Natal, coisa e Tao

Mais um Natal vem aí. Por mais que às vezes eu me sinta meio party pooper por ter o costume de ficar procurando a origem das coisas (o “pé da fita” como se diz na quebrada), também é uma coisa que eu gosto muito de fazer, um hobby mesmo. Uma pegada meio historiador amador ocultista questionador subversivo chatolino TDAH hippie punk Rajneesh. Nessa, se tenho um blog pra escrever coisas, não seria o Natal a ficar de fora. Logo ele, provavelmente o evento mais importante da chamada Civilização Ocidental.

Jingle Bells. Sistema Natal in full swing. É um negócio tão enraizado no inconsciente coletivo que muito pouca gente se dá conta do fato de que tem feito em média 37° C em São Paulo por esses dias enquanto dá-lhe decoração de neve e snowman e Papai Noel e rena e o escambau. Todo mundo no rush automático de final de ano, metade reclamando que “passou rápido” e outra metade de 2018 “que não chega logo”, enquanto as luzes piscam, coloridas. Em ambos os casos a mente querendo o passado e o futuro e não o presente, único tempo em que as coisas acontecem. Ansiedade é o mal do milênio.

É relativamente conhecida a ideia de que a História é escrita pelo vencedor, o que significa que as versões dela adotadas oficialmente por países, povos e culturas têm bem mais a ver com os interesses de quem dita as regras naquele contexto do que com a realidade dos fatos propriamente dita. É muito mais difícil emprestar glamour e nobreza (conceitos tão abstratos quanto vazios) às rotinas entediantes da vida, à burocracia, afinal. Bem melhor colocar uma trilha sonora e um cenário, heróis e vilões, bem e mal, Superman versus Lex Luthor.

Legal, mas onde essa filosofia de boteco se aplica ao Natal, meu querido? Menos beating about the bush e mais Merry Christmas.

Então tá. Você tem uma árvore de Natal em casa? Eu não tenho, minha gata Gilda não gosta. Ou gosta demais para deixar uma delas inteira. Mesmo a árvore pequena que tínhamos na sala foi atacada furiosamente. Vira e mexe estava caída no chão ou havia várias bolinhas e enfeites mastigados e espalhados pela casa que acabavam pisoteados, chutados e jogados no lixo. Desistimos. Se você consegue ter uma, parabéns. Faça bom proveito.

Que mané “árvore”, porra nenhuma…

As origens da árvore como símbolo do Natal provavelmente têm a ver com o rigor do inverno em algumas regiões do Hemisfério Norte. Folhas verdes que duravam bastante tempo eram uma espécie de amuleto para alguns povos antigos, uma lembrança do poder do primeiro elemento da natureza a ser tido como um deus: o Sol ( leia em negrito abaixo na parte “digressão”).

As árvores dentro de casa durante o período mais frio do ano espantavam os maus espíritos pois eram um resquício da existência dessa divindade que as fazia existir e erguer-se do chão em direção aos céus. Outros povos consideravam as próprias árvores seres divinos. Uma cultura foi influenciando e incorporando elementos de outra até chegar na cristandade, quando tal crença foi de início combatida e por fim absorvida no melhor estilo “se não pode vencê-los junte-se a eles” que a Igreja Católica costuma adotar caso não consiga impor sua vontade integralmente. No caso, tipo “fala que o formato tem a ver com a ‘Santíssima Trindade’ que cola”. Política é a arte do possível e lá está seu pinheirinho de “prástico” piscando na sala até hoje, com algumas lâmpadas queimadas e uns enfeites meio tortos, capengas. Ficou uma bosta, aliás. Você também tem gato?

