Shakti

Shakti é a violência da Criação. O Big Bang. Amor violento e doce, raivoso e febril. Shakti é sânscrito, língua sagrada dos Brâmanes. É trem desgovernado, o sorriso que surge depois do choro. É nudez poética, um comentário inesperado, olhos grandes que viveram muitas vidas. Shakti é metade de Shiva, o Yin absoluto que dá sentido ao Yang. Shakti é fêmea, flor, água, copas. Shakti é a carta treze do Tarot. A gata preta, a loba que uiva na Lua cheia.

Shakti já foi amada muitas vezes, mas nunca com um amor como o dela própria. Ela sabe disso, enxerga perfeitamente. Sua fonte nunca seca, e ao olhar para os outros não vê a si mesma. Ela na verdade nem precisa de tanto. Ela só sabe amar, por ser feita de amor.

Shakti está em todo lugar. Sempre esteve, sempre estará. Desde antes de se saber e mesmo que nunca se saiba. Está dentro de mim, e fora, e ao redor. Seus grandes olhos marrons sempre enxergam além, e sempre veem. Levamos os mesmos olhos em todas as vidas no Samsara. Os olhos de Shakti testemunharam a formação do universo. Ao olhar para eles, nunca mais alguém é o mesmo.

Om Mani Padme Hum

“É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.” – Friedrich Nietzsche

ommanipadmehum

Por mais que haja certos níveis de comunicação em que pessoas se conectem por compartilhar experiências, opiniões e sentimentos parecidos, existe um lugar na alma de cada um que é totalmente insondável, misterioso e além de qualquer racionalização que se possa fazer.

Trata-se daquela dimensão onde uma conversa interna acontece envolvendo duas vozes ou entes de uma mesma pessoa em que uma busca influenciar a outra a não se deixar levar por estímulos externos, a aceitar sua própria escuridão e encarar de frente suas limitações morais, suas falhas de caráter, sua transferência de responsabilidade para os outros, sua incapacidade total ou parcial de aceitar o que não pode controlar, sua mesquinhez, medos e egoísmo.

Percebe-se ao fim e ao cabo que ferir o outro é ferir a si mesmo, que julgamentos são menos importantes que o motivo para que eles existam, que boas intenções são geralmente inúteis ou mesmo nocivas. Há uma dor que é mental e que portanto pode ser eliminada ou transformada em outra coisa. Porém há uma dor que dilacera camadas que vão muito além do ego, que não é causada por palavras duras ou atos impensados de raiva. Ela é a dor que se destina a destruir o amor em si, fazer com que se abra mão dele ou que se pense que não vale a pena senti-lo. Por isso dói tanto, porque embora a destruição seja sempre o princípio de outro ciclo e portanto parte indissociável da vida, não se escolhe amar. Tal sentimento se impõe por si só, talvez por ser a própria força motriz de tudo o que existe. Não tem culpa ou remorso de ser o que é nem tampouco age. Amor não age, não faz. Ele é. Não morre, não perde, não se vinga. Não inveja, não aprisiona, não exclui. A impressão que se tem é que trata-se de um sentimento perfeito e elevado demais pra que algum ser humano consiga lidar com ele. Daí surge a insatisfação, “dhukka“, causada pela mente que tenta impor regras e limites a algo que é infinitamente maior e mais completo que ela mesma. Jamais conseguiria.

Do choque entre a mente por definição insatisfeita e o amor inexorável e perfeito surge primeiro os sentimentos de impotência e frustração devastadores, destruindo todas as camadas de vaidade, orgulho e sensação de posse. Debaixo disso, percebe-se que é tudo Mara, ilusão. O amor continua lá, impávido. Inabalável. Ele é a própria força que permite a harmonia entre a Criação, a Preservação e a Destruição e que faz com que os ciclos se alternem seguindo não o padrão da vontade de alguma inteligência humana, mas o da ordenação suprema do universo. Igual para todos mas percebida de forma diferente conforme a consciência de cada um.

Daí surgem a resignação, o aprendizado e a sensação de que o que se busca não é de ser buscado, o que se quer não é de ser querido. Não se trata de acrescentar coisas, mas de saber perdê-las e perceber que ainda assim se ama. Nessa dimensão, não existe perda tampouco insatisfação. É o ser, não o ter. É o próprio Amor.

A flor de lótus nasce da lama. Om Mani Padme Hum.