesquinhez. Fascismo tupiniquim tacanho e escroto que põe vidas em perigo e julga o caráter alheio sem empatia ou misericórdia, muitas vezes escondido atrás da religião que é supostamente misericordiosa por natureza, a de Yeshua Ben Yosef, Jesus Cristo. Aquele mesmo que perdoou um ladrão na cruz e ensinou a “amar seus inimigos e orar pelos que lhe caluniam”.

Dois mil e dezoito anos depois, muitos dos que dizem segui-lo fazem campanha para um candidato que declarou ser seu livro de cabeceira “A Verdade Sufocada”, de Brilhante Ulstra, torturador que prendia canos de PVC com ratos dentro ao corpo de suas vítimas e um lado fechado, pra que eles tentassem sair pelo outro lado roendo a vagina de mulheres “comunistas”, “subversivas” ou qualquer outro rótulo que tirasse sua humanidade e as transformassem no “inimigo”, o “diabo”. Seja lá qual for o deus que estimula, aceita ou corrobora com isso, dele eu quero apenas distância. Amém.

O Paradoxo da Tolerância e as Eleições de 2018

Voltando ao tema da tolerância, obviamente por causa do clima político no Brasil. O filósofo Karl Popper https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper formulou a noção do “paradoxo da tolerância”, segundo o qual “liberdade em excesso leva ao fim da liberdade, tolerância em excesso leva ao fim da tolerância”.
É justamente o principal problema de Jair Bolsonaro e seu séquito de “homens de bem”. Ao radicalizar o discurso e se achar no direito de dizer quem é ser humano e quem não é, qual religião deve ser estimulada e qual não, qual orientação sexual é aceitável etc, incorre no vício do fascismo e da intolerância, que são venenos sociais e não têm lugar em um mundo naturalmente diverso e multifacetado. A ideologia de Bolsonaro, também paradoxalmente (porque autoproclamada a defensora dos “valores conservadores”) é antinatural, porque busca a preservação de padrões artificiais, impostos historicamente na base da força, violência e desrespeito. Não por acaso, as mesmas “armas” (trocadilho involuntário) da religião, do patriarcado e da noção de “raças”.
Por sorte, Bolsonaro jamais será eleito presidente, porque as mulheres não permitirão. Embora ele tenha votos entre elas, a grande maioria sabe do que se trata ser mulher em uma sociedade como a nossa e não irão permitir que um padrão que já é reproduzido clandestinamente no dia a dia passe a ser a norma, legitimada pelo voto.
Bolsonaro morrerá pela própria boca no processo, afogado no seu próprio ódio. Porque se ele acha que sua filha foi uma “fraquejada”, é porque não sabe que as mulheres entendem perfeitamente que votar nele é que seria, e elas não vão entregar a paçoca pro opressor assim, não. Nunca.

Enquanto houver mulheres no mundo, Jair Bolsonaro não será presidente do Brasil. Nem em um milhão de anos. Pode ter certeza.

Ou vai ou vai

Há uma frase atribuída a Rumi que diz que “à medida que você começa a andar no caminho, o caminho aparece”. Sempre gostei desta ideia, não sei se por acreditar na afirmação em si ou por seu otimismo. O fato é que, desde que comecei este blog, os pensamentos que me estimularam a fazê-lo paracem ter minguado, como se eu mesmo colocasse impedimentos ou censurasse o que tenho a dizer.

É estranho, porque em geral escrevia no Facebook e na maioria das vezes de uma vez só, em poucos minutos. Basicamente publicava um “textão” e só depois de um tempo exposto na timeline que me preocupava em saber se ele precisava de alguma edição, correção ortográfica e que tais. A própria razão de ter começado aqui foi ter muita coisa que eu gostaria de registrar e poucos recursos para fazê-lo. Era coisa que eu achava relevante que lá não caberia, era meio que óbvio migrar este tipo de texto para cá.