E o nosso querido Papai Noel, velho batuta? Originalmente uma mistura de São Nicolau (o termo foi sendo corrompido de Saint Nicholas até chegar em Santa Claus) e o deus germânico Odin, é o capitalismo de roupa vermelha e barba branca. Sua existência baseia-se em uma troca: bom comportamento por um presente, um regalito para ti. Criança pobre não adianta se comportar porque nem assim tem axé, criança rica recebe sua parte no trato de qualquer maneira. Nem precisa entrar no mérito da coisa.
Ainda assim o Papai Noel já fez parte do meu imaginário infantil e gosto do personagem. Particularmente do cara que se caracteriza como tal para ir a eventos com crianças pela brincadeira em si, pelo prazer de ser aquele ícone, aquele avatar. Acho bonito de verdade, principalmente se for um Noel daqueles bem toscos, vestido nuns TNT vermelhos e barba de algodão meio que descolando, suando em bicas no meio da criançada histérica (e em êxtase!). Um sujeito desses vai pro céu direto, sem escalas. Meu heroi. Já o da Coca-Cola eu não gosto. Nem de Coca-Cola eu gosto. Beba Coca-Cola.

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“-Ah, mas Papai Noel preto não existe!”

E tem ainda Jesus no Natal. A dimensão mística, espiritual do evento. Yeshua Ben Yossef e depois Yeshua Hamashia, o Cristo. Senhor e salvador dos cristãos de todas as confissões, origens e denominações. O Verbo Encarnado. O Filho do Homem. Leão Conquistador da Tribo de Judá. Cordeiro de Deus. No Ocidente estamos no final do ano 2017, contados a partir do seu nascimento. Não acho que precise de mais apresentações para você saber de quem estou falando. Não há nenhum registro histórico que ligue o Natal ao nascimento de Jesus, como há muito pouco registro histórico da própria existência de Jesus em si. Além disso as passagens da bíblia muitas vezes são metáforas, alegorias. Outras são inspiradas em textos antigos como a Epopeia de Gilgamesh. Está tudo aí. Quem busca, acha. Ao que bate, abrir-se-lhe-á.

Também se confunde tradição e cultura de um lugar onde a crença evoluiu com cânone religioso, dogma. Você não encontra bíblia alguma que mencione Melchior, Balthazar e Gaspar ou que diga quantos eram os “magos do Oriente” que foram estar com Jesus. No entanto, todos sabem sobre os Três Reis Magos e eles têm um dia no calendário católico, seis de janeiro. O fato é que afirmar que Yeshua Jesus nasceu naquele dia tem 1/365 chances de estar certo e foi inserido artificialmente em um contexto que já existia, o do Sol Invictus (depois copiado pelos césares), que tinha a ver com o solstício de inverno e os três dias em que o sol ficava “parado” ou “morto” no céu até começar a “voltar”, ou “ressuscitar”. Havia um culto ao deus persa Mitra associado a isso. Os romanos passaram a atrelar a tradição existente a Jesus no ano 354 da Era Cristã. Incorporaram a celebração e deram a ela novo contexto e sentido.

Sol Invictus
Sol Invictus, pique Coringão

Eu posso dizer de mim que sou cristão, no sentido de procurar absorver e praticar os ensinamentos de Jesus, de imitá-lo. Faço orações conforme Ele me ensinou com frequência. Acalma minha alma em muitas situações, me ampara, me direciona e me conforta. Mas não sou cristão de dogma, de irreflexão, de parcialidade. Sou buscador, não ovelha. Jesus não é meu nem de ninguém. Nem padre, pastor, sacerdote ou membro de qualquer código ou tradição. Pelo que eu consegui entender até agora seu ensinamento mais fundamental, aquele que faz com que todos os outros sejam possíveis, é “amar ao teu próximo como a ti mesmo”. Poucas palavras. Um universo inteiro de espiritualidade contido nelas. Quando você se percebe no outro, todo o seu comportamento reflete isso. Um círculo virtuoso se inicia.

Religião

Religião por si é uma estrutura essencialmente política. Ateus ou praticantes de cultos não-cristãos não são mais ou menos éticos e sociáveis que ninguém por questões metafísicas, mas por empatia e amor ou falta destes. Jesus (que a propósito era judeu) não disse “ame a outro cristão como a ti mesmo”. Disse para amar o próximo. Ponto final. Qualquer sinônimo de “próximo” se encaixa nessa versão, nessa língua. Conseguir fazer isso já te faz um ser iluminado, chapa, um Buda praticamente. Basta você se imaginar praticando o ensinamento no dia a dia. Não precisa fazer mais nada, só isso já alimenta o ciclo de encontros, afetos, respeitos, cuidados. E aí você vive, evolui, ascende, se eleva.