Acontece que a partir de então, me.veio aquele clássico bloqueio criativo. Não que eu seja particularmente talentoso para isso ou o que eu tenha a dizer seja algo importante, mas o próprio processo de escrever sobre qualquer coisa que seja se tornou um parto, um negócio difícil de verdade. Naturalmente, passei a investigar de onde isso vem.

Talvez tenha a ver com o fato de que se estar emocionalmente envolvido com algo faz com que as ideias fluam mais naturalmente. A forma como uso o Facebook já possibilita isso: sigo muitas agências de notícias de alguns países, diversas vertentes ideológicas e espirituais. Muitas vezes acompanho de perto algum político que não gosto justamente para ter mais base para combatê-lo. Além disso, tento driblar o tal “algoritmo do Facebook” que acaba meio que moldando a timeline das pessoas ao que elas querem ver e faz com que sua percepção dos fatos fique cada vez mais parecida com suas crenças e não o processo natural, que seria justamente o contrário: opiniões e convicções devem partir de uma análise que seja a mais completa possível do que acontece, a partir da qual posições e parcialidades tem mais fundamento e menos chance de ser apenas barulho, tentativa de chamar a atenção por si só. Então, naquela plataforma, era ler algo e postar em seguida, no calor do momento.

Aqui, pelo menos até agora, o processo é diferente. Eu já começo me impondo a obrigação: “preciso escrever algo no blog”. Não sei de onde surge essa imposição, mas ela é limitante. Ao por na cabeça que “preciso” escrever, qualquer ideia que surgiria naturalmente e poderia perfeitamente servir de entretenimento para quem gosta de ler e vem aqui por isso simplesmente desaparece, escapa igual água entre os dedos. Além de eu muitas vezes me meter a usar “tempo livre” para isso (leia-se quando não tenho algo melhor pra fazer, o que reduz o blog à pura encheção de linguiça, praticamente um “tricô mental”). Escrever é tempo ativo, não livre.

Um exemplo é este mesmo texto: comecei a escrevê-lo porque tive uma aula cancelada de última hora, pensei que seria uma boa forma de usar o tempo que ganhei até a próxima e me sentei com o computador para dizer algo. Já se foram alguns parágrafos, eu só enrolei até aqui e não disse coisa com coisa que prestasse. Pior que eu sei disso. Você que está aqui comigo agora provavelmente já notou que está chato, arrastado, vazio. Meus textos costumam ser mais nervosos, mais emocionados. Pelo lado bom, posso te dizer que você está acompanhando uma pessoa em uma busca sincera por inspiração, lutando dignamente contra seu cérebro embotado e preguiçoso, negligente de qualquer colaboração. A má notícia é que cada vez mais me convenço que tenho que estar muito puto, muito feliz ou muito magoado para escrever. Qualquer emoção serve, a falta delas é que não.

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Fui solenemente expulso da sala

Daí me veio à mente que uma coisa que me chama muito à atenção sobre se expressar criativamente é o fato de que sem raiva, tesão, amor, revolta, libido, inconformismo, inquietude, desilusão e outros sentimentos e emoções intensos, muito pouca coisa pode ser dita ou feita. Nietzsche dizia que “é preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Uma versão mais acessível é “porque ninguém começa uma história com ‘…outro dia eu estava tomando leite e…'”. O verbo vem da ira, o “causo” engraçado do bar vem do álcool. Faz todo o sentido.

Entendo que eu esteja em uma fase de transição (sempre estamos, mas algumas vezes ela fica mais nítida). Não mais bebo ou uso qualquer substância “estupefaciante”, passei a encarar a espiritualidade de uma forma mais intuitiva do que dogmática e muitos valores que defendi hoje me parecem pálidos, fracos, sem razão de ser. Metamorfose ambulante, salve Raulzito! Não que isso tenha me anestesiado emocionalmente ou brutalizado, pelo contrário: minha percepção está mais aguçada, minha saúde melhor e meu ego tem sido cada vez mais fácil de educar. Apenas acho que ainda tenho que aprender mais sobre quais estímulos valem a pena seguir e quais não, quanto barulho estou disposto a manipular e quanto do meu próprio nonsense eu já tenho consciência.

Essa zona nebulosa faz com que, ao mesmo tempo em que goste que as pessoas venham ler meus textos pelo simples prazer que elas têm nisso, eu sinta que escrever só para dar satisfação é um negócio meio pedante, meio babaca. Só pra dizer que tem um blog com um número “x” de textos, “y” de visitas e “z” de elogios. Vários amig@s dizem que gostam do que escrevo, mas saber usar as palavras é completamente inútil quando não se tem o que dizer. Gosto de ao menos ter a ilusão de que meus textos são relevantes para alguém, de alguma forma. Nesses termos, não consigo sentir isso.

Este texto que você está lendo não é nada além de um esforço em sair da inércia, “por o blog para andar”, buscar inspiração lá no fundo do cérebro e acreditar na máxima do primeiro parágrafo: …o caminho aparece”. Não apareceu até aqui, mas no próximo texto a gente vê o que dá, continuo acreditando.

Por hora, vai ficar mais na intenção do “exorcismo” mesmo, de sacudir a poeira deste blog, de voltar aqui. Sabe no futebol, quando o atacante fica um tempo sem marcar e depois mete um gol de canela, todo feio, mas que serve pra “tirar a zica”? Então, este texto é isso. Que desbloqueie, solte, flua, ande. Assim é.

“Não importa o quanto você vá devagar desde que não pare.” – Confúcio

Ode ao madrugador

Não posso dizer que escolhi a madrugada como habitat. Fui escolhido por ela, na verdade. Sou daqueles que não precisa de muitas horas de sono pra estar inteiro no dia seguinte. Se conseguir seis horas bem dormidas já fico bem. Reflexos, raciocínios e metabolismo em perfeitas condições. Entendo que sou um espírito habitando uma carapaça temporariamente e que é meu trabalho garantir a preservação e o bom funcionamento dela, pra que minha mente (ponte entre espírito e corpo) possa estar em boas condições e trabalhe a meu favor, não contra mim. Quisera eu ter essa noção antes, mas não tinha. Já era, estraguei meu organismo durante anos com química e pensamentos tóxicos. Algumas coisas dá pra recuperar, outras reverter e outras melhorar. Mas há também aquilo que é preciso aceitar e se render, dá pra aprender muita coisa fazendo isso. Recomendo.

Gilda, rainha da madrugada

Acontece que qualidade de sono é artigo raro, aparentemente. Tenho a impressão que depois da adolescência (quando eu mesmo dormia até meio dia facilmente) as pessoas dormem cada vez menos e pior. Cigarro, álcool e medicamentos influenciam também, agridem e desequilibram. Outro dia estava lendo sobre os short sleepers, pessoas que dormem quatro, cinco horas por noite e conseguem estar inteiros, fully functional pela manhã. Cada vez mais me vejo e aceito ser um deles. Talvez por herança dos genes do meu pai, que é sempre o último a ir dormir e o primeiro a estar acordado. A diferença é que ele bebe quantidades carnavalescas de cerveja e fuma bagaraio, e eu abandonei o uso de substâncias “estupefaciantes” (como diria o Luiz Thunderbird) há tempos. Cigarro há dez anos, bebida alcoólica há três. O corpo se acostuma tanto com agressões quanto com a falta delas.

Me lembro bem do que chamo de “sono de bêbado”. Não é um sono propriamente, é uma espécie de desmaio, de desligamento. O ritual é sempre o mesmo: seu corpo parece estar obedecendo e seu raciocínio parece que presta para alguma coisa, mas na verdade você está a beira de um colapso total. Continua agindo quando já parou de pensar, fala cada vez mais mole e cada vez mais merda. Sua “conversa” consiste em um monte de trocas dos sons das palavras e cuspes na cara do seu interlocutor. Na sua cabeça você é bonito, sábio, rico e interessante. Na realidade já passou de “mala” pra “container” faz tempo. Vai deteriorando até que acaba a cerveja, a paciência de alguém, o evento ou a noite e é inevitável: sua fuga da realidade acabou e você precisa dormir. Com sorte não cometeu crime algum e sua liberdade não será tolhida, não dessa vez. Quando a cama que está rodando pelo quarto passa pela sua frente, você cai nela. De jeans, de chapéu, fumando, seja lá como for. Um trapo sujo no chão do banheiro do boteco tem mais dignidade que você. Ronca e baba por umas duas horas, deixando o recinto com aquele cheiro azedo dos gases gerados por essa bomba química em que se tornou. Daí acorda de repente. Olhos arregalados, sono impossível. Não estava dormindo, na verdade. Seu cérebro apenas desligou seu sistema por um tempo pra evitar que você morresse, não é lindo? Ele mesmo não parou, continuou funcionando a um milhão por hora. Por isso o sono de bêbado não é reparador, não descansa. Você acorda de ressaca, prometendo nunca mais beber, tentando sobreviver àquela segunda-feira dia de Exu e fingindo que não está esperando a próxima oportunidade de chapar o glóbulo novamente, fugir de si mesmo novamente, ficar lindo e rico e sábio novamente. Pois é, já estive lá, como se diz em inglês. Been there, done that.

Já foi dito que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“. Conheço bastante gente que tem uma relação saudável com bebida e consegue conciliar seus afazeres com ela, mas quanto mais penso nessa coisa de dependência química mais tenho a impressão que é uma questão de se conhecer, de saber quais limites você consegue esticar e quais decisões precisa tomar. O limite muda, o prazer ilude, o corpo tenta se impor e tomar a mente pra si. Esta já é preguiçosa e influenciável, se deixa levar facilmente. E a espiral descendente começa, arrastando consistentemente, às gargalhadas. Álcool é uma droga socialmente aceita e comercialmente estimulada, o que a torna especialmente perigosa. Todo mundo tem medo das “drogas”, mas quando conta histórias de dependência geralmente é sobre aquele parente alcoólatra que estraga a própria vida e a dos outros. Há um documentário interessante no YouTube sobre o assunto, chama-se Terapia Psicodélica. Recomendo também. Eye-opener.

Ao parar de beber, de cara perdi peso, deixei de roncar e passei a dormir bem melhor. Após três anos o peso se manteve (dez quilos a menos) e o ronco apneico sumiu definitivamente, mas o sono voltou a ficar esquisito. Idealmente durmo das onze às cinco. Seis horas. Se fosse simples assim, estaria ótimo. Só que pouco depois das três da manhã acordo, muitas vezes no mesmo horário exato. Daí que vem: é incrível como meus pensamentos são diferentes dos que costumo ter durante o dia. Imagino que isso tenha a ver com processos químicos do organismo mesmo, afinal o sono tem uma função importante de reparação e organização. Quando o processo é interrompido, é inevitável que haja espaços vazios, pontas soltas, fendas abertas.

Nessas fendas que eu caio. Por vezes presto atenção na cara que a madrugada tem em SP: algumas luzes coloridas, pálidas e tristes. O barulho de uma moto ao longe, sirenes de vez em quando, cachorros latindo, a noite onde as sombras prevalecem, os instintos e os apetites são outros, bem outros. A polaridade se inverte: as plantas sujam o ar ao invés de limpar, o dinheiro cuidado com zelo durante o dia passa a correr atrás do prazer, os corpos se procuram, a beleza e a virtude assumem outros nomes, formas e lógicas. É o negativo da foto, a luz tem outra função. Yin, não Yang.

Fora assim como dentro, em cima como embaixo. Os processos mentais também são bem diferentes no meio da noite. Medos mais profundos, reações mais dramáticas, minutos mais longos. Muitas vezes vem à tona aqueles pensamentos que não temos coragem de confessar para nossa própria alma. Somos monstros, poetas e santos nessa hora. Somos todos aqueles pensamentos e nenhum deles também. Quando a manhã chega e a luz retoma o controle, o que parecia tão intenso e definitivo se esvai, mingua até cair no território dos sonhos e fantasias, aquele mundo onde não sabemos distinguir o que foi vivido do que foi apenas imaginado. E a gente volta a assumir aquela persona que parece mais aceitável: a de gente normal, funcional e respeitável, produzindo para o bem da sociedade. O típico cidadão de bem, seja lá o que for isso. Até vir a próxima madrugada e seus fantasmas a assombrar novamente, mostrando que toda solidão é relativa, todo medo é uma forma de esperança e que quanto mais intensa a luz, mais nítida a sombra que ela projeta.

A madrugada é dona de uma das coisas mais importantes que existem em todos os mundos, em todos os tempos e para além das palavras, gestos e formas. Tudo o que é criado começa nele e só existe porque nossa mente precária precisa de sons e formas para tentar entender o que experimenta. Tudo o que vem dele é redução, simplificação, diminuição e representa apenas debilmente o que é de fato: o silêncio. Todo o barulho que existe é apenas uma imitação dele, uma tentativa irremediavelmente frustrada de reproduzi-lo.

Há um conto Zen de um simples diálogo entre um discípulo e seu professor que ilustra bem isso:

“-Mestre, qual é o primeiro princípio do Zen?”
“-Se eu te disser, ele passa a ser o segundo princípio.”

Tenho a impressão que é no silêncio da madrugada que está toda a sua força. Sou seu aprendiz, já não luto mais. Se passar o dia seguinte bocejando e à base de café, é o preço. Está muito bem pago.

Pessoas invisíveis

Logo cedo fui passar por uma porta giratória de um grande condomínio de escritórios e um senhor dos seus sessenta anos estava limpando os vidros. Notou minha distração por eu estar com a cara enfiada no celular feito os vários zumbis do Walking Dead em que se transformou caminhar por SP, percebeu o que eu faria e disse: “Bom dia! O senhor vai por ali por favor?”, apontando para uma outra porta de vidro que estava escancarada, logo atrás da tela do meu telefone. Foi quem primeiro falou comigo hoje na rua. Uniforme puído herdado de alguém, gestual rápido e determinado de trabalhador atarefado e olhos cansados de quem faz aquilo todo dia, o dia todo. Ao entrar no prédio, os mesmos bouncers de sempre: ternos pretos com ombreiras estilo anos 80, walkie-talkies e sua linguagem de QRA´s, QAP´s e QRU´s. Não entendo esses códigos, TKS por não me ensinar. Recepcionistas com uniformes iguais, rostos diferentes e frases prontas, ensaiadas e repetidas o dia todo. Contas para pagar, desrespeitos para tolerar, sapos e mais sapos para engolir. Mais do mesmo.

Subo até o nono andar. Não tenho um crachá para cruzar a porta travada da empresa dos USA, land of the free and home of the brave. Uma faxineira magra e simpática aperta o passo até mim, para que eu não espere muito. “Vou abrir pra você, professor. Quer café?”. Quero, quero muito. Nunca quis tanto, na verdade. A noite mal dormida provoca bocejos, olhos vermelhos e corpo arqueado. Cafeína transforma essa forma decadente em Mun-Rá, o de vida eterna. Salvo pela senhorinha do café, como muitas vezes em muitos lugares.