A fé sem obras é morta, você tem que exercê-la, praticá-la. O resto é querer pegar Jesus pra si. Fundamentalismo irracional e fascistóide, farisaísmo. Só serve pra fomentar ódios, divisões, rancores e incompreensão. Não gosto, não aprovo e não colaboro. Sou a favor da vida: cada um cuidando da sua. Primeiro tirar a trave do meu olho pra conseguir enxergar o cisco no olho do meu irmão. De sangue, de fé ou de existência. Sem rótulos nem código de barras espiritual. Quem sou eu para ter alguma autoridade sobre a espiritualidade alheia? Quanta arrogância ignorante há em quem acha que tem? Cego levando outro cego, caem os dois no buraco.

Gosto da data em si, do que o Natal representa para mim. Estar em paz consigo e com os demais, reunido em harmonia com pessoas importantes ou mesmo sozinho, em reflexão e prática desse ensinamento do Cristo, o amor incondicional. O amor que você dá volta pra você. O que você não dá também. Se te pedirem a capa, nem a túnica recuses. Se te faz andar uma milha, vai com ele duas.

Espero que este texto tenha te alcançado em um momento de paz interior e tranquilidade ou contribuído para que eles se instalem. Seja lá qual for o significado que você atribui ao Natal, que essas palavras possam lhe ter alguma utilidade, nem que seja voltar ao momento da sensação antes da interpretação que a mente dá a ela, transformando o que é positivo em estímulo, negativo em repulsa e neutro em ignorância. Antes que qualquer um desses três aspectos se forme, vedana.

Feliz Natal!

DIGRESSÃO: a afirmação de que “a humanidade inventou deuses para si” não é desrespeitosa com a religião de quem quer que seja, tampouco exclui a ideia da existência de Deus. Não tenho interesse algum, autoridade ou conhecimento para dar palpite, orientação ou parecer de qualquer natureza nesse campo. Estou apenas constatando um fato. Os povos primitivos atribuíam o calor, a luz, o alimento e todo o conforto e perspectivas que o Sol oferecia ao poder de um deus (o que não deixa de ser verdadeiro em um certo sentido).

Existe uma verdade que independe do nome ou forma que as pessoas dão aos seus deuses e ela sempre se manifesta da mesma maneira em todos os lugares e para todos os seres. Queira você (ou tenha sido condicionado a) chamar seu deus de D’us, Jeová, Jah, JHVH (Tetragammaton), Adonai, A Deusa, Allah, Javé, Olorum, Zambi, Brahman, Consciência Cósmica, El, Odin, A Lei, Zeus ou Maradona, a água continua molhada, as coisas sempre caem pra baixo, a noite é escura, o fogo é quente, o arco-íris tem sete cores e a terra gira em torno do Sol. O funcionamento inexorável dos processos do universo, o todo, é também conhecido como Tao, ele mesmo uma forma de se tentar entender Deus, um mistério tão colossalmente grandioso, além do tempo e do espaço, que eu tenho a impressão que qualquer pessoa que tente esquadrinhá-lo usando uma ferramenta tão limitada quanto a mente humana inevitavelmente estará “chutando” e diminuindo o conceito pela simples tentativa de atribuí-lo um nome e uma forma. Mesmo ateus e agnosticos muitas vezes não rejeitam a ideia de uma força causal, criadora em si, mas a atribuição de uma personalidade a ela.

Convenhamos (como diz o místico yogi indiano Sadhguru): se você fosse um búfalo, como seria o seu deus? Certamente um búfalo gigante, talvez com quatro chifres. Também vejo sentido na afirmação que “se os animais tivessem uma religião, o ser humano seria o diabo”. Ou não? 

Toda imagem que qualquer cultura consegue fazer de Deus é uma versão exagerada dela mesma, porque é assim que se imagina conseguir chegar mais próximo de compreendê-lo. O fato é que nos achamos muito especiais e inteligentes, mas sabemos muito pouca coisa sobre quase nada. De todo modo, “a religião certa é aquela que te faz uma pessoa melhor“, mesmo que ela seja nenhuma ou um pouco de cada.