Tenho o privilégio de ser visto pelos invisíveis. Os pintados de cinza, azul ou preto. Monocromáticos, monossilábicos, monofásicos. Aqueles que em inglês a gente diz que são “taken for granted“. É como se fossem parte da paisagem. O chão está limpo, as luzes todas acesas, os equipamentos funcionando.  Nem parece que sem eles nada acontece. Acendem luzes, consertam defeitos, limpam espaços, destravam portas, fazem café, carregam peso, intermediam encontros, organizam filas, controlam acesso, repõem materiais. Invariavelmente dentro de roupas discretas, foscas, escuras, pra que fiquem mais invisíveis ainda. Aprendem a olhar de baixo pra cima, ou guardam seus olhares para quando não correm o risco de cruzar com os dos outros. Sempre olham e sempre veem, no entanto. Estão em outra frequência.

Cresci em ambientes e situações nos quais eles não estão soterrados sob seus crachás e tergais. Aquele porteiro preto que não recebe de volta metade dos “bons dias” que profere é também o cara que resolve no futebol de várzea no domingo, por exemplo. Pessoas vão até o campo só pra vê-lo. O futebol é uma linguagem. Suas qualificações, origem ou cor servem para nada diante do domínio debochado dos espaços e tempos que um cara desses tem. Você “não acha nem pra bater”, como se diz. Vai levar um chapéu, um rolinho. Vai levar gols e provavelmente perder o jogo. Ali ele exerce sua plenitude, sua vingança. Só restam duas alternativas: bater palma ou ir brincar de outra coisa. Da mesma forma, a pessoa que limpa os banheiros é o esteio de uma associação comunitária ou religiosa. É o pastor daquela igrejinha humilde que, a despeito do uso torto que alguns fazem de religião, conforta almas machucadas e salva vidas de pessoas tão invisíveis quanto ele. Ou a tiazinha da cozinha de uniforme azul e branco e cabelo preso, mãe de santo da Umbanda que atende de graça os que procuram conforto naquela fé, ela mesma tão discriminada e incompreendida pelos mesmos motivos: por ser preta, por ser brasileira, por ser humilde. E o pessoal do samba? E os que levam o sopão e agasalho pros que estão na rua, sem abrigo, comida e dignidade? Acima de tudo, os que suportam as humilhações e más-vontades cotidianas só para conseguir manter suas famílias com o mínimo de proteção e perspectiva (o que já é um feito quase que milagroso para tanta gente).

Muitas vezes, esperando por alguém atrasado ou por causa de um compromisso cancelado qualquer, fico observando essas pessoas trabalhar. O que me impressiona é o contraste. Não muito mais perceptível que uma porta automática em um contexto, eixo dos acontecimentos em outro. Excluído de um “bom dia” de segunda à sexta, Sol do sábado e domingo. Essas pessoas são as que fazem o mundo andar. São as que criam, nutrem, ensinam, preservam, acreditam, compram, se submetem. Todo e qualquer governo que se arroga o direito de existir deveria ser para elas. E se você acha piegas ou clichê o que estou dizendo, é muito provável que esteja certo. Quando alguém se propõe a escrever textos públicos corre o risco de ficar sem assunto, falar besteira e errar a mão no que escreve. Risco calculado, “ossos do ofício”. Mesmo assim, faça uma experiência: olhe para essas pessoas no rosto, “na bolinha do olho”. Perceba o quanto de você há nelas. Sinta a alma que existe atrás da expressão mecânica, alugada, social. É o que se busca expressar com um cumprimento usado na Ásia e que é normalmente associado ao Yoga, mas que na verdade é apenas uma questão de respeito no convívio: as mãos espalmadas postas à frente do peito com os dedos para cima mostrando o todo, o ligeiro curvar pra frente e a saudação opcionalmente falada que acompanha o gesto: “saúdo-te”. Namaste.

Sua atenção tem o poder de salvar o dia de alguém. Algumas vezes muda o curso de uma vida. Ou de duas, três e muitas mais, se você se permitir.

Bom dia, boa tarde, boa noite